31.5.10

Dentro do ônibus III

Nenhum ônibus me preparou para aquele que teria que encarar depois de vir habitar o castelo (?) de meu príncipe encantado. Ele passa por aqui quatro vezes por dia em horários esquisitíssimos. Primeiro ouço seu som longíquo, depois vejo o pó que sua carroceria levanta e, finalmente, ele surge na curva da estrada.

Nos bons tempos eu levava um lenço para limpar os bancos cobertos de poeira, mas hoje em dia eu me limito a usar uma roupa que possa sujar sem dramas. Ele transforma os 8km que me separam da civilização em uma hora de viagem. Uma hora sacolejando por várias estradas de terra, percorrendo fazendas, atravessando canaviais, bambuzais, engolindo poeira vermelha.

Eis o elo vital que liga a área rural a aquilo que poderia ser chamado de minha cidade, mas que eu considero apenas um ponto de passagem para algum outro lugar, um outro lugar muito desejado, porém ainda indefinido.


30.5.10

PF


Não se trata de PF=Prato feito, mas de PF=Polícia Federal.

Decidimos tirar passaportes para voltar a ter um documento válido (caso haja um imprevisto feliz qualquer).

Preenchemos o formulário na internet e fizemos o agendamento (quer dizer, eu fiz). Encontrei várias datas livres para dali a 15 dias, mas com todo esse negócio de instalação de móveis e reforma, marquei para depois de um mês. Chegamos 15 minutos antes e, para nossa surpresa, fomos chamados logo em seguida. Saímos antes de nossos horários! Nem acreditamos, estava até com vontade de colocar um post elogiando a PF, por sorte, não fiz isso tão cedo. Fomos buscar o passaporte na semana passada, após uma semana, e tomamos um chá de cadeira de quase 1h e meia. Pegamos uma senha e ficamos sentados. Estava até achando que o problema era só para retirar os passaportes prontos, mas nossos vizinhos de cadeira tinham feito agendamento para fazer os ditos-cujos e estavam ali há mais de uma hora.

Pelo visto, a PF também tem fases como a lua.

O passaporte novo é azul e as impressões digitais e a assinatura são eletrônicas. Uma beleza assinar com aquela caneta sem tinta e ver o resultado depois. A foto também é tirada na hora, não há espelho e o cara pede para que você dê uma olhada em uma foto no micro de um tamanho mínimo. Será que alguém pede para tirar outra? (A minha até que não ficou tão ruim quanto imaginei).

Quando retirei o passaporte, disseram que eu devia fazer um outro RG porque o meu foi emitido em 92 e isso poderia gerar problemas com a imigração. Lá vou eu fazer outro documento. Até é bom, odeio a foto do meu RG. Tinha 13 anos, estava de óculos (alguém tira foto para documentos de óculos?) e com cabelão, a própria Ugly Betty.


27.5.10

Terrina de dois salmões

Uma forma diferente de servir salmão. Fica muito boa com uma salada e é bem fácil de preparar. Encontrei a receita no blog Papilles et Pupilles.
Fiz metade porque o pedaço de salmão que comprei era pequeno, mas a terrina acabou ficando fina. Ela teria ficado mais bonita com a receita inteira. Coloquei uma fatia de pão de forma para que ficasse um pouco mais consistente, mas acho que não é necessário. Deve ficar bom também como cobertura de uma quiche.



Terrina de dois salmões

500g de filé de salmão sem pele e sem espinhas em pedaços
3 ovos
250ml de creme de leite
sal (não muito porque o salmão defumado já é bem salgado), pimenta
2 c sopa de salsinha
200g de salmão defumado

Bata todos os ingredientes no processador de alimentos (não bata muito, o suficiente apenas para picar tudo sem transformar a mistura em uma pasta homogênea, os pedacinhos de salmão ainda devem estar visíveis)
Coloque 1/3 da mistura em uma forma de bolo inglês, cubra com metade dos pedaços de salmão defumado. Espalhe mais 1/3 da mistura, o resto do salmão defumado e termine com o 1/3 restante da mistura de salmão fresco.
Asse em forno pré-aquecido em banho-maria por cerca de 50 min. (Coloque a forma coberta com papel alumínio em uma forma maior com água pela metade, como se fosse um pudim).
Retire o papel alumínio 5 minutos antes do final do cozimento
Deixe esfriar e conserve na geladeira. Desenforme antes de servir. (Eu servi morno).

