24.9.12

De vizinhos e famílias


Quem acompanha o blog sabe que costumo reclamar com certa regularidade dos vizinhos que fazem barulho em horários inconvenientes. Algumas casas ficam vazias durante a semana e são ocupadas aos sábados, domingos e feriados, quando as famílias se reúnem para um churrasco ou festa de aniversário, ou outra comemoração qualquer. Não ligo se os vizinhos fizerem barulho durante o dia, mas a noite é outra coisa, depois de meia-noite eu quero dormir e usufruir do silêncio a que tenho direito. 

A oeste, nenhum problema.

Ao sul há a casa de uma família que aparecia quase todos os finais de semana quando os filhos eram jovens. Os garotos gostavam de dar chutes a gol e mandar a bola para nosso quintal e de andar de mobilete no gramado. A comunicação com os pais era feita aos gritos e com troca de múltiplos palavrões. Por exemplo: O pai para o filho: "PQP! Guarda a p**** dessa bola!", o filho para o pai: "Já vou guardar, car****!". O tempo passou, os rapazes cresceram, um deles se casou e se tornou um pai de família sério e respeitável. O outro ainda traz amigos para beber e "minas" para passar a noite na casa de vez em quando, e continua perna-de-pau, mas resolvi esse problema quando pedi que tocasse a campainha sempre que a bola caísse em nosso quintal e depois entrasse para vir buscá-la, pois não iria servir de gandula para marmanjos de vinte anos.

Há dois vizinhos a leste. Um deles dava festas com direito a DJ e karaokê duas ou três vezes ao ano que varavam a noite. Em uma dessas ocasiões, O. acabou chamando a polícia porque eles não abaixavam o volume. Pouco tempo depois disso, eles nos convidaram para uma festa. Eu não tinha a menor vontade de ir, mas o O. achou que aquele era um gesto de reconciliação/um pedido de desculpas e fomos em nome da boa vizinhança. Havia bastante gente, outros moradores do condomínio, etc., enquanto as crianças corriam pelo quintal, alguns adultos ficavam perto do bar fumando um baseado. A mulher do síndico era simpática e ficou conversando conosco, mas havia um mal-estar indisfarçável no ar. Não tenho nada pessoal contra a maconha, sei que ela é oferecida junto com o aperitivo em várias festas de classe média, mas o fato de eles fumarem seus baseados acintosamente em na nossa frente passava a mensagem de que não devíamos chamar a polícia, pois aquilo poderia ser problemático para eles. Fomos embora logo, depois disso, a família ficou mais discreta. E nunca mais fomos convidados para nenhuma festa.

A outra casa a leste era de irmãos solteiros que gostavam de trazer amigos nos finais de semana para beber e gritar pelo quintal. Depois, um deles se casou e se instalou definitivamente com a esposa e o bebê. Casamento + bebê = silêncio.

Os vizinhos ao norte moraram na casa por um ano e eram tranquilos, tinham filhos entrando na adolescência e vários cães. De vez em quando um deles passava por baixo da cerca (um dos cães, bem entendido) e eu o devolvia para o seu quintal quando não havia ninguém. No entanto, eles se mudaram e agora aparecem aos sábados e fazem barulho até a madrugada. Violão, berimbau, o escambau, em noitadas folk/gospel/nostálgicas. Imagino que seja uma crise de meia-idade. Os filhos são praticamente adultos e o casal é relativamente jovem. Espero que seja uma fase passageira. 

Detestamos ser os vizinhos chatos/corta barato/esquisitos, mas realmente não entendemos a necessidade das pessoas de quebrar o silêncio que normalmente reina na vizinhança. Imagino que eles o vejam como algo ameaçador e o barulho seja uma forma de diminuir sua inquietação. Ou talvez seja pura e simples falta de educação.

(Escrito após uma noite maldormida).



