30.9.06

Meme Efeito Borboleta - Butterfly effect meme

Este meme foi criado por Dan do blog Saltshaker e a Paz, gentilmente, enviou-me um email perguntando se eu não gostaria de respondê-lo se tivesse um tempinho... Bem, acontece que ultimamente eu até tenho tido bastante tempo para preencher, terminei de escrever a tese e só estou esperando meu orientador terminar de lê-la e dizer se está tudo OK, e espero que ele diga que está tudo OK, pois não vou ter mais tempo de arrumar muita coisa! Enquanto isso, vou lendo aquilo que tenho vontade de ler: 2 volumes de história da literatura japonesa (estou no segundo), o segundo volume das Mil e uma noites (esse vai devagar e sempre) e um pouco de gramática da língua japonesa. (Tenho cozinhado pouco e sem grande inspiração... vergonha...)

O objetivo do Meme é descrever coisas/momentos/pessoas que tiveram alguma importância em nossa vida "gourmet", que provocaram algum tipo de revelação... (Não sei se vocês assistiram o filme com o mesmo nome, ele é bom apesar de não gostar muito do Ashton Kutcher).

1. Um ingrediente: coentro fresco. Durante muito tempo minha relação com o coentro não foi das melhores, eu odiava seu sabor e cheiro, em minhas lembranças, ele era aquele ingrediente que tornava a sopa da merenda escolar intragável (e olha que faltava pouco para isso!). Não sei em que momento minha opinião sobre esse tempero mudou, hoje não consigo ficar sem ele, especialmente quando preparo guacamole.

2. Um prato, uma receita: a receita de bacalhau a Gomes de Sá de minha sogra. É uma receita de família que minha sogra sempre prepara quando vamos almoçar em sua casa. Foi o melhor bacalhau que comi, pedi a receita e ela, não sem alguma relutância, disse como era preparado. Demorei para dominar todo o processo de dessalgar o bacalhau, mas cheguei à conclusão de que o tempo e os erros são os melhores mestres. Hoje, faço a receita sempre que tenho vontade.

3. Uma refeição (em uma casa, em um restaurante, qualquer outro lugar): quando era criança eu morava em um bairro afastado da cidade, as casas não tinham muros e a molecada se reunia para brincar na rua. Tínhamos um hábito que repetíamos com uma certa frequência, a garota mais velha do grupo (ela deveria ter uns 12 anos, eu tinha 8) pedia que cada criança trouxesse um ingrediente qualquer de casa (uma porção de arroz, macarrão, algum legume). No dia combinado cada um levava sua contribuição e ela acendia uma fogueira entre dois blocos de concreto, colocava uma panela em cima e fazia uma grande panelada de arroz com legumes e macarrão. Ficávamos todos sentados ao seu redor esperando a refeição ficar pronta, cada um recebia seu prato e comíamos como se não houvesse nada melhor no mundo! Até hoje acho que aquele arroz tinha um sabor muito especial.

4. Um livro de culinária ou outro trabalho escrito: Corta-me o coração saber que destruí os livros de culinária do açúcar União que minha mãe tinha guardado, mas ela não deveria tê-los mantido ao meu alcance quando eu era criança! Também me arrependo de não ter guardado um dos livrinhos de receitas que eu e meus irmãos tínhamos montado na escola como presente de dia das mães, havia muitas receitas simples e boas: bolo de banana, amendoim doce, torta salgada...
Atualmente, meu livro favorito é o Crazy Water, Pickled Lemons, porque ele foi um presente e porque ele é muito bom.

5. Uma personalidade do mundo culinário (chef, escritor, etc.): Gosto da Nigella Lawson, foi um dos primeiros programas de culinária que vi na tv. Ela é uma mulher muito bonita e parece muito forte e positiva, apesar de ter perdido um marido, uma irmã e a mãe para o câncer.

6. Uma outra pessoa em sua vida: Minha avó. Não posso dizer que ela tenha sido uma influência positiva em minha vida gourmet, mas eu achava um barato a maneira como ela resolvia o dilema do que fazer para as refeições. Ela morou sozinha durante algum tempo e, durante esse período, eu costumava ir quase todos os sábados visitá-la sozinha, eu tinha uns 10 anos, meu pai me deixava perto da oficina de eletrônica que tinha na época e eu pegava um ônibus até o apartamento de minha avó. Passava o tempo vendo-a costurar (ela costurava para lojas da cidade e sempre tinha pilhas de peças para montar), xeretando suas coisas e verificando a floração das plantinhas que ela mantinha no parapeito das janelas do apartamento. Não sei se ela me considerava uma visita indesejável, talvez sim, mas nunca demonstrou. No meio da manhã, íamos comprar frutas em um feirinha das proximidades e comíamos um pastel. Às vezes, almoçava com ela, o menu consistia em um grande "sopão" feito com misoshiru, somen (um macarrão japonês fininho), arroz e até feijão cozido que ela havia preparado no dia anterior e requentava até acabar. Naquela época, eu achava a idéia genial, pensava em como ela era prática e me imaginava fazendo o mesmo quando morasse sozinha. Após algum tempo, minha tia foi morar junto com ela e acho que ao menos seus hábitos alimentares melhoraram. Minha avó comprou seu apartamento com o dinheiro da costura e trabalha até hoje (com 84 anos). Ela é meu exemplo de força de vontade e energia.