26.5.10

Em um universo pararelo...

(Max Kuehne, sem título)

Há uma pequena cidade cortada por um rio e vigiada por uma igreja. Lá as pessoas ainda compram pão fresco todos os dias e andam de bicicleta sem marchas para medir suas forças com as ladeiras.

23.5.10

Summertime - J.M. Coetzee


Último romance lido (se é que se pode chamá-lo assim). Último livro do Coetzee. Ele supostamente é a compilação de relatos de algumas pessoas que conheceram o autor no período em que ele tinha cerca de trinta anos e vivia na África do Sul. Há até mesmo uma brasileira entre as mulheres que teriam tido algum tipo de relacionamento com ele.
Coetzee faz uma brincadeira consigo mesmo, pois os relatos teriam sido recolhidos após a sua morte. Macabro? Acho que não, parece mais uma forma de estragar o prazer dos futuros biógrafos e misturar ficção com realidade.
Como sempre, ele não é nada generoso consigo mesmo, todos o descrevem como um tipo esquisito, isolado, com dificuldades para se relacionar com outras pessoas, um peixe fora d'água. O sucesso posterior e a fama como autor praticamente ficam em segundo plano e os relatos sobre o contato de cada uma das pessoas com Coetzee servem mais de pretexto para que elas falem sobre suas próprias vidas e também sobre a Africa do Sul, o apartheid, as barreiras de relacionamento. De certa maneira, Coetzee deixa entrever por que deixou o país quando era jovem e imigrou definitivamente para a Austrália depois de se tornar um autor famoso.
Leitura agradável, texto bem escrito, como era de se esperar, mas não se tornou um de meus favoritos do autor.


20.5.10

Rolhas e garrafas

Faz tempo que não escrevo nada sobre vinhos apesar de não ter deixado de bebê-los. Há muitos blogueiros (acho essa palavra horrorosa, mas ela é incontornável) que entendem muito mais do assunto do que eu, por isso, fico sem graça em falar sobre a bebida. Eu nem bebo tanto assim, sou bem modesta, uma taça ou duas para acompanhar uma boa refeição.

Saibam que quando eu disser algo sobre eles, trata-se de uma opinião pessoal. Li alguns livros, mas isso não mudou minha vida, nem me tranformou em uma "expert", foi o mesmo que ler um livro de viagem sobre a Turquia. Você sabe que há bazares, mesquitas, que se come kebab, mas é tudo meio vago. Não é o mesmo que ir até lá.

Ademais, minha crença é a seguinte: há quem goste de jiló, há quem não goste, mas o fato é que sempre há quem o coma, o mesmo ocorre com os vinhos, há quem goste de um tipo, há quem não goste, mas uma garrafa sempre encontra quem a entorne.

Isso posto, gostei do Tabalí Pinot Noir acima, e o vinho feito com a Pinot Noir nem sempre agrada ao meu paladar, mas este é o segundo vinho chileno feito com ela que achei muito bom. O primeiro (que para mim ainda é o primeiro) é o Amayna da Garcés Silva.

***

Uma vez disse que adorava colecionar/guardar pedras, o que esqueci de mencionar é que também guardo garrafas de bebidas e rolhas. De tempos em tempos eu tenho que me desfazer das lindas garrafas de Kirsch, Frangelico, Drambuie, etc., para ter espaço. Felizmente, rolhas são menores. Elas são colocadas dentro de um pote e servem de enfeite, além disso, podem ser usadas para tapar garrafas de bebidas mais longevas cujas rolhas se estragaram.

19.5.10

Bolo mármore de chocolate e chá de menta

Receita do blog La Dolcetteria, o bolo não leva leite e é bem macio, o resultado é muito bom. Achei a ideia de abrir o saquinho de chá e colocar seu conteúdo diretamente na massa diferente, as folhinhas pontilham a parte mais clara e dão um sabor sutil dependendo do sabor do chá. O que usei era de hortelã com jasmim e a flor prevaleceu.

