23.8.07

Pão de tomate seco

A receita é do Olivier Anquier, eu a vi no Caderno da Folha de domingo e fiz hoje. Como não tinha todo o tomate seco necessário e a receita rendia muito, fiz apenas 1/3 da receita. Vou ser honesta, eu não sou muito fã de pães mais salgadinhos, prefiro aqueles que têm um fundo adocicado, mas ficaram bons, deve ser ótimo para acompanhar patês, se você usar aqueles tomates secos com orégano, sentirá um aroma delicioso na cozinha enquanto eles assam.

A receita é para fazer sem usar a máquina de pão, mas eu sempre uso porque a preguiça fala mais alto! Coloquei os ingredientes lá dentro e deixei amassando, esperei crescer, retirei, moldei os pães, deixei crescer mais um pouco e assei. Eu precisei colocar um pouco mais de água enquanto amassava, portanto acho que é melhor ir colocando a farinha aos poucos e não colocar a medida inteira (1kg) logo de cara.



 
Pão de tomate seco
1 kg de farinha de trigo
250 g de farinha de trigo integral
200 g de gérmen de trigo
900 ml de água gelada
35 g de fermento fresco (ou o equivalente em fermento em pó, basta ler a embalagem para descobrir, se não me engano, cada pacotinho de fermento seco equivale a cerca de 3 tabletes de fermento fresco)
30 g de sal
250 g de tomate seco picado
 
Rende 4 pães de 400 g

Misture a farinha e o sal e faça um buraco no meio para colocar a água. Dissolva o fermento nessa água, sem deixar entrar em contato com o sal. Misture todos os ingredientes com as mãos até a massa desgrudar. Amasse sob uma plataforma polvilhada com farinha. Faça uma bola e cubra-a com pano úmido por 10 minutos.
Corte bolinhas com polegar e indicador, esticando-as. Modele os pães e deixe-os sob pano úmido por 10 minutos. Preaqueça o forno a 250º C e asse em forno quente (220º C) por 30 minutos.

21.8.07

Um trecho de "Proust contra Saint-Beuve"

"Cada dia dou menos valor à inteligência. Cada dia eu me rendo mais conta de que é apenas em seu exterior que o escritor pode reencontrar algo de nossas impressões, quer dizer, atingir algo de si mesmo e a única matéria da arte. Aquilo que a inteligência nos fornece sob o nome de passado, não é o passado. Na realidade, como acontece com a alma dos mortos em certas lendas populares, cada hora de nossa vida, assim que morre, encarna-se e esconde-se em algum objeto material. Ela permanece aprisionada ali dentro, aprisionada para sempre, a menos que reencontremos tal objeto. Por meio dele, nós a reconhecemos, nós a chamamos e ela é libertada. O objeto no qual ela se esconde - ou a sensação, pois todo objeto em relação a nós é sensação - , pode jamais ser encontrado por nós. E assim, há horas de nossa vida que nunca mais ressuscitarão. Pois esse objeto é tão pequeno, tão perdido no mundo, que há poucas chances de que se encontre em nosso caminho!"

(Esse trecho explica bem o episódio da madeleine de Proust, não?)

19.8.07

Falso siri


A professora de Fortaleza que nos recebeu no ano passado veio para um congresso e acabamos nos encontrando para um almoço nas imediações. Apesar de curta, a conversa foi boa e rendeu uma receitinha, ela nos perguntou se conhecíamos o "Falso siri", dissemos que não e ela nos explicou que era uma forma de preparar um prato que parecia ter siri sem ter siri, usando sardinha em lata, leite de coco e repolho. Estava meio cética, mas fiquei muito curiosa, como ela só deu as indicações gerais da receita, tive que procurar algo parecido e encontrei esta receita. Achei que ficou bem interessante, não é idêntica a um suflê ou à fritada de siri, mas chega perto e até pode enganar algumas pessoas! Fiz pouco mais da metade da receita e rendeu bem.