22.9.12

Blood, Bones and Butter - Gabrielle Hamilton

 
Acabei de ler Blood, Bones and Butter, a autobiografia da chef Gabrielle Hamilton, proprietária de um restaurante badalado em New York, o Prune. Ela começa descrevendo as festas nas quais seu pai assava carneiros inteiros sobre brasas durante longas horas e os pratos que sua mãe, de origem francesa, preparava em sua infância. Mas o livro não é exatamente sobre comida, é sobre sua formação, sobre os caminhos que percorreu e forjaram seu caráter. 

Seus pais se separam quando ela tem treze anos, cada um vai para um lado e ela e um dos irmãos mais novos se veem sozinhos. Ela passa por um período de deliquência, comete pequenos furtos, fuma, bebe e cheira carreiras de cocaína enquanto trabalha em vários restaurantes para se manter, faz de tudo um pouco: de garçonete à ajudante de cozinha.

O livro é meio lacônico em alguns pontos e Gabrielle escreve apenas sobre os momentos que considera relevantes sem dar explicações sobre porquês ou comos, sabemos que depois de uma adolescência difícil e um longo período de busca pessoal com direito a uma mochilagem quase sem dinheiro pela Europa e Ásia, ela passa uns dez anos trabalhando como freelancer em bufês que fornecem comida para festas e eventos até que se cansa dessa vida e decide fazer um curso de escrita criativa em uma universidade. Após ser admitida, ela logo percebe que a vida de "intelectual" não a satisfaz e que se identifica mais com o trabalho concreto, metódico e duro em uma cozinha. 

Ela decide abrir um restaurante depois que um conhecido lhe mostra um imóvel para alugar, assim, em um gesto impulsivo, imaginando os pratos que desejaria servir e que refletiriam suas experiências gustativas. "Prune" acaba sendo um sucesso. 

O livro segue ainda um pouco além da abertura do restaurante, Gabrielle descreve seu casamento sem amor e pouco gratificante com um médico italiano com quem tem dois filhos. Suas viagens anuais para ver a família do marido na Itália são os pontos altos do relacionamento que já está em frangalhos quando o livro termina.

Gabrielle não esconde seus ressentimentos, suas frustrações e seu temperamento difícil, mas ela é uma pessoa objetiva, direta e competente. Alguns leitores comentaram que, após o livro, respeitavam a Chef, mas não conseguiam respeitar a mulher que o escreveu, acho esse tipo de comentário injusto. Ela pode soar presunçosa, mas não doura nenhuma pílula ou tenta parecer adorável.

Eu me identifiquei com o fato de ela sentir aversão por frescuras culinárias. Concordo que mais do que falar sobre comida, devemos nos sentar e comê-la sem a necessidade de erguer alguma bandeira ou usá-la como uma forma de autoafirmação, basta que seja bem feita e os ingredientes, de boa qualidade.

O livro virou um best seller. Li em inglês, mas há tradução para o português.

20.9.12

Batatas e berinjelas

Um resto de arroz integral congelado requentado no micro-ondas, feijão fradinho cozido com cenouras, tomates, cebolas, alho e louro e, como acompanhamentos, batatas ao murro e berinjelas com um molho agridoce. Se tivesse que descrever a comida que ando preparando nos últimos dias, diria que ela é bem "roots". 



Batatas ao murro: cozidas inteiras, amassadas com as palmas das mãos sobre um refratário e temperadas com o que tiver vontade. Usei sal, pimenta e azeite. Misturei com as mãos e levei ao forno, deixei dourar de um lado e depois virei. 


As berinjelas surgiram do cruzamento da invencionice com a preguiça. Fiz um molho misturando vinagre balsâmico, açúcar demerara, shoyu, mirin, missô e óleo. Usei pouco missô, pois ele é que dá o salgado, ficou bem agridoce mesmo. Envolvi algumas fatias de berinjela com essa mistura e levei ao forno, retirei quando ficaram macias. Achei ok, um acompanhamento simples.


O volume diminuiu bastante após o forno.