Bolo mármore de chocolate e chá de menta

3 ovos
250g de açúcar
120ml de óleo (usei um pouco menos, cerca de 90-100ml)
140ml de água
260g de farinha com fermento (adicione 1/2 c sopa de fermento em pó à farinha normal)
1 c café de essência de baunilha
8g de chá de menta ou chá verde (usei um sachê de chá de menta com jasmim)
40g de cacau em pó
raspas da casca de um laranja (não usei)

Bater os ovos com o açúcar até obter um creme claro. Ainda na batederia, adicionar o óleo em fio, a água, as raspas de laranja, o chá e a farinha com o fermento. A massa é consideravelmente líquida. Colocar metade da massa na forma previamente untada e enfarinhada. Adicionar o cacau à massa que restou e derramá-la sobre a massa clara.
Assar à 180C por cerca de 45min. (Faça o teste do palito).

17.5.10

Update de uma pequena reforma


(pia com o espelho bem alto para esconder estragos)

O problema da pia foi resolvido satisfatoriamente, o espelho novo foi colocado depois de algumas trapalhadas do instalador. Demorou cerca de 2 horas para o cara conseguir terminar o serviço que foi bem "mais ou menos" e, na hora de ir embora, ele ainda disse que o máximo que poderia ocorrer agora era "um vazamento na torneira", muito reconfortante, visto que não posso nem pensar em mexer no encanamento com o mármore na parede.

A instalação dos armários, que deveria ter ocorrido no sábado, será feita (talvez) amanhã. A loja me disse que houve "imprevistos".

Em compensação, o pedreiro que o O. chamou para trocar a caixa de gordura de casa veio no dia combinado e fez tudo direitinho. Ele já havia trabalhado conosco e sempre foi impecável.

Dessas experiências, tiro duas máximas:

"Bons médicos e bons pedreiros, se encontrar, pegue e não largue mais." (Ok, os médicos entraram aqui devido a outras experiências, mas não deixa de ser verdadeiro.)

"Ao contratar um serviço, nunca acredite que ele será feito na data combinada, assim você não se decepciona se isso não ocorrer e ficará feliz se tudo der certo."

An education


Tenho visto filmes bem interessantes ultimamente, fazia tempo que não passava algumas horas diante da TV. Devo estar ficando chata, agora, se um filme não engrena na primeira meia hora, eu já desisto e vou fazer outra coisa, ler algumas páginas de um livro ou ver um programa que deixei gravado.
O mais recente foi An Education, que concorreu ao Oscar deste ano. Outro filme dirigido por uma mulher, é, as diretoras estão aí para ficar. A história se passa em um subúrbio da Inglaterra dos anos 60 e trata de um daqueles velhos clichês: garota é seduzida por homem mais velho e sua vida é transformada por essa experiência.
É um clichê, mas a história é bem contada e isso faz a diferença. Os atores também foram bem escolhidos, apesar da personagem principal, uma adolescente de 16 anos, ser interpretada por uma atriz com bem mais de 20 anos.
Fico sempre me perguntando se as adolescentes hoje em dia são tão interessantes e espirituosas quanto nos fazem crer os filmes. Jenny, de An Education, gosta de ler os existencialistas, toca violoncelo, ouve Piaf e entende de pintura. A personagem de um outro filme, Juno, a adolescente que fica grávida e decide entregar o bebê para adoção também é uma garota extremamente inteligente (um pouco enervante talvez) que toma todas as decisões sozinha. Eu tinha minhas certezas inabaláveis, como qualquer adolescente, mas acho que era bem mais ingênua e insegura. Afinal, há adolescentes assim?