Convido todos aqueles que desejarem responder este meme a fazê-lo!


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This meme was created by Dan from Saltshaker and Paz kindly sent me an email asking if i didn't want to answer it if i had time. Well, lately i've had plenty of time to fill, i've finished writing my thesis and now i'm here just waiting for a positive answer from my tutor (I don't know if that is the correct word to use), hope he says that everything is OK after reading it because i won't have much time left to correct anything. Meanwhile, i'm reading all the books i've postponed reading: two volumes on Japanese literature history, the Thousand and one nights and a book on Japanese Grammar. (I've not been cooking much though!)

In this particular Meme we are supposed to describe things/moments/people that had some influence on our "gourmet" lives... (Have you seen the movie with the same name? I'm not an Ashton Kutcher fan but it is good!).

1. An ingredient: fresh cilantro. During part of my life i hated its smell and flavor, it reminded me of a terrible soup which used to be served at school. At some point, my opinion about this herb changed and now i can't live without it, can you imagine guacamole without cilantro?

2. A dish, a recipe: my mother in law's Portuguese codfish recipe. It is a family recipe which my mother in law always cooks when we visit her. It is, honestly speaking, the best codfish i've ever eaten. I asked her for the recipe and she gave it to me, (a little reluctantly). It took me some time and patience to master the whole process (you have to soak the codfish in water and pour boiling water over it to remove the salt, but time and mistakes are great teachers!). Today i can prepare the dish whenever i want to.

3. A meal (in a restaurant, a home, elsewhere): when i was a kid, i lived in a very isolated neighborhood, the houses didn't have fences and the kids could play on the streets. My comrades and I had a habit we used to repeat frequently, the oldest girl among us (she was 12 years old, I was 8) asked each one of us to bring an ingredient (a bit of rice, noodles or a vegetable) from our houses. In the following day, she used some dry branches and wood to light a fire between two concrete blocks, put a big saucepan over it and cooked some rice with whatever ingredient we had brought her. All the kids sat around the saucepan, waiting for the meal. When it was done, each one of us received a plate and we ate with pleasure. That was the best meal i've ever had!

4. A cookbook or other written work: it breaks my heart to remember that i have torn all my mother's cookbooks to pieces, but she shouldn't have given them to me when i was young! Nowadays, my favorite cookbook is Crazy Water, Pickled Lemons, because it was a gift and because it is really good.

5. A food "personality" (chef, writer, etc): I like Nigella Lawson, hers was the first cooking program i've seen on tv. She is a beautiful woman and seems to be very strong and positive about life, even after having lost a husband, mother and sister to cancer.

6. Another person in your life: My grandmother. I can't probably say that she was a positive influence on my gourmet life, but i found her way of managing her cooking dilemmas really good. She lived alone for some time after my grandfather died, during that period, i used to pay her a visit almost every Saturday because i thought that she was too lonely, i was 10 years old, i took a bus near the place where my father worked at that time and went to my grandmother's little apartment. There, i spent my time watching her sew and looking at the vases of plants which she had in front of the windows. I don't know if she considered me an undesired intruder, maybe, but she never complained. In the middle of the morning, we went out to buy some fruits and vegetables in a nearby farmer's market, we ate something and returned to the apartment. Sometimes we had lunch together, her menu was always the same: a big saucepan of a "soup" she had cooked the day before with miso, somen (a sort of thin japanese noodle), rice and even beans. She ate that soup at every meal until it finishes. At that time i found her idea really amazing, it was practical and i could imagine myself doing the same in the future (i hated so much to cook!). After a while my aunt came to live with my grandmother and i believe that her nutritional habits improved. She is my model of willpower and strength, she worked her whole life (she is 84 now) and bought her apartment with her sewing money.


20 comentários:

miki w. disse...

karen! que bom q a tese está chegando ao fim! estou torcendo para que o seu orientador ache tudo lindo - rs!
adorei suas respostas, especialmente a do arroz cozido no meio dos blocos (especial!) e da sua o-bachan! nesses tempos de criança há sempre alguma ternura a relembrar...
bjs, ótima semana,
miki

miki w. disse...

ah, esqueci-me de dizer no post anterior: conta mais sobre os volumes de literatura japonesa! fiquei interessada :-)!

Karen disse...

Miki, coloquei um link para o livro do Donald Keene, Dawn to the west, no texto. O engraçado é que na Amazon dizem que são dois volumes... Mas são 3, eles cobrem os autores a partir da era Meiji (se não me engano) até por volta dos anos setenta.

renata disse...

Gosteu tanto deste post, Karen.A disposição da tua avó,plantas no parapeito da janela,brincadeira de comidinha.Fiquei lendo com 'flashes' na mente.Ah, em uma das bibliotecas que frequento tem uma coleção completa do Açúcar União, talvez seja a mesma a que se refere.Aquilo é um charme mas nao se preocupe, isso acontece.Vivi uma história parecida com o primeiro livro de culinária da minha mãe.Ele era bonitão,cor púrpura,capa dura.Lá tinha uma receita de doce de chocolate que eu amava fazer.O danado do livro sumiu sobre a minha guarda.Imagine.

