30.4.12

Comidas e lugares - Ouro Preto - MG

Fachada de nossa pousada, o estacionamento fica um pouco afastado, mas é fechado e quem estiver na recepção leva e traz o carro, para estacionar temporariamente em frente é necessário parar sobre a calçada.

Ficamos hospedados em uma pequena pousada, a Laços de Minas, em uma rua bem estreita e tranquila. Os três últimos balcões da foto acima eram os do nosso quarto. Ele não era grande, mas era arrumadinho, com móveis de madeira maciça e um banheiro com chuveiro gostoso. Não havia ar ou ventilador, mas a temperatura da cidade é bem agradável, fazia até um friozinho pela manhã e à noite. Acho que o mais legal era poder abrir a janela e sentir que fazia parte da vida de Ouro Preto. As janelas da casa em frente ficavam abertas e às vezes via seus moradores jantando ou um rapaz estudando. Era sem querer, nada voyeur, bem entendido. Às 17h havia uma pequena "merenda" com algum bolo, café e uma garrafinha de cachaça. O café da manhã era simples, mas bom. No último dia a mesa estava mais fornida, talvez por haver mais hóspedes, talvez porque chegamos mais tarde e a copeira teve tempo de colocar tudo sobre a mesa. Sabe como é, somos do tipo "dormem cedo e comem cedo".

Mesa do café da manhã, o bolo de fubá era delicioso

 A única coisa um pouco incômoda era ter que subir ladeiras para jantar. Mas a cidade é bem tranquila e o rapaz da recepção, o Pacelli, disse que não havia problemas de segurança. Almoçamos duas vezes no restaurante Conto de Réis, recomendado por ele, uma vez no sitema de bufê e outra à la carte. Havia bastante variedade de pratos mineiros, todos bem honestos, mas ainda achei o temperinho da Venda do Chico melhor. No dia em que pedimos à la carte, o O. foi de tutu à mineira e eu comi uma porção de pastel de angu, um pastelzinho recheado com frango/carne e catupiry cuja massa é feita à base de farinha de milho. Muito bom, especialmente com uma pimentinha picante.

Jantamos uma vez no Bené da Flauta, ele serve uma comida meio mineira, meio italiana, tem um salão amplo e agradável. O. foi de "menina do sobrado", um prato que consiste em um purê de abóbora com cubos de carne de sol e uma travessinha de arroz puxado no alho. Eu fui de canja de galinha. (Sempre que posso, transformo uma entrada em prato principal). O. disse que o prato dele estava bom, mas sem mas. Eu gostei da canja apesar de ela não ser tão inocente, deveria ser puxada em torresmo ou ter um toque de bacon, pois senti um gostinho diferente.

O último jantar foi no O Passo, um misto de cantina/pizzaria que fica no segundo andar de um sobrado. Havia bastante gente. Ouvi dizer que as pizzas eram muito boas, mas O. foi de espaguete com molho de tomates e azeitonas e eu pedi uma porção de bruschettas com tomates cereja. O espaguete estava gostoso, bem feito, eu já não gostei das minhas bruschettas, elas eram temperadas com uma redução de vinagre balsâmico que estava meio ácida. Apenas tomates, sal e um bom azeite seriam suficientes. Bebemos mojitos, muito bons.


Balcão da cafeteria com lustre lindos

Um lugar onde gostávamos de parar era na cafeteria no térreo da Fiemig/Sesi em uma esquina da Praça Tiradentes. O lugar é muito agradável, há objetos de arte e artesanato à venda. O frapê de café estava ótimo e eles servem chás Gschwendner. Nunca fui à loja de SP e acabei provando os chás dessa marca em Ouro Preto, quem diria? Recomendo o gunpowder com óleo de hortelã.  

Também dentro da cafeteria



29.4.12

Algumas Igrejas de Ouro Preto

Igreja de São Francisco de Assis, a entrada custa R$ 2,00 e dá direito a entrar no Museu  Aleijadinho dentro da Igreja N. S. da Conceição

Ouro Preto é a mais famosa cidade histórica mineira e sua arquitetura atrai muita gente, especialmente aquela de suas igrejas. Paga-se uma taxa, entre R$ 2,00 e R$ 8,50, para ver o seu interior (fotos não são permitidas), não entrei em todas, algumas estavam fechadas. A impressão que tive foi a de que elas poderiam receber mais cuidados, manutenção e ter mais segurança. Algumas vezes eu era a única visitante e não havia niguém lá dentro, os corredores das sacristias ficam com as janelas abertas e, apesar de terem grades, nada impediria que alguém passasse algo por elas. Não vi câmeras (até onde tenha notado). Algumas vezes também sentia um leve odor de mofo e umidade. Achei uma pena, pelo número de turistas e pela arrecadação proporcionada pelas mineradoras presentes na cidade, deveria haver um investimento maior na manutenção das igrejas, as casas e as lojinhas do centro histórico estão mais bem conservadas e com a pintura em dia.