13.5.10

Dois filmes sobre o Cairo



Cairo Time é um filme que o O. assistiu uma noite sozinho enquanto eu dormia (essa semana foi cansativa) e recomendou que eu também visse. Fiz isso hoje à tarde. O filme começa com Juliette, uma inglesa de meia idade que trabalha para uma revista feminina, chegando no aeroporto do Cairo. Ela é recebida por Tareq, um amigo de seu marido, como este último trabalha para a Onu e ficou retido em Gaza, as férias a dois não começam como planejaram. Tareq é quem mostra a cidade a Juliette e a acompanha em passeios de barco pelo Nilo e pelos bazares na ausência do marido. Há romance no ar, mas nada definitivo acontece.
Apesar do filme mostrar o trânsito caótico do Cairo, fazer uma leve referência à questão palestina e a alguns problemas sociais, a cidade mostrada é a mais moderna, bem cuidada e turística. Um pouco como Woody Allen mostrou Barcelona em Vicky, Cristina, Barcelona (aliás, a atriz que interpreta Juliette era a tia da Vicky). Filme sensível, dirigido por uma diretora.



O segundo filme cuja história se passa na cidade é Yacoubian Building. Ele é baseado em um romance de um autor egípcio, Alaa-al-Aswany, e, diferente de Cairo Time, trata de questões bem delicadas como o homossexualismo, a prostituição, o fundamentalismo islâmico, a falta de perspectiva dos jovens das camadas desprivilegiadas, a decadência da sociedade. Cada um dos temas é centrado em um personagem que mora ou trabalha no prédio Yacoubian.
O que eu não sabia e descobri assistindo ao filme é que as pessoas mais pobres vivem nas coberturas dos prédios, em construções precárias que abrigam os migrantes vindos do interior do país, algo bastante chocante (para quem sempre achou que "cobertura" fosse o melhor ponto dos prédios).

Os dois filmes são muito bons, mas as perspectivas são diferentes. Para quem deseja conhecer o Cairo.

8.5.10

Frango oriental com pimentão castanhas

Receita simples.
Corte um peito de frango em cubos médios, tempere com shoyu e mirin (um saquê licoroso vendido em lojas de produtos japoneses), polvilhe um pouco de maisena e misture muito bem. Doure o frango em uma frigideira antiaderente com um pouco de óleo, retire da frigideira e coloque sobre um prato (o impoortante é estar dourado, o cozimento é completado depois). Na mesma frigideira, adicione um pouco de óleo de gergelim (importante, pois ele dá um perfume especial ao prato) e refogue dois pimentões (verdes ou vermelhos) por alguns minutos. Adicione uma porção de castanhas inteiras ou picadas (pará, caju, amendoim, amêndoas) e o frango reservado. Misture bem e termine de temperar adicionando shoyu, mirin e saquê a gosto. Cozinhe até que o frango esteja cozido e o caldo fique mais espesso, caso seja necessário, adicione um pouco de água. Sirva com arroz.

Queijinho

Passei a comprar queijo de um senhor que passa pelo condomínio todos os sábados. Ele vem num carro que já deve ter uma boa "quilometragem", pois eu sei que ele chegou quando ouço o barulho do motor. Ele me disse que mora no bairro e que o queijo é de produção própria.
Nas primeiras vezes foi o O. quem o recebeu, eu fazia aulas de alemão na época, e ele sistematicamente dizia que não queria nada. Depois que passei a ter as manhãs de sábado livres, resolvi experimentar o tal queijo daquele homem que não se intimidara com os vários nãos e continuava a bater palmas no portão. Fiquei um pouco receosa ao ver as caixas de isopor carcomidas, meio empoeiradas por causa da estrada, e o queijo colocado apenas dentro de um saco plástico, mas resolvi experimentar. Como o vendedor é conhecido das pessoas da área, caso houvesse algo errado, poderia procurá-lo e tirar satisfações. Felizmente, isso não foi necessário, o queijo é bom. Costumo comprar o queijo mais curado, que ele chama de "coalho" (o cortado pela metade na foto), mas o queijo fresco também é bem feito (o redondo da foto).
Lembro que meu pai comprava queijos de alguém assim, um queijo "nózinho" muito bom. Vendedores de rua são cada vez mais raros, não vejo mais a mulher do yakult nem escuto a "buzina" dos vendedores de sorvete ou algodão doce.
Sou a favor da vigilância sanitária e da regulamentação, mas um pedaço de mim se recorda muito bem de uma época, já distante, em que eu andava pelo bairro ajudando uma amiguinha a vender salgados...

Pão, pão, pão!

