12.1.09

Mais filmes

Tenho visto vários filmes nestas férias. Durante as festas assistimos a 8 episódios de Berlin Alexanderplatz do Fassbinder, foi meu presente de Natal para o O., ainda faltam 4 episódios. O filme (ou longa longuíssimo) conta a história de Franz Biberkopf,  um homem que sai da prisão após cumprir uma pena de 4 anos por ter matado sua namorada.  Vemos Berlim no período entre guerras, a pobreza geral, a inflação galopante, o desemprego, e Franz procurando reconstruir sua vida, levando tombos, enchendo a cara (às vezes dá vontade de chamá-lo de Franz "Bierkopf"). Ele faz um tipo de filósofo de boteco atormentado e por vezes bonachão, apesar de sua situação precária, sempre há mulheres por perto dispostas a fazer tudo por ele. O filme é longo, o clima meio sombrio, e, aqui e lá, vemos sugestões de que Hitler está por perto...
Quero terminar de ver o resto, espero que  O.  se anime.

Dentre os filmes mais recentes, vi WALL.E que merecidamente ganhou o globo de ouro de melhor animação ontem. A história do robozinho solitário e carente em uma Terra coberta de lixo é muito bem feita, apesar de poucos diálogos, ela é comovente.
Também vi Milk, o Sean Penn está ótimo como Harvey Milk, o ativista e político que defende os direitos dos homossexuais em São Francisco. Só não me conformo com o fato do cara ter sido assassinado por um colega político a troco de nada.

Por fim, vi Vicky Cristina Barcelona do Woody Allen. Dos três últimos filmes dele é, de longe, o melhor. Realmente ótimo. O Javier Bardem está muito bem como o pintor espanhol que encanta duas turistas americanas (Scarlett Johansson e Rebecca Hall), ele se posta na frente das duas em um restaurante e as convida para ir a uma cidade do norte da Espanha com ele, sexo "inclusive". Ele diz exatamente o que pretende para cada uma delas e não mente em momento algum. Seduzir é mesmo uma arte, pena que muita gente a confunda com sacanagem. Outro personagem magnífico do filme é a cidade de Barcelona, você sai do filme com vontade de ir lá tomar um porre de lugares pitorescos, Gaudí, restaurantes românticos, barzinhos simpáticos...

A música inicial, de Giulia y los Tellarini, é muito gostosa de se ouvir.

8.1.09

Cidade X

relativity 
(Obra: Relatividade de Maurits Escher)

Era sempre uma experiência estranha ir para a cidade X com meu pai. Não me lembro se ele pedia que eu o acompanhasse ou se eu me oferecia para ir junto no dia anterior à partida. Sei que de repente me via dentro de um ônibus e logo estava no meio de uma grande cidade. Várias pernas indo de um lado para o outro passavam na altura de meus olhos. E tudo era cinza e o ar tinha um cheiro estranho, um misto de urina e mofo. Caminhávamos pelas ruas da cidade durante o que me pareciam longas horas, meu pai segurava uma de minhas mãos e eu corria para acompanhar seus passos, corria ainda mais para atravessar as ruas antes que os semáforos mudassem de cor. Depois subíamos e descíamos várias escadarias de prédios antigos. Elas eram escuras, os degraus sujos e meio gastos pelo tempo. Entrávamos e saíamos de salas onde meu pai conversava com alguém atrás de uma escrivaninha coberta de papéis, as janelas fechadas deixavam o ambiente abafado, sem ter o que fazer, eu olhava para o céu e observava as nuvens escuras movendo-se lentamente atrás dos vidros.

Nunca soube o que meu pai ia fazer ali, tinha apenas a impressão vaga de que era algo relacionado com as suas longas ausências a trabalho. Não gostava da cidade X, entretanto, não consigo esquecê-la, ela ficou enraizada em algum lugar de minha memória e, sem que me dê conta, de repente me vejo outra vez em uma de suas ruas, em uma de suas escadarias.


2.1.09

Lemon tree

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"Lemon Tree" é um filme dirigido por um diretor israelense que nos faz refletir sobre o beco sem saída em que a questão entre israelenses e palestinos se encontra atualmente, o melhor é que ele faz isso com sensibilidade, mostrando como a política, religião e preconceitos afetam a vida de pessoas comuns.

A história é sobre uma viúva palestina que tem uma plantação de limoeiros, tudo vai bem até que o ministro da defesa de Israel muda-se para uma casa que fica bem na frente de seus limoeiros e exatamente na fronteira com o território palestino. Logo a viúva recebe uma carta declarando que os limoeiros constituem uma ameaça para a segurança, pois terroristas podem se esconder entre eles para atacar Israel, e que, portanto, eles devem ser destruídos.

Apesar da viúva ter direito a uma indenização, ela se recusa a destruir a plantação que herdou de seu pai e decide entrar na justiça contra o ministro. Seu caso recebe uma grande cobertura da mídia e torna-se um grande problema para o ministro da defesa.

Mas o mais interessante é observar as duas protagonistas do filme, a viúva palestina e a mulher do ministro. Apesar de praticamente não trocarem nenhuma palavra, mais do que animosidade, ambas parecem sentir interesse uma pela outra, afinal, antes de estarem em lados contrários da fronteira, as duas são mulheres, mães e infelizes. A mulher do ministro é inteligente e educada, mas seu marido não a valoriza e tem um caso com sua secretária. A viúva, por sua vez, apaixona-se pelo jovem advogado que contrata e passa a ser assediada pelos "defensores da moral" de sua vila que vira e mexe batem em sua porta para perguntar o que está acontecendo e lembrá-la de que ela deve respeito ao seu falecido marido.

A decisão final da Corte sobre o caso ilustra bem o impasse que existe no relacionamento entre judeus e palestinos.