Falso siri

 
1 fio de azeite de dendê
2 latas de sardinha escorrido (usei latas grandes, de 250g)
3 cenouras médias raladas

1 repolho pequeno fatiado fino

1 cebola grande ralada

suco de um limão (eu prefiro sem)
2 tabletes de caldo de galinha, carne ou peixe (na verdade é a gosto, o suficiente para salgar)

5 c sopa de azeite extra-virgem

1/2 maço de cheiro verde picado

2 pimentões picados

1 vidro de leite de coco (200ml)
4 ovos batidos (bata as claras e depois adicione as gemas)

2 c sopa de farinha
Se quiser, adicione coentro picado

Refogue a cebola até dourar, adicione a cenoura, o repolho, o cheiro verde, o pimentão, o suco de limão, o leite de coco, o tablete de caldo de galinha e deixe cozinhar por 10 min, mexendo sempre.


Adicione a sardinha desmanchada, as 2 c sopa de farinha (não é preciso diluir) e uma parte do ovo batido. Misture tudo por um minuto.


Unte um pirex, despeje o falso siri e cubra com o restante do ovo batido, leve ao forno até dourar.


9.8.07

Sobrecoxa teriyaki

Mais uma do livro de culinária japonesa que adoro, mas andava meio encostado devido à minha grande preguiça de ler em japonês. Estudar línguas é algo engraçado, você passa um tempão estudando e achando que não está melhorando nada e, de repente, olha para uma palavra e descobre que sabe qual é o seu significado. É o que parece ter acontecido com meu japonês, estudo sozinha e às vezes desanimo, mas acho que não tem sido em vão! Ainda preciso consultar o dicionário várias vezes, mas agora não é tão desesperador.

Esta é uma de minhas receitas preferidas, deliciosa e simples. Esses dias ando com vontade de voltar a algumas receitas básicas, preparar coisas simples, enfim, de mudar algo, como não dá para fazer grandes mudanças na vida, a gente começa pelas mais fáceis. rs


Sobrecoxa teriyaki

 
2-3 sobrecoxas de frango desossadas e abertas (com a pele o efeito final é mais bonito, eu só tinha sem)

Fure a carne com um garfo e tempere com:
3 c sopa de shoyu
1 c sopa de saquê
1 c chá de caldo de gengibre (rale um pedacinho de gengibre e esprema para obter o caldo)

Deixe marinar por certa de 20-30min virando de vez em quando.
Aqueça cerca de 3 c sopa de óleo em uma frigideira. Retire a sobrecoxa da marinada e coloque para fritar na frigideira com a parte da pele voltada para baixo. Frite em fogo baixo mexendo a frigideira. Depois que a pele ficar bem corada, vire, tampe a frigideira e deixe fritar em fogo baixo por 10 min. Quando você espetar a parte mais grossa da carne com um ohashi e ele entrar com facilidade, pode retirar a carne para um prato. Limpe a frigideira, descartando o excesso de óleo. Coloque-a de volta no fogo e adicione uma mistura feita com o resto da marinada do frango,
2 c sopa de mirin (tipo de saquê adocicado vendido em loja de produtos japoneses), 1 c sopa de shoyu e 1,5 c sopa de açúcar. Deixe ferver um pouco e depois coloque os pedaços de sobrecoxa fritos com a pele voltada para baixo novamente na frigideira. Deixe caramelizar e depois vire e faça o mesmo do outro lado. Movimente a frigideira para que a carne caramelize bem.

28.7.07

Pão com fibras Refúgio das Pedras

Encontrei esta receita de pão integral no site de uma pousada em Ilha Bela, a Refúgio das Pedras, adoro hotéis e pousadas que servem um pãozinho caseiro para os hóspedes e se ele for integral, ganha alguns pontos extras. Estava fazendo uma pesquisa sobre lugares para onde poderíamos ir descansar sem precisar pegar um avião (por razões óbvias) e me deparei com a pousada, eu a achei muito charmosa, mas O. já a vetou, ele tem alergia a picadas de borrachudos e prefere ficar longe de Ilha Bela, uma pena!

O pão é delicioso, um dos melhores pães integrais que fiz! Como sempre, amassei na máquina de pão, modelei e deixei crescer. Substituí 1 x de farinha por farinha de trigo integral e ainda assim a massa cresceu bastante.