Nada melhor do que um pão caseiro com um pouco de manteiga, não é mesmo? Até gosto de alguns pães de forma integrais vendidos nos supermercados, (o de quinoa com castanha do pará da Wickbold é ótimo quando é fresquinho), mas de vez em quando eu sinto uma grande necessidade de comer um pãozinho feito em casa. A receita é a de sempre.

E ando precisando de algum tipo de "comfort food". A pia continua do mesmo jeito, o pessoal da marmoraria veio, mas não pôde completar o serviço porque seria necessário quebrar um pouco da parede ao redor das torneiras para colocar os alongadores e depois o espelho de mármore. Os dois não tinham os apetrechos apropriados. Terceiro round marcado para terça-feira, quero só ver no que isso vai dar...

Agora O. decidiu que precisamos trocar a caixa de gordura da casa. Ela está nojenta (desculpem o assunto), mas sinceramente eu não estava a fim de ficar sem poder usar a pia e o tanque. O pedreiro disse que é trabalho para um dia, mas eu DUVIDO. Acho impossível fazer a troca da caixa sem ter que mexer no encanamento todo, e ele passa por baixo da casinha do botijão de gás. Pia, caixa de gordura, instalação dos armários da cozinha, tudo na mesma semana. Minha Cassandra interior prevê nuvens negras pela frente... Espero que ela esteja errada.

Torçam por mim. Vou comprar um estoque de comida congelada, just in case...

2.5.10

Dentro do ônibus II

Mais uma para a série dentro do ônibus.

***

Entrei no ônibus que estava parado no terminal pela manhã e me sentei. Havia umas poucas pessoas em outros assentos. Um senhor de uns 60 anos entra e vai lá para a frente do corredor e começa o seu discurso:

"Pessoal, desculpe incomodar vocês, mas eu preciso comprar uma passagem para ir até X (nome de uma cidade da região) para o enterro da minha filha que morreu em um acidente de moto. A passagem custa R$ 21,00, quem me ajuda a completar a passagem, pelo amor de deus? Eu sou um humilde sorveteiro que trabalha aqui pelo terminal. Quem me ajuda?"

Ele anda pelo corredor esperando pelas contribuições, um pedaço de mim, uma parte que sente um pouco de vergonha e culpa, fica se remoendo sobre se deve ou não dar alguma coisa, mas aguento firme, por princípio, não dou dinheiro para quem o pede, mas algumas pessoas dão uns trocados.

"Deus abençoe a todos! E gente, moto é uma coisa muito perigosa, não andem de moto!", completa, após certificar-se de que ninguém vai dar mais nada.

Logo que ele desce do ônibus, uma mulher se vira e diz que aquele senhor repete a mesma coisa todos os dias, todos ficamos indignados. Dizer que a filha morreu todos os dias, que é isso?

Poucos minutos depois, não sei se por distração ou se pelo fato do ônibus ter ficado mais cheio, o mesmo senhor entra outra vez e repete a mesma ladainha. Ninguém fala nada enquanto os recém-chegados estendem os seus trocados, só balançamos a cabeça enquanto ele se apressa para sair do ônibus prestes a entrar em movimento.

