16.3.08

Salada de cevada, milho e tomate com molho de manjericão

Receita inspirada nesta receita do Epicurious. Precisava usar um resto de cevada que já estava vencendo e resolvi fazer uma salada que também servisse como acompanhamento para um frango grelhado, ficou muito bom. Basta cozinhar a cevada de acordo com as instruções da embalagem (eu costumo deixar de molho de um dia para o outro), escorrer e colocar em uma tigela com tomates picados, milho cozido (usei enlatado) e temperar com um molho feito com um bom punhado de folhas de manjericão, azeite, sal e vinagre a gosto, tudo bem batido no liquidificador.

 

13.3.08

Travels with a donkey - Robert Louis Stevenson

No livro sobre a França que li no ano passdo, este livro de R. L. Stevenson era mencionado e como ele estava na estante e já tinha pensado em lê-lo, resolvi colocar o pensamento em prática.Nele, Stevenson narra sua viagem de doze dias pela região montanhosa de Cévennes no sul da França. O burrinho do título é uma fêmea que o escritor adquire no começo da viagem e que ele vende ao seu final. Modestine (esse é seu nome) carrega os pertences e a comida do autor que não monta sobre ela, mas caminha ao seu lado e lhe dá vergastadas quando ela não trota com muita boa vontade. (Os defensores dos animais provavelmente iriam reprová-lo, mas teriam que entender que é difícil ser paciente quando é preciso chegar em um vilarejo antes de escurecer para evitar dissabores maiores e se levarem em consideração que uma pessoa andando sozinha é mais rápida do que outra caminhando com um burro.)

Stevenson escreve sobre suas dificuldades de viagem como as condições precárias dos albergues e a má vontade das pessoas para quem pede informações. Em um povoado, as crianças mostram-lhe a língua e ninguém lhe abre a porta a noite, mas é compreensível, na época em que ele viaja, no final do século XIX, a região de Cévennes era bem isolada e a vida era outra: sem eletricidade, meios de comunicação rápidos e com muitas superstições.

As pessoas achavam seu projeto ousado e curioso, mas creio que hoje em dia seria fácil fazer o trajeto de bicicleta.

Como sempre ocorre quando leio relatos de viagens feitas em um ritmo menos frenético do que nos tempos atuais, fiquei nostálgica. Gostaria de sentir o gostinho de viajar no ritmo dos cavalos, (burros) e navios! Vocês não?
****
Achei curiosa a descrição que Stevenson faz de como era preparada uma bebida feita com uvas chamada “a parisiense” que ele bebe em um jantar com uma família em St. Jean de Calberte no final de sua viagem. As videiras locais sofriam com a Phylloxera e ao invés de vinho, eles oferecem esse suco de uvas meio fermentado:

“A phylloxera estava na vizinhança e ao invés de vinho, bebemos um sumo mais econômico de uvas no jantar, A Parisiense, como eles o chamam. Ele é feito colocando-se a fruta inteira na barrica com água. Os bagos fermentam um a um e estouram. O que é bebido durante o dia é colocado na água durante a noite. Então, sempre com um outro balde do poço e outros bagos explodindo e fornecendo seu vigor, uma barrica de “Parisiense” pode durar até a primavera para uma família. A bebida é, como o leitor pode antecipar, bem fraca, mas muito agradável para o paladar.”


7.3.08

Ferdydurke - Witold Gombrowicz

Um (bom) livro sempre nos leva a outros livros. Isso é um fato. Após ler o que o Milan Kundera escreveu sobre literatura, fui ler a Ana Karenina de Tolstoy e, agora, Ferdydurke, de Witold Gombrowicz, até então, um ilustre desconhecido para mim. Grombrowicz nasceu na Polônia em 1904, estudou direito e depois de se formar começou a escrever. Pouco antes da segunda guerra, ele foi convidado a participar de uma viagem transatlântica até a América do sul e quando chegou na Argentina, a Polônia havia sido invadida pelos nazistas e depois pelos soviéticos, esses acontecimentos fizeram com que ele permanecesse em Buenos Aires, onde viveu em grande penúria por duas décadas antes de retornar para a Europa. Ferdydurke é sua obra mais famosa e gira mais em torno de um tema do que propriamente conta uma história. O livro fala sobre um autor de trinta anos que passa a ser tratado como um garoto de dezessete anos, ele é visto como alguém que não pode ser levado a sério e submetido à tirania das instituições sociais: escola, professores, colegas, parentes.