Karen disse...

Miki, fui checar os livros Donald Keene, são dois volumes mesmo, eu estou lendo fotocópias e a pessoa que tirou a cópia do segundo volume resolveu dividi-lo em dois!

Renata, pelo jeito, são coisas que acontecem... rs

Sonia disse...

Olá Karen, passei rápido hoje para agradecer a você os parabéns pelo meu Blog Aniversário! Foi ótimo encontrar você! Vou voltar amanhã com mais calma para ler este post.

Enquanto isso, envio abraços através deste lindo vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=vr3x_RRJdd4

Akemi disse...

Karen, parece que nossas avós adoravam fazer essa misturança no misso shiru! rss
Em casa também, comíamos umas misturas bem exóticas tipo sukiyaki amanhecido com pão francês no café da manhã! rsss
Essas fases de não querer encarar as panelas acontecem mesmo, não esquenta e nem precisa de vergonha, não!

miki w. disse...

karen, bem legal! mas parece q são 3 volumes mesmo:
vol i: seeds in the heart (japanese literature from earliest times to the late sixteenth century)
vol ii: world within walls (japanese literature of the pre-modern era 1600-1867)
vol iii: dawn to the west (japanese literature from the modern era)
o vol ii me parece especialmente interessante!
boa leitura! bjs, miki

Karen disse...
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Karen disse...

Sonia, obrigada! Posso dizer o mesmo! Vou dar uma olhada no video!

Akemi, em casa não é só minha avó não! Meu pai também faz uma misturebas que dão gosto! rs

Miki, estou lendo o "Dawn to the west" e são dois volumes grandes mesmo. Devo ter uma cópia (vivo no xeroqueiro!) do "Seeds in the heart". Acho que vale a pena ler, só as biografias dos escritores modernos já dariam romances! A maioria teve vidas tão complicadas e miseráveis!

miki w. disse...

puxa, q triste... como diz um amigo meu "vc quer ser poeta? poetas vivem em penicos fumegantes de merda".
é triste, mas tenho q admitir q é verdade... se vc quer ser um purista e viver de arte... muito provavelmente vc terá uma vida assim :'(...
bem, já está na minha wish list (rs) que só aumenta!
valeu pela dica, karen!
bjs, miki

Karen disse...

Miki, imagem forte essa do seu amigo! Mas acho que viver de arte exige renúncia e sacrifício (a menos que vc tenha nascido em berço de ouro).

miki w. disse...

é isso mesmo, karen. como diria outro amigo, "precisely". principalmente se vc quiser se manter fiel aos seus ideais e não "se vender ao sistema", o q deve ser uma angústia muito grande para os artistas...

Sonia disse...

Olá Karen, acabei de responder a seu e-mail. Obrigada pelos seus comentários.

Gostei muito deste post, você escreve muito bem!
Há um doce japonês que eu acho delicioso, que eu comprava sempre em Pinheiros, bairro onde sempre morei, até me casar e me mudar para outro bairro. É um doce de feijão branco, não em pasta, mas com os grãos açucarados. Tentei fazer mas não chegou nem perto... Você tem essa receita? Adoraria fazer.
PS: vou criar o hábito de voltar ao post para ver as respostas.

Sonia disse...

Ah! esqueci de comentar: seu inglês é ótimo! Ler o texto em português e depois em inglês vai ser para mim uma ótima maneira de melhorar o idioma! Abraços!

Fezoca disse...

Karen, eu tambem tive essa experiencia de fazer a comida num fogareiro, so que nessa era eu a lider! faziamos arroz, no galinheiro que tinha no quintal da minha casa e que faziamos de casinha, porque raramente tinha galinha la! :-)

Sua avoh eh uma fofa!:-)

beijos,

Brisa Carter disse...

Karen, tudo bem??

Tenho ficado away e low profile por motivos proprios ( os mesmos que me fazem NAO ter mais um blog)..enfim.

Emocionei com o post da avohzinha - nossa!! Como eu AMEI e amo minha avoh, que faleceu em 1973. Que triste, mas que legal ler teu post..

Desculpa invadir assim, tao sentimental, mas falou em avoh, eh comigo mesma..heheh

Bjs

Bri

Karen disse...

Fezoca, depois que me mudei mantive o hábito e também passei a "organizar" as refeições ao ar livre! Era muito bom!
Minha avó é fofa mesmo! Deu saudades!

Brisa, eu também gosto muito da minha avó, sinto ter me afastado um pouco depois do casamento, mas é a vida...
Depois vc precisa contar o que aconteceu para ficar sumida!

Paz disse...

THanks for participating, Karen! I enjoyed reading your responses!

Paz

valentina disse...

Karen, como todos fiquei tocada pela parte da tua avó.Não só pelo conteúdo mas também pela forma linda que você narra.Tens o dom da palavra.Amei querida.