1.5.10

Memórias de um nômade - Paul Bowles


Essa é uma de minhas leituras recentes. Li "O céu que nos protege", obra mais conhecida do autor, há mais de 15 anos atrás e não me lembro direito dos detalhes da história, nem de se gostei ou não, enfim, ela não deixou uma impressão muito forte. Também vi o filme de Bernardo Bertolucci e a sensação é a mesma. Acho que o mais interessante é o exotismo do cenário, o deserto do norte da África.
As Memórias de um Nômade cobrem a infância e parte da vida adulta de Paul Bowles, ele escreve sobre seu cotidiano na Nova York do começo do século XX, a relação conflituosa com o pai, sua vida com a esposa, Jane, e, principalmente, sobre as suas viagens pelo mundo. Período que se inicia quando atinge a maioridade, com uma "fuga" para Paris, e termina no Marrocos, país que adota para viver o resto de seus dias. Ele percorre vários países da Europa, da costa norte africana, sudeste da Ásia e América Latina.
Antes de ser conhecido como escritor, Paul Bowles trabalhava compondo trilhas musicais e acompanhamentos sonoros para peças de teatro e filmes, o que lhe dava a liberdade de ir e vir de e para onde quisesse. Se precisava de inspiração, ia até o Marrocos e alugava uma casa e um piano no lugar que julgava conveniente, quando se cansava do lugar, ia até o México onde fazia a mesma coisa.
Não sei se ele ganhava bem ou se a vida era mais barata na primeira metade do século, mas Bowles não tinha qualquer dificuldade para viver onde tinha vontade, bastava querer. Bons tempos. Ele chega até mesmo a comprar um ilha simpática em uma praia do Sri Lanka, a ilha de Taprobana. (Hoje, um hotel).
O interessante é observar como os artistas no estrangeiro formavam uma comunidade bastante solidária, quando o autor ia para um lugar novo, sempre encontrava um amigo de um amigo que estava disposto a abrigá-lo ou a ajudá-lo com algo, da mesma forma, quando ele e Jane estavam estabelecidos em alguma cidade, bastava alguém aparecer e dizer que era amigo de algum conhecido dos dois para ser bem recebido.
Entre as figuras que desfilam pelo livro (e o livro é isso mesmo, um desfile de figuras, lugares e acontecimentos) estão: Tennessee Williams, Gore Vidal, Truman Capote e Gertrude Stein, para citar apenas alguns nomes.
As viagens eram feitas à moda antiga, sem data para voltar, e geralmente de navio. Bowles lamenta o advento dos aviões, pois o charme da viagem, segundo ele, acabou se perdendo. O livro termina quando as viagens deixam de lhe dar o mesmo prazer que em sua juventude. Período que coincide com a deterioração da saúde de sua esposa.
O texto em geral é bem rápido, jornalístico, quase uma sucessão de fatos. Apenas no final, após escrever longamente sobre suas memórias, um Bowles já bem mais velho se dá ao luxo de escrever algumas reflexões sobre sua vida, por exemplo, sobre a razão de ter se fixado no Marrocos:

"Eu não escolhi morar em Tanger de forma permanente. Isso foi alheio a minha vontade. Minha estadia devia ser de curta duração, tinha a intenção de ir para outro lugar, ainda e sempre, sem jamais me fixar definitivamente. A preguiça me fez postergar a partida. Depois veio o dia em que tive que me render às evidências: o mundo não apenas estava muito mais cheio do que há apenas alguns anos, mas os hotéis estavam piores, as viagens menos agradáveis e a maioria dos lugares menos bela do que antes. A partir de então, cada vez que me encontrava em outro lugar, tinha imediatemente vontade de estar em Tanger. Se estou aqui até hoje, é apenas porque este é o lugar em que me encontrava quando compreendi que o mundo estava mais feio e que não tinha mais vontade de viajar."

E sobre a morte:

"Em minha história, por exemplo, não há vitórias espetaculares simplesmente porque eu não tive que lutar. Eu perseverei e aguardei. Acho que é o que faz a maioria das pessoas, de qualquer forma, as oportunidades de fazer algo diferente são cada vez mais raras. Os marroquinos dizem que para se viver plenamente é preciso pensar sempre na morte. Eu concordo com essa máxima sem reservas. Infelizmente, sou incapaz de conceber minha própria morte como o final de um espetáculo muito mais aterrorizante: a velhice. Eu me imagino desdentado, impotente, totalmente dependente de uma pessoa que pago para tomar conta de mim, e que pode deixar o quarto a qualquer instante para nunca mais voltar. Certamente não é isso que os marroquinos têm em mente quanto afirmam que é preciso pensar na morte. Eles consideream minhas visões como manifestações de um medo particularmente abjeto. A terapêutica de uns pode ser a tortura de outros. "Adeus, diz o moribundo ao espelho que lhe estendem. Nós não nos veremos mais." Eu citei esse epigrama de Valéry em "O céu que nos protege" porque essa visão me parecia, na época, particularmente forte. Hoje, como já não me imagino como um simples espectador, mas como o protagonista dessa cena, ela me parece repugnante. Para que o adeus soe justo, bastaria que o moribundo acrescentasse estas curtas palavras: "Graças a Deus!"."

Depois de um longo inverno...