Pela manhã, sovei uma massa semi-integral e deixei crescendo para uma pizza noturna. A comida em casa está acabando e pizza é um recurso para usar tudo o que tiver disponível para preparar uma refeição.


18.9.12

Vale a pena ver de novo

Torta de legumes no almoço (receita aqui). Recheio feito com um refogado de couve-flor picada, alguns de seus talos, pimenta dedo-de-moça, cenoura ralada e vagens picadas.

Sobremesa
Minha roseira em flor outra vez
 

13.9.12

Pão da semana

A receita é sempre uma variação da minha favorita, geralmente diminuo as quantidades, adiciono grãos, castanhas, substituo alguma farinha por aquela que tiver sobrando (ou vencendo). Desta vez, acabei com um potinho de gergelim. 

Tenho feito pães a mão e estou feliz com o resultado. Sempre começo misturando o açúcar com a água morna e o fermento, que emprego em uma quantidade bem pequena, espero o fermento espumar e junto os demais ingredientes, depois deixo a massa crescer com calma, pelo menos durante metade do dia.




11.9.12

Almoço-jantar-almoço

Uma sopa saudosa: músculo com legumes e massa. Refogar a carne com cebolas e alho, adicionar água e folhas de louro, deixar a carne amaciar, adicionar os legumes, temperar, cozinhar, adicionar um macarrão qualquer (usei três folhas de lasanha que sobraram na caixa), cozinhar mais um pouco.


sol de final de tarde hoje

9.9.12

Bananas, lombo

Bananas à milanesa (assadas não fritas), lombo com molho de mostarda (sempre faço no olhômetro e as medidas do molho acabam variando), mandioca assada.



7.9.12

7 de setembro data tão festiva...

Havia festa na vizinhança com música ao vivo hoje à tarde e, enquanto pintava a grade (há muita grade para pintar), ouvia pérolas do tipo "eu vou te tcha, tcha, tcha..." e "você é a delegada do meu coração...", ou coisas do gênero, e me perguntava onde estariam os vizinhos que gostavam de MPB, Bossa Nova ou até música clássica. Concluí que quem gosta desse tipo de música é muito egoísta, prefere ouvi-la na intimidade do lar como som de fundo para uma conversa audível. Lamentável.

A única coisa boa era o cheiro de churrasco no ar. O almoço de hoje foi horrível. Escola de como estragar bons ingredientes, mas a salada ficou muito boa. Salada estilo césar feita com alface americana picada, croutons caseiros, molho feito na hora, parmesão. Fiz os croutons com restos de pão de forma e restos de pão italiano, cortei o pão em cubos, coloquei em uma assadeira e temperei com sal e pimenta. Uma boa regada de azeite, uma misturada com as mãos e forno para dourar. 

Já o molho, faço batendo maionese, creme de leite, filés de anchova (ou sardinha anchovada), suco de limão, azeite e um dente de alho no liquidificador. Sem quantidades definidas. Provo e corrijo o que for necessário. É só juntar tudo no final: alface, molho, parmesão, croutons. 

Ao menos o vinho era ótimo.



6.9.12

Um dia típico, um menu típico

Dado o passado deste blog, algumas pessoas às vezes perguntam se não tenho cozinhado mais ou questionam para onde foi a comida. Sempre cozinho, isso é um fato, mas cada vez testo menos receitas e os pratos que preparo são bem triviais e não vejo sentido em colocá-los aqui. Na verdade, muita coisa é bem gororobística, enquanto a maior parte dos blogueiros de culinária se lança a novos desafios e aperfeiçoa suas técnicas, fico com a impressão de que regredi.

Vejamos o dia de hoje. Acordei, tomei café (na verdade só bebo chá pela manhã), passei os olhos pelo jornal, chequei e-mails, reguei a grama (não chove desde que ela foi colocada), limpei o pré-filtro da piscina, fiz a retrolavagem do filtro, retirei o pó dos móveis, passei o aspirador no chão, coloquei toalhas para lavar e passei aguarrás nas grades que lixei ontem e pintarei hoje. Fui para a cozinha.

pão crescendo
Comecei o dia preparando um pão. Um copo de água morna, uma colher de café rasa de fermento intantâneo seco, uma colher de chá de açúcar demerara, 3 c sopa de azeite, 3/4 x de farinha integral, cerca de 2 x de farinha (o suficiente para sovar), sal a gosto. Uma longa pausa para crescer. Outra após modelar e, por fim, forno.

Para o almoço, fiz um filé mignon de porco à parmigiana acompanhado de um tipo de mexido tex-mex-baiano. A milanesa inicial também pode ser feita com frango ou filé mignon bovino. Basta abrir a carne em fatias grossas, temperar com sal e pimenta, passar pelo ovo e depois pela farinha de rosca, (desta vez, no lugar do ovo batido, apenas besuntei a carne com maionese e passei pela farinha de rosca, acho isso mais prático) colocar em uma frigideira antiaderente com um pouco de óleo/azeite só para dourar dos dois lados e depois terminar de cozinhar no forno. Pouco antes do final de tempo de forno, espalhei um molho de tomate feito com tomates pelados refogados com alguns filés de anchova, azeite e alho, temperado com sal e uma pitada de açúcar (usei a anchova para dar  um sabor de fundo, mas às vezes uso azeitonas pretas bem amassadas e um pouco de vinho tinto). Cobri tudo com fatias de queijo e deixei no forno apenas até que o queijo derretesse.


filé mignon de porco besuntado com maionese

Carne no forno, molho sobre o fogão e pão crescendo. Tudo nos conformes. A cesta de orgânicos chegou nessa hora e usei um tomate para fazer um refogado com cebolas, alho, pimenta dedo-de-moça e pimentão. Adicionei um resto de arroz integral já cozido e um resto de feijão fradinho também já cozido, temperei tudo com sal e um pouco de coentro em pó, ia adicionar cominho, mas não achei na despensa. Servi polvilhado com queijo, poderia ser coalho, mas estava sem.

a base do mexido tex-mex-baiano

o próprio

a parmigiana pronta

Refeição pronta. Um pouco de vinho e, ao final, um espresso. Louça lavada, um pouco de micro, pão assado e pintura da grade à tarde. 

pãozinho integral

Sobra da parmigiana no jantar com mandioca assada no forno e banana à milanesa. Mais louça para lavar, micro, algumas páginas sobre bridge, algumas revistas da minha pilha digital, programa da NHK antes de dormir.

Um dia típico. 



2.9.12

Love Bites



Conheço muitas pessoas da minha geração que não têm televisão ou apenas mantêm um aparelho para assistir dvds. Acho isso compreensível. A qualidade dos programas dos canais aberto é sofrível e a TV a cabo é cara, sem falar que pouca gente tem tempo para desfrutar da sua programação devido ao trabalho e ao ritmo de vida atual. Eu mesmo assisto a poucas coisas, apenas gravo programas dos canais europeus e da NHK para não perder o ouvido para as línguas estrangeiras. E também gravo o Globo Rural, que sempre achei muito útil.

Vejo filmes com o O. e, às vezes, alguma série que não passou na TV. Esses dias vimos Love Bites. Uma série de apenas nove episódios composta de vários sketchs curtos cujo tema são os relacionamentos. Alguns personagens são fixos, como Annie, a sub-chefe que serve de barriga de aluguel para a irmã que não pode engravidar e Judd e Colleen, um casal cool. São histórias curtas e leves, algumas são hilárias, como a do bolo de banana que quase acaba com um relacionamento, a da infestação de percevejos e a dos pais que visitam o filho homossexual e seu parceiro. Há algum clichê, mas achei os diálogos divertidos.

Tenho fugido de filmes "cabeça" e de enredos dramáticos. Love Bites me fez bem. Se tiverem a oportunidade, assistam.