28.2.14

Bento Gonçalves - RS


Finalmente conseguimos ir a uma região vinícola na época em que as parreiras estavam carregadas de cachos maduros. Visitamos algumas vinícolas no Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves; a Geisse, em Pinto Bandeira, distrito que se emancipou de Bento Gonçalves, e passamos pelos Caminhos de Pedra, uma rota turística que remete à colonização italiana da região.

Cada vinícola tem horários para visitação e degustação, em geral, basta aparecer, pagar uma taxa de cerca de R$ 10,00, que não será cobrada caso algo seja comprado, e degustar os vinhos. Assim que chegamos, fomos para a Angheben, uma pequena vinícola que funciona em uma espécie de galpão. Fomos recebidos pelo proprietário, o senhor Idalencio Angheben, que deixou o que estava fazendo para nos atender. A conversa foi muito boa. Ele trabalhou na Chandon, deu aulas no curso de enologia da IFRS de Bento e conhece a história da vinicultura na região. (Como devem saber, ela é bem recente). Ouvindo-o dá para perceber que ele faz algo de que gosta e continua experimentando e procurando aprimorar seus vinhos. Interessante o Touriga Nacional. (Depois descobrimos que é muito raro ser recebido pelo proprietário, quase sempre o atendimento é feito por um vendedor que fala um pouco sobre a vinícola e apresenta alguns vinhos).

Passamos pela Don Laurindo, Lídio Carraro e Miolo. A Miolo oferece tours pela propriedade com uma pequena degustação ao final. Em geral, as vinícolas não oferecem os vinhos de suas linhas superiores para degustação, mas a Miolo tem uma estratégia que achei inteligente e, quem quiser, pode provar outros rótulos na loja, após a degustação inclusa no tour. Foi assim que descobrimos algumas rótulos interessantes como o Cuvée Giuseppe Chardonnay e o Castas Portuguesas tinto. O Lote 43, de que nunca ouvira falar, mas que é um grande orgulho da casa, não nos agradou tanto. Pena que os preços não sejam mais baixos, isso sim, faria uma grande diferença para os compradores brasileiros e talvez anunciasse uma revolução. 

A Lídio Carraro não usa barris de carvalho na produção de seus vinhos, a ideia é permitir que o consumidor "sinta" apenas a uva, sem interferência da madeira. A vinícola conseguiu a "boca" de produzir o "vinho da Copa", uma linha com um tinto, um rosé e um branco. A recepcionista disse que eram "vinhos descompromissados", leia-se "não são nenhuma maravilha, mas dá para beber e o preço não é ruim".

Fiquei surpresa com o grande número de variedades de uva cultivadas para produzir vinho no Vale, há de tudo, basta pensar para encontrar. Imagino que seja uma fase de testes e experiências antes que as vinícolas encontrem sua "vocação". Só pode ser. Muitas das vinícolas também possuem ou estão adquirindo terras para plantar suas uvas na Serra do Sudeste e na Campanha Gaúcha.

Acabamos não fazendo mais visitas no Vale, chegamos tarde na Valduga e, apesar de cruzarmos seu imponente portão de entrada, o horário de visita já terminara. O que não foi ruim, porque caiu uma chuva de granizo de dar gosto assim que voltamos para a pousada.

Passamos pela Cave Geisse em uma manhã. A vinícola especializa-se em espumantes. Como a pessoa encarregada de receber os visitantes estava acompanhando um grupo, quem nos ciceroneou foi a Fran, que trabalha na administração, ela foi muito bacana e simpática. Respondeu a todas as nossas perguntas com muita disposição. Pagando, podíamos experimentar o que quiséssemos, mas era cedo e estávamos cansados devido às noites maldormidas (*) então provamos apenas três espumantes: o nature terroir, o blanc de blanc e o rosé terroir, destes, gostei mais do blanc de blanc (acho que tenho uma queda por chardonnay).

Na volta da Geisse, demos um pulo até os Caminhos de Pedra, é uma estrada com casas e lojas que remetem à presença dos italianos na região, mas achamos que o apelo comercial era bem superior aos aspectos históricos e culturais e desistimos de percorrê-la após algumas paradas (e alguns reais a menos).

Depois de algumas escolhas desastrosas de restaurantes em Gramado e adjacências, preferimos comer coisas mais simples em Bento, terra do galeto e da polenta. No entanto, o Mamma Gema, dentro do Vale dos Vinhedos,  merece uma menção. O lugar é muito agradável e serve uma sequência/rodízio de massas e carne, mas preferimos pedir uma massa à la carte e ela estava muito boa.

Descobri que gosto de sagu de vinho tinto com creme, sobremesa tradicional na região. Logo eu, que detestava o sagu servido na merenda da escola. Tentarei reproduzir a receita em casa, aguardem!  Também achei a carne no sul mais saborosa. Por lá, o sistema de rodízio das churrascarias é chamado de "espeto corrido", faz sentido, não faz? Até a carne de uma churrascaria de posto de gasolina me pareceu mais saborosa do que aquela servida em muitos estabelecimentos da minha região, e chegamos quando eles já estavam terminando o expediente (pouco depois das 13h) e a carne já estava para lá de bem passada. Geralmente evito churrascarias, mas vale a pena parar em uma no Rio Grande do Sul.

Outra coisa de gostei foi do queijo colônia ou colonial. Muito bom, macio e meio picante. Pare em uma bodega ou mercado, algo que não tenha cara de isca de turista, e compre um para trazer.

A cidade de Bento Gonçalves propriamente dita não tem nada demais e a rodovia que a corta é bem movimentada, chega a ser complicado cruzá-la em alguns horários. Passar pelas vinícolas é o programa de quem vai para essa área. Queria ter feito mais degustações, mas acho que duas ou três por dia são suficientes. Há muitos vinhos nacionais com distribuição limitada no resto do país e vários rótulos que não compraríamos apenas para provar, então, foi uma experiência válida.

(*) Como expliquei, demoramos para nos adaptar a camas diferentes da nossa, mas além disso, essa noite em particular fora excepcionalmente ruim. O. acordou para ir ao banheiro de madrugada e me chamou porque havia um morcego lá dentro, como só haveria alguém na recepção a partir das 7h da manhã, abri a janela do banheiro e fechamos a porta. Por volta das 5h, checamos e ele não estava mais lá. Juro que fechei a janela antes de dormir, pois sou cuidadosa com essas coisas, mas acho que sobrou uma fresta e ele conseguiu entrar. Muito azar!

A Angheben
O simpático senhor Idalencio Angheben
Frente da Don Laurindo
Acho que a variedade se chama Malvasia de Candia
Lindos cachos
Queria provar, mas não tive coragem
Miolo
Miolo
Barris da Miolo
Linha de vinhos da Miolo
Degustação da Miolo (4 vinhos)
Linha de vinhos da Lidio Carraro
Linha top da Lídio
Loja da Geisse
Geisse
Interior do restaurante Mamma Gemma
Uma entrada no restaurante

A salumeria dos Caminhos de Pedra
Sagu com creme, uma de minhas novas sobremesas preferidas

4 comentários:

Anônimo disse...

Que belo passeio ! Eu não conheço o roteiro dos vinhos, mas sou fã (há muitos e muitos anos) dos vinhos da Casa Valduga. Sempre os encomendo aqui no Rio.
A sobremesa de sagu ao vinho com creme holandês é realmente uma delícia. Tenho uma vizinha, bem velhinha, que sempre que faz me convida para provar. É mesmo muito gostoso !
Beijinhos !
Vera Scheidemann
P.S. Estou sentindo falta dos "seus" gatos... Como vão eles ?

Karen disse...

Oi, Vera! Estou procurando uma boa receita de sagu, há tantas! Vou fazer alguns testes em casa e, se der certo, coloco aqui.

Como tenho colocado as sementes para os pássaros no quintal, tive que dar algumas corridas nos gatos que apareciam e tentavam apanhá-los. Acho que agora eles ficaram com um pouco de receio de mim... :(

Quéroul disse...

nem sei por onde começar a comentar essa sequência de posts... espera eu acabar de secar essas LÁGREMAS DE SANGUE que caem de meus olhinhos por saber que você esteve aqui no meu país e nem incluiu minha terrinha no seu destino!

sabe que eu ainda não comi sagu aqui? nunca foi das minhas sobremesas prediletas, e tem cada história engraçada de gente que fica mei bêbada com a sobremesa, que eu ainda não tive a ousadia de experimentar.
e as carnes, né? carne aqui é que nem pizza no resto do mundo: até quando é mais ou menos, é boa.

beijos, tchê. lindas fotos, como sempre... um dia quero fazer esse rolê pela serra, tomando vinho e esquiando na neve artificial.

Karen disse...

Quéroul, vi Pelotas no mapa, mas era um desvio meio grande, fica ainda mais pro sul!

Ficar bêbado com o sagu é demais, acho que devem ter comido um batizado, se é que você me entende...

Carne é ótima, devia ter comido mais!

Sempre digo que não há nada mais chique do que neve artificial em país tropical...