O blog passou um bom tempo quase que em hibernação e, de repente, não mais que de repente, fiquei com vontade de voltar a escrever aqui. O que preciso avisar desde já é que talvez o conteúdo do blog mude um pouco, porque acho que eu mudei, não me sinto mais tão sintonizada com a pessoa que escreveu muitos dos posts anteriores.

Sempre achei que a maioria das pessoas são como aquelas tartarugas que voltam para a praia onde nasceram para botar seus ovos ou os salmões que sobem os rios de onde vieram para fazer a mesma coisa. Eles retornam às suas origens. Atualmente, o que mais sinto vontade de comer são coisas simples, um prato de arroz com feijão, salada e uma mistura qualquer. A comida da minha mãe me faz falta: um arroz com karê e makisushis. Até aquela sopa de frango que ela faz com shoyu e partes pouco nobres do frango que eu detestava me faz falta.

Depois de todos os produtos orgânicos, integrais, pratos diferentes, todas as fases e experimentações, retornei ao ponto de partida. Isso é engraçado, porque quando olho para os blogs de vários conhecidos e amigos que fiz no começo do Kafka, eu noto o quanto eles evoluíram, como aprenderam técnicas novas e encararam vários desafios culinários. Tiro meu chapéu para eles.

O que desejo hoje é comer coisas simples, porém saborosas, comida caseira mesmo. Nem experimentar restaurantes novos me parece algo tão instigante quanto no passado. Se fizer os cálculos, na maioria das vezes achei que não paguei o preço que a comida merecia. E comer fora atualmente é algo caro.

Cozinhar nunca foi algo que me desse grande prazer. O blog foi uma forma de levar essa atividade a sério, aprendi muito, mas cozinhar não é para mim. Adoro ver livros e blogs de receitas, no entanto, é mais uma questão de prazer estético do que qualquer outra coisa. Se não tivesse que cozinhar todo o santo dia, talvez encarasse as panelas de outra forma, mas tendo que fazê-lo, cozinhar tornou-se aquele sentimento de urgência que bate quando olho para o relógio e vejo que já são 11:30h ou 18:30h e lembro que esqueci de deixar a carne para descongelar...

Pode ser que eu e o blog mudemos muito ainda, nada está escrito em pedra, e como uma de minhas várias professoras uma vez disse, "Dizer nunca é cuspir para cima" , pode ser que no futuro eu ame cozinhar ou que o blog ainda sofra várias mutações, vocês já estão avisados.

Sou grata aos que ainda aparecem por aqui, vou continuar falando sobre comida e postando receitas eventuais, não se preocupem. O certo é que vou fugir mais vezes da cozinha. :)


Dentro do ônibus



Ontem, andando pela cidade e tomando um ônibus com uma enorme sacola de plástico com um cabo flevível (mangueira?) de aspirador de pó, eu fiquei pensando nas coisas esquisitas que já carreguei dentro dos ônibus. Lembrei de um galo e de um linguado. O galo era grande, vermelho e vistoso. Ele veio dentro de uma sacola de feira com os pés amarrados e deve ter levado o susto de sua vida. Eu era criança e minha mãe tinha um pequeno galinheiro, não comíamos os animais, era pura recreação, uma forma de lembrar o passado da roça dos meus pais. Chegou uma época em que o bairro cresceu demais e já não era possível manter os animais. Eles foram vendidos a contragosto e certamente viraram uma refeição.

O linguado foi idéia minha. Não sei por que raios eu decidi entrar em uma peixaria e levar um peixe para minha mãe preparar. A peixaria ficava na cidade vizinha e nem me passou pela cabeça que ele poderia estragar debaixo de um sol de meio-dia. Sei que comecei a sentir um cheiro desagradável vindo de dentro da sacola plástica em que o linguado estava embrulhado apenas em uma folha de jornal. Torcia para que ninguém mais sentisse o cheiro dentro do ônibus. Quando cheguei em casa, ele foi para o lixo. Sorte que o peixe não era muito grande e acho que já nem estava mais tão fresco porque paguei pouco por ele.

Lembranças bizarras. Qual foi a coisa mais estranha que você levou dentro de um ônibus?