As pessoas com as quais o rapaz cruza são representantes de valores que ele ridiculariza (comunismo, aristocracia, burguesia, etc). Gombrowicz escreve com absoluta liberdade e ironia. Gosto muito dos trechos reflexivos do protagonista, como este, logo no começo do livro:

“Eu tinha acabado de cruzar o inevitável Rubicão dos trinta há pouco tempo, eu tinha ultrapassado aquele marco e, de acordo com minha certidão de nascimento e por onde quer que examinasse, eu era um ser humano maduro. E, no entanto, não o era – o que eu era? Um jogador de bridge de trinta anos? Alguém que por acaso estava trabalhando, ocupando-se com as trivialidades da vida, cumprindo prazos? Qual era meu status? Freqüentava bares e cafés onde trocava algumas palavras, ocasionalmente até idéias, com as pessoas com as quais cruzava, mas meu status não era nada claro e eu mesmo não sabia se era um homem maduro ou um jovem imaturo. Naquele momento decisivo da minha vida, eu não era nem um nem outro – Eu não era nada – e meus contemporâneos, já casados e firmados, senão sobre suas opiniões sobre a vida, ao menos em várias agências governamentais, tratavam-me com uma desconfiança compreensível. Minhas tias, aqueles inúmeros um-quarto-de-mãe, apregoavam, remendavam, embora me amassem muito, e insistiam para que eu me estabelecesse e me tornasse alguém, um advogado, um servidor público – elas pareciam muito aborrecidas com minha indecisão e, sem saber o que fazer comigo, elas não sabiam como falar comigo, então, apenas tagarelavam:
‘Joey’, diziam entre uma tagarelice e outra, ‘é tempo, meu querido. O que as pessoas irão dizer? Se você não quer ser um doutor, ao menos seja um mulherengo, ou alguém que gosta de cavalos, seja algo... seja algo definido...’”

(Vocês também não tiveram/têm “tias” assim? Eu tenho várias, mas elas estão na minha consciência e não consigo me livrar delas!)



5.3.08

Butterscotch pudding

Sobremesa, finalmente!

Receita do David Lebovitz. Ridiculamente simples e absolutamente deliciosa, isto é, se você gostar de açúcar mascavo e de pudins que lembram os pudins cremosos de caixinha.

Butterscotch pudding

4-6 porções
Adaptado de Ripe For Dessert (HarperCollins)
4 c sopa (60g) de manteiga (com ou sem sal)
1 x (200g) de açúcar mascavo

3/4 c chá de sal grosso
3 c sopa de maisena
2½ x (625ml) de leite
2 ovos grandes
2 c chá de uísque (usei bem mais)
1 c chá de essência de baunilha


1. Derreta a manteiga em uma panela, adicione o açúcar mascavo e o sal, misture até que o açúcar fique umedecido. Retire do fogo.

2. Em um recipiente pequeno, misture a maisena com 1/4 x do leite até que não haja mais grumos e depois adicione os ovos, mexa bem.

3. Junte o leite restante pouco a pouco ao açúcar derretido mexendo sempre. (Eu coloquei o leite já com a panela no fogo e esperei todos os pedaços de açúcar se dissolverem e só então coloquei a mistura de maisena). Adicione a mistura de maisena também.

4. Coloque a panela de volta no fogo e espere a mistura ferver mexendo com freqüência. Depois que começar a borbulhar, reduza a temperatura e deixe cozinhar por um minuto, mexendo sem parar, até que o pudim engrosse e fique com a consistência de um mingau grosso.

5. Retire do fogo e adicione o uísque e a essência de baunilha. Misture bem. Se ficar com a aparência meio "coalhada" ou com grumos, você pode bater o pudim em um processador ou no liquidificador (bata em duas etapas para que o copo do liquidificador não fique muito cheio e o pudim quente não vaze ou espirre).

6. Despeje o pudim em recipientes individuais, espere esfriar e deixe na geladeira por ao menos quatro horas antes de servir. (Na hora de servir, você pode enfeitar com chantilly e raspas de chocolate).


1.3.08

Botchan - Natsume Soseki

Natsume Soseki é um autor japonês de que gosto bastante. Fazia algum tempo que não o lia. Estou retornando a alguns velhos conhecidos, como Kawabata e Saramago e tem sido prazeroso.

Botchan é um dos primeiros livros de Soseki e conta a história bem humorada de um rapaz que se forma em física em uma faculdade de Tóquio e é contratado para dar aulas em uma província bem distante, no sul do arquipélago. Ele tem um temperamento forte e impulsivo que lhe rende muitas reprimendas na infância e que, adulto, torna-se o estopim de conflitos com os outros professores. O rapaz é do gênero “grosseirão com bom coração” e passa por várias vexações por causa de sua falta de tato, mas ele não parece se incomodar com as convenções sociais e fica sempre chocado com a insinceridade, a mentira e a afetação de seus colegas e das pessoas que encontra no vilarejo.

"Botchan" é uma palavra japonesa difícil de traduzir, é uma forma de chamar os garotos quando eles são pequenos que é, ao mesmo tempo, carinhosa e revela uma posição subordinada da pessoa que a usa, como Kiyo, a empregada da família do personagem em questão. Seria parecido com a forma como os escravos chamavam os filhos de seus senhores: “sinhozinho” (lembrem-se de que se trata de uma aproximação forçada, não exata!).

O livro é bastante popular no Japão e deve ser muito mais interessante e divertido em japonês, o tradutor mesmo escreve que é difícil encontrar equivalentes em inglês para todos os trocadilhos dos diálogos.