Igreja N. S.,do Rosário dos Pretos

Andei bastante, algumas ruas são bem íngremes e os paralelepípedos não facilitam a caminhada. Deixamos o carro na garagem da pousada e esquecemos que ele existia, pois não é simples navegar motorizado pela cidade. Ladeiras demais, ruas estreitas e de mão dupla não ajudavam.

Igreja N. S. do Carmo

 A Igreja de Nossa Senhora do Pilar (uma das únicas de que não tirei fotos) é a mais famosa pela grande quantidade de ouro em seu interior, ela foi uma das primeiras em que entrei, mas a minha preferida foi a Igreja de Santa Efigênia dos Pretos, lá no alto do morro na saída para Mariana. Ela é bem simples, mas achei seu altar uma graça. Havia apenas uma outra oriental saindo de lá naquele horário. Depois do ladeirão que conduz até ela, achei que minhas pernas não iam aguentar subir a escadaria. 

Igreja N. S. da Conceição


Uma coisa de que senti falta, tavez exista, mas não ouvi falar, é de algum tipo de visita guiada que percorresse algumas igrejas em horários determinados. Há muitos estudantes universitários na cidade e eles poderiam fazer isso para os turistas ou a prefeitura poderia oferecer esse tipo de coisa, algumas visitas poderiam ser realizadas em inglês ou espanhol. Há guias credenciados e várias pessoas que ficam na frente dos pontos turísticos oferecendo os seus serviços de guia por algum preço, mas acho que a versão gratuita seria uma adicão simpática.

Vista da Igreja de N.S. das Mercês e dos Perdões. Ela estava em reforma.

 
Igreja de Santa Efigênia dos Pretos, meu chuchu. Quase morri para chegar até lá e achei que desceria rolando a ladeira até a pousada.
Igreja de S. José, em reforma.
  
Igreja de São Francisco de Paula, fechada e no final de outra ladeira matadora.

Igreja N. S. da Mercês e Misericórdia, fechada.

28.4.12

Por terras mineiras

Vista da parte histórica de Ouro Preto
 A viagem para Minas surgiu do nada há duas semanas atrás. O. tinha que ir para Belo Horizonte e fez a proposta irrecusável de emendar a passagem pela capital mineira com dois dias em Ouro Preto. Fomos de carro, somando ida e volta, foram praticamente 16 horas na estrada. A Fernão Dias tem uma paisagem bonita, mas que se torna monótona depois de algum tempo. Ela é bem vazia se for comparada com várias estradas paulistas, mas há muitos caminhões e perdemos meia hora na ida e na volta por causa de acidentes provocados por eles. 

Enquanto via a paisagem correr de dentro do carro, imaginava um enredo para um filme que teria a estrada como cenário, algo no estilo de alguns filmes japoneses ou do Kiarostami que se passaria em uma daquelas vendinhas ou postos onde apenas algumas almas perdidas ou um andarilho param de vez em quando. Haveria um vendedor que passaria o tempo lendo e vendo a vida passar, uma criança, um filho trabalhando em uma capital e figuras pitorescas dos arredores. Enfim, um filme que pouca gente iria assistir, de "arte", bem lento.


Venda do Chico no sentido norte (SP-MG)

A melhor descoberta feita na Fernão Dias foi a Venda do Chico. Um restaurante/café que serve uma comida mineira de primeira. Pelo valor fixo de R$ 23,00, você pode escolher uma carne e ela chega à mesa com acompanhamentos, ou você pode fazer o que fizemos e pedir a versão com porções de vários pratos pelo mesmo preço: galinha ao molho pardo (delicioso), costelinha com mandioca (favorito do O.), linguiça e frango com quiabo (o que achei mais fraco, mas ainda gostoso). Achei a comida da Venda melhor do que a que provei em Ouro Preto. A lojinha vende queijos e outras quitandas mineiras. Se tiver que passar pela Fernão Dias, programe-se para almoçar por lá e não irá se arrepender. Há uma Venda do Chico dos dois lados da rodovia (km 743), mas achei a do sentido norte mais charmosa e arrumada.


Comida ótima e abundante, o difícil é não sentir sono depois

A parte mais lenta da viagem foi para chegar ao hotel já em Belo Horizonte. As avenidas da cidade estavam congestionadas. Não imaginava um trânsito tão pesado, mas ao menos não vi tantas motos nas ruas como em SP. Estava escurecendo, tive tempo de dar uma volta próximo do hotel em Savassi, um bairro bastante arborizado e agradável. Na manhã seguinte, peguei um táxi e fui até o Mercado Central. Dei várias voltas lá dentro e saí com alguns pacotinhos de biscoitos comprados por peso, quatro xícaras de café de ágata e um pilão em pedra sabão pesadérrimo, algo que sempre tive vontade de ter. Queria um bule de ágata, mas eles giravam em torno de R$ 90,00 e acabei ficando só com as xicrinhas de R$ 4,90. As lojas lá dentro vendem praticamente os mesmos produtos, mas os preços podem sofrer ligeiras variações, se tiver tempo, pesquise um pouco.

"Quitandas" mineiras, biscoitinhos comprados no Mercado Central. O vendedor foi me deixando provar os vários tipos

A viagem de volta, por sua vez, teve momentos emocionantes, como quando O. fez um retorno em um local proibido devido às indicações do GPS, que quase foi jogado pela janela de raiva, e alguns quilômetros rodados na reserva do tanque até que encontrássemos um posto de alguma bandeira conhecida que tivesse gasolina aditivada. Estava escuro, ameçava chover e já me via tendo que ligar para alguém vir nos rebocar até o posto mais próximo. Felizmente, encontramos um Frango Assado salvador.

Final de tarde em BH

A passagem por BH foi bem curta, mas, no geral, a cidade deixou uma boa impressão. Já Ouro Preto deixou minhas pernas doloridas. Comi muito doce, um pouco de pão de queijo e várias besteiras. Voltei com maus hábitos alimentares após alguns poucos dias em terras mineiras, mas valeu a pena.

***

Para finalizar uma canção italiana de um duo chamado "Musica Nuda", boa trilha sonora para a viagem, coisa fina que gostaria de compartilhar com vocês:





14.4.12

Da inconsistência

O senhor que vende queijos de casa em casa passa por aqui todos os sábados. Gostamos muito do queijo coalho que compramos na primeira vez, achamos que ele continuava bom nas duas semanas seguintes, mas depois ele começou a ficar mais amarelo, "curado", segundo o vendedor, e perdeu um pouco do frescor inicial.  Passei a pedir os queijos mais brancos e novos, mas eles nunca mais foram os mesmos, apesar de o vendedor (que também é o produtor do queijo) afirmar o contrário. Após algumas tentativas, acabei desistindo de comprar o tal queijo e fiquei pensando na razão pela qual vários negócios que poderiam ir para a frente acabam naufragando pelo caminho, muitos fracassos estão relacionados à falta de consistência, em se oferecer algo no início, atrair uma clientela e acabar por desapontá-la quando não se consegue manter um padrão de qualidade. Entendo que há várias explicações para esse tipo de fenômeno (falta de capital, de planejamento, de cuidado, de interesse, etc), mas é uma pena, especialmente quando se trata de um negócio pequeno.

10.4.12

É a América! É a América! - Ochiai Nobuhiko

Outro livro do estilo "biografia inspiradora" de que os japoneses parecem gostar e que minha professora sempre me dá para ler (comento outros aqui e aqui). Este é escrito por Ochiai Nobuhiko, um rapaz que conseguiu uma bolsa para estudar nos Estados Unidos logo após terminar o colegial no início dos anos sessenta. O livro narra seus esforços para conseguir a bolsa e suas impressões sobre o país do tio Sam em um período em que ocorreram os assassinatos de John Kennedy e Martin Luther King e também a guerra do Vietnã.

Gostei mais da primeira parte, que se passa ainda no Japão. O pai de Nobuhiko abandonou a família para viver com outra mulher e a mãe teve que trabalhar como vendedora em uma barraquinha para manter a casa e os três filhos. O irmão mais velho de Nobuhiko trabalhava e estudava à noite, passou facilmente na Universidade de Tóquio, mas não pôde prosseguir os estudos porque precisava arrumar um emprego. Ele foi aprovado em várias etapas de um exame para entrar em uma empresa pública, mas reprovado no final. Sua mãe descobriu que ele foi desqualificado devido à sua situação familiar. Quando Nobuhiko viu aquilo, decidiu que não passaria pela mesma humilhação e decidiu que iria para os EUA. O surpreendente é o que ele fez para realizar seu objetivo. Como o irmão, ele trabalhava durante o dia, ajudava a mãe com a barraca, ia para o colégio à noite, voltava para casa e estudava até às três da manhã. Sua estratégia para aprender inglês era ir ao cinema no final de semana e decorar palavras de um dicionário.

Depois do colegial, ele prestou um exame na embaixada dos Estados Unidos e passou, conseguiu uma bolsa integral em uma faculdade do país. Como ele nã tinha dinheiro para a viagem, foi até o porto de Yokohama e procurou um navio que aceitasse levá-lo em troca de trabalho. E conseguiu. Ele embarcou em um navio que transportava passageiros para a América do Sul. O desembarque foi na costa oeste do país, mas a faculdade ficava do outro lado, na Pensilvânia, para onde ele foi pegando carona com caminhoneiros. A viagem durou cinco dias, ele dormia em estações e bebia coca-cola para encher a barriga, pois tinha poucos dólares para gastar.

Chegando à faculdade, sua vida melhorou bastante. Ele se dedicou aos estudos e sua habilidade em karatê tornou-o muito popular. Ao concluir seu curso de política internacional, ele fez dois anos de mestrado e foi convidado por um amigo a ser sócio em uma empresa de prospecção de petróleo. Depois de um ano no vermelho, a empresa começou a ter algum lucro ao obter concessões de poços em países latinos e africanos. Quando tudo parecia ir bem, o amigo é convocado para guerra do Vietnã e morre. Nobuhiko continuou mais algum tempo na empresa, trabalhando com o pai de seu amigo, mas aconselhou-o a vender o negócio pouco antes da crise do petróleo de 73. 

Nobuhiko voltou para o Japão após onze anos fora e começou a escrever matérias sobre política internacional, algo que faz até hoje. Uma história certamente edificante. Sua relação com o pai, de que gostava muito, apesar de ele não ser exatamente exemplar, também tem seus momentos divertidos.

Depois de ler três livros do mesmo estilo, posso dizer que eles são todos bem parecidos, enfatizam sempre o esforço pessoal, os encontros com pessoas que lhes abriram portas, a influência da família e há sempre alguma anedota para divertir o leitor. Eles são sempre positivos, leves. Acho meio receita de bolo, mas têm lá o seu lado curioso, como a vida de qualquer um, por mais banal que seja, sempre tem. Entretanto, não consigo deixar de pensar que, para cada história de sucesso, há inúmeros fracassos que não viraram livros. Esforço é importante, mas ter alguma sorte e conhecer as pessoas certas parecem ser elementos essenciais.

Acho que este é o último livro emprestado por minha professora que leio. Vou dar uma pausa (de duração indefinida) nas aulas de japonês, terminei o último livro de exercícios e acho que agora preciso aumentar o vocabulário e assistir mais à televisão para melhorar a escuta, falar é mais complicado, pois tenho poucas oportunidades de fazer isso.

Ainda tenho vários romances em japonês para ler em casa e pretendo escrever sobre eles no futuro.

9.4.12

Cenas da semana passada



Aquilo que costumam chamar de centro velho das cidades grandes, ao menos nos países latinos, quase sempre tem um ar decadente. Prédios antigos, com marcas da passagem do tempo, ares de filme de holocausto à noite, quando tudo está fechado e são poucas as pessoas caminhando pelas ruas vazias. No entanto, todas têm seu charme. Passei pelas imediações do Teatro Municipal de SP esses dias e pensei nisso. Poderia gastar um bom tempo por ali, andando costurado pelas ruelas e galerias como se estivesse em outro país, estranho e próximo ao mesmo tempo. Há os elevadores de madeira com seus ascensoristas de uniforme que reclamam uma antiga dignidade, há os detalhes arquitetônicos de outra época e há os mendigos sentados nas escadarias do teatro, alguns bêbados, outros apáticos, e tudo tão triste, tão humano (ou desumano) e, por essa mesma razão, ainda mais  triste.