Pão com Fibra

 
02 tabletes de fermento biológico (15 g cada), ou cerca de 7 g de fermento biológico seco
01 xícara de chá de água morna

1/4 xícara de chá de açúcar mascavo
03 xícaras de chá de farinha de trigo (substituí 1 x por farinha de trigo integral e a farinha usada foi aquela Premium para pães e massas da Fleischmann)

01 xícara de chá de farelo de trigo
01 colher de sopa de margarina

01 colher de chá de sal
01 ovo


Modo de fazer:

Dissolva o fermento na água morna, junte o açúcar, margarina, sal, ovo e uma xícara de farinha, bata na batedeira em velocidade baixa e aumente p/ três minutos em velocidade alta.
Junte o resto da farinha de trigo e o farelo até obter uma massa homogênea. Unte uma forma de bolo inglês e coloque a massa deixando descansar de 30 a 40 minutos ou até que dobre de volume. (Eu dividi a massa em pães menores para congelar). Asse em forno moderado por 30-50 minutos, até dourar.

Depois de pronto pincele com manteiga para dar brilho (opcional).

26.7.07

After the quake - Haruki Murakami

Demorei um pouco para ler este livro do Murakami, temia que ele fosse meio baixo astral porque foi escrito depois do terremoto de Kobe em 1995, mas estava enganada. O terremoto é apenas mencionado vagamente em cada um dos seis contos que compõem a coletânea, alguém vê a notícia e descobrimos que o personagem morou ou conhece alguém que mora na região e o assunto meio que morre ali. Gostei bastante deles. Murakami trata da solidão e da dificuldade envolvida nos relacionamentos pessoais sempre de modo muito delicado.

Ufo em Kushiro, é sobre um rapaz que é deixado pela esposa e vai até Hokkaido levar um pacote para a irmã de um amigo e para se esquecer de sua situação.

Paisagem com Ferroplano, mostra o relacionamento de um pintor de meia idade que gosta de fazer fogueiras com a madeira que encontra na praia e uma garota que fugiu de casa quando era mais jovem.

Todos os filhos de Deus podem dançar, é sobre um rapaz que busca respostas sobre quem é seu pai.

Tailândia, um de meus preferidos, é sobre uma médica que vai até a Tailândia para uma conferência e estende sua estadia em um resort em um local isolado.

Super-sapo salva Tóquio, também é um barato, muito divertido e bonito. Um dia um cara que trabalha em um banco encontra um sapo gigante em seu apartamento que diz que ele precisa ajudá-lo a derrotar "Verme", um ser que vive no subsolo e ameaça destruir a cidade de Tóquio...

Torta de mel, conta a história de três amigos e de seu triângulo amoroso. Também muito terno.

Agora estou sem Murakamis para ler e tenho que esperar...

23.7.07

Oh, dear Emily!

Adoro a Emily Dickinson, gosto tanto de seus poemas:

I'm nobody! Who are you?
Are you - Nobody - Too?
Then there's a pair of us!
Don't tell! they'd advertise - you know!

How dreary - to be - Somebody!
How public - like a Frog -
To tell one's name - the livelong June -
to an admiring Bog!

Este também:

I've seen a Dying Eye
Run round and round a Room -
In search of Something - as it seemed -
Then Cloudier become -
And then - obscure with Fog -
And then - be soldered down
Without disclosing what it be
'Twere blessed to have seen -

Elizabeth Costello - Coetzee

Li "Disgrace" (traduzido como "Desonra" no Brasil) antes do escritor sul-africano John Maxwell Coetzee ganhar o Nobel de literatura em 2003 e o achei ótimo, depois li O mestre de São Petesburgo, cujo personagem principal é Dostoievski e, ontem, terminei Elizabeth Costello. Respectivamente, um romance sobre a questão racial na África do Sul, um livro que traz um Dostoievski atormentado em busca de respostas sobre a morte de seu enteado e as cenas da vida de uma escritora já consagrada no final de sua carreira, Elizabeth Costello.

Gosto de Coetzee, ele mereceu o Nobel e um dia espero encontrá-lo em uma Flip da vida apenas para conferir se ele é parecido com seus personagens: um pouco cínico, um pouco cansado, alguém que responderia "Whatever" para qualquer questão que lhe fizessem como se tivessem lhe perguntado algo como "Would you like to have tea or coffee?".

Acho que em Elizabeth Costello ele deixa bem clara a forma como encara a vida de um escritor. A protagonista viaja de um lado para o outro para dar palestras sobre a literatura ou para falar sobre assuntos como a crueldade com os animais, mas apesar de aceitar os convites, ela não deixa de se exasperar em ter que conversar com pessoas com as quais não se importa quando preferiria estar descansando.

No último capítulo, uma alegoria sobre a morte parecida com alguns episódios das histórias de Kafka, Elizabeth está em uma cidade estranha e quer atravessar um portão para sair de lá, mas para isso, precisa apresentar-se diante de um júri e dizer no que acredita. Ela já está na segunda audiência e se desespera, pois sabe que sua busca por alguma paixão, por algo em que professar sua fé, parece estar condenada ao fracasso.

"When she was young, in a world now lost and gone, one came across people who still believed in art, or at least in the artist, who tried to follow in the footsteps of the great masters. No matter that God had failed, and Socialism: there was still Dostoevsky to guide one, or Rilke, or Van Gogh with the bandaged ear that stood for passion. Has she carried that childish faith into her late years, and beyond: faith in the artist and his truth?

Her first inclination would be to say no. Her books certainly evince no faith in art. Now that it is over and done with, that lifetime labour of writing, she is capable of casting a glance back over it that is cool enough, she believes, even cold enough, not to be deceived. Her books teach nothing, preach nothing; they merely spell out, as clearly as they can, how people lived in a certain time and place. More modestly put, they spell out how one person lived, one among billions: the person whom she, to herself calls she, and whom others call Elizabeth Costello. If, in the end, she believes in her books themselves more than she believes in that person, it is belief only in that sense that a carpenter believes in a sturdy table or a cooper in a stout barrel. Her books are, she believes, better put together than she is."

16.7.07

Creme de mamão com iogurte

Para quem não pode se dar ao luxo de bater colheradas de sorvete de creme com mamão, aqui vai uma sugestão:
Bata mamão formosa (dizem que leva menos pesticidas do que o mamão papaya) com um pouco de iogurte natural desnatado no liquidificador e tome na hora do lanchinho. Eu não adoço, mas se você preferir, pode adicionar mel na hora em que bater.

15.7.07

Como acabar de uma vez por todas com a cultura - Woody Allen

Descobri Woody Allen como escritor recentemente, quando li um dos artigos que ele escreveu para a revista New Yorker no qual mistura teorias filosóficas e dietas. Eu o achei extremamente divertido, um exemplo da típica ironia woodyalleniana e fiquei feliz ao encontrar uma coletânea com outros artigos em um livro bem velhinho, publicado pela primeira vez em 1974.

O. compra livros "curiosos", então tive que ler tudo em espanhol.

Em "Como acabar de uma vez por todas com a cultura" Allen satiriza tudo e todos, desde a psiquiatria, biografia, revoluções, filosofia até o cinema e a máfia. Achei alguns artigos melhores do que outros, acho que há algumas tiradas que fazem mais sentido se você é americano ou judeu, mas no geral, é uma leitura bem interessante e que flui rápido. Eis um trecho do artigo "Como acabar com as revoluções na América Latina", os revolucionários estão na selva e um deles escreve um diário da campanha:

"10 de julho: Hoje foi, em linhas gerais, um bom dia levando em consideração que os homens de Arroyo nos emboscaram e quase nos liquidaram. Em parte, a culpa foi minha, porque revelei nossa posição ao invocar a Santíssima Trindade aos berros quando uma tarântula subiu por minha perna. Durante alguns segundos, não consegui me livrar da tenaz da maldita aranha enquanto ela abria caminho nas secretas profundezas de minha roupa fazendo com que eu corresse como um louco até o rio e me jogasse nele, o que me pareceu que durou três quartos de hora. Pouco depois, os soldados de Arroyo abriram fogo sobre nós. Lutamos com valentia, embora a surpresa tenha criado uma leve desorganização e durante os primeiros dez minutos nossos homens tenham atirado uns nos outros. Mesmo Vargas se salvou por um fio da catástrofe quando uma granada aterrissou a seus pés. Ele ordenou que me jogasse sobre ela. Consciente de que somente ele era indispensável para nossa causa, eu o fiz. O destino quis que a granada não explodisse, e saí inteiro do incidente com apenas um ligeiro tremor e a incapacidade de adormecer a menos que alguém segure uma de minhas mãos."