No trecho abaixo, o rapaz vai pescar com dois outros professores para os quais ele deu os nada lisonjeiros apelidos de “Camisa Vermelha” e “Palhaço”: 
“O barqueiro remava em direção ao mar com batidas lentas e calmas, mas quando olhei para trás, descobri que já estávamos tão longe que a praia parecia bem pequena na distância. O pagode do templo Kohakuji afunilava-se como uma agulha acima das árvores e, do outro lado, a ilha de Aojima flutuava sobre a água. Ninguém vivia naquela ilha, olhando de mais perto, eu descobri a razão. Ela era apenas um aglomerado de rochas e pinheiros. Camisa Vermelha observou como a paisagem era delicada e Yoshikawa, o Palhaço, concordou. Eu não sabia se ela era delicada ou não, mas certamente dava uma sensação agradável olhar para ela. Era bom estar ali naquela vasta expansão de água, sentindo a brisa do mar. Eu estava morrendo de fome.

'Olhe para aquele pinheiro', Camisa Vermelha disse para Yoshikawa. 'O tronco é perfeitamente reto e a copa se espalha como um guarda-chuva. Ela deveria ter sido pintada por Turner'.
O Palhaço respondeu que ela 'tinha saído de um Turner', e que a curva era perfeita. Eu não tinha qualquer idéia do que 'Turner' significava, mas achando que poderia viver muito bem sem aquele conhecimento, fiquei quieto.
O barco deu uma volta do lado direito da ilha. Não havia ondas. Era tão calmo, de fato, que era difícil dizer que você estava no mar. Eu estava tendo bons momentos, graças ao Camisa Vermelha. Se fosse possível, eu gostaria de desembarcar na ilha e ver como ela era, apontando para uma rocha, perguntei ao barqueiro se o barco não poderia ancorar ali. Camisa Vermelha disse que aquilo poderia ser feito, mas que a pescaria não seria muito boa tão próximo da ilha. Então Yoshikawa se dirigiu a Camisa Vermelha e veio com a desnecessária sugestão de chamar o lugar de Ilha de Turner. Camisa Vermelha achou a idéia boa e disse que era como iríamos chamá-la a partir daquele momento. Esperei não ter sido incluído naquele 'nós'. Ilha de Aojima estava perfeito para mim.
'Imagine a Madonna de Rafael em pé sobre aquela rocha', disse Yoshikawa. 'Daria uma pintura maravilhosa. Você não concorda?'
'Não vamos falar sobre Madonnas', respondeu Camisa Vermelha, e deu uma risadinha desconcertantemente efeminada. Yoshikawa, lançando um olhar em minha direção, disse que estava tudo bem, pois ninguém estava ouvindo. E voltou-se para o outro lado de propósito com um sorrisinho afetado. Aquilo fez com que me sentisse desconfortável. Madonna ou beladona, dava tudo na mesma para mim. Ele poderia colocar o que quisesse sobre as rochas. Mas dizer coisas que outras pessoas não entendiam e, além disso, não se importar que elas ouvissem porque elas não as compreendiam, era grosseiro. Apesar de seu comportamento, Yoshikawa ainda tinha coragem de dizer que era de Tóquio. Madonna provavelmente era o apelido da geisha preferida de Camisa Vermelha. Bem, se ele queria colocar uma geisha debaixo de um pinheiro em uma ilha desabitada, ele que o fizesse. E o Palhaço poderia pintá-la a óleo e mostrar o quadro em uma exposição.”






24.2.08

Haruki Murakami entrevistado pela Der Spiegel

Estava folheando a Der Spiegel da semana passada quando encontrei uma entrevista com o escritor Haruki Murakami, é a primeira entrevista dele que leio. A revista o entrevistou porque a tradução para o alemão de seu último livro, “Sobre o que falo, quando falo sobre correr”, será lançada amanhã na Alemanha.

Quando passei na Amazon japonesa no ano passado, li alguns comentários (fazendo uso de meu japonês imperfeito) sobre o livro e a maioria das pessoas estava surpresa em ler algo mais pessoal desse autor bastante arredio quando se trata de sua intimidade.


Na entrevista, Murakami fala sobre o papel que correr possui em sua vida de escritor. Sua ênfase na importância do físico para a criação artística lembrou-me de que Coetzee, o Nobel sul-africano, também é adepto do “corpo são, mente sã” e gosta de pedalar por vários quilômetros.


A tradução americana do livro será lançada em 29 de julho.


Traduzi alguns trechos da entrevista fazendo uso do meu alemão que não é exatamente a quinta-essência da língua de Goethe.

Der Spiegel (18.02. 08)

O escritor e esportista amador japonês Haruki Murakami, 59, fala sobre a solidão da corrida de longa distância, a tortura dos treinos diários e o reconhecimento de que sua carreira de escritor começou depois que ele correu pela primeira vez.
 
Spiegel: Sr. Murakami, o que é mais fatigante: escrever um romance ou correr uma maratona?
Murakami: Escrever é prazeroso, ao menos quase sempre. Eu escrevo por quatro horas todos os dias. Depois eu corro. De regra, 10 km. É bom fazer isso. Mas percorrer 42,195 km é duro, no entanto é uma dificuldade, uma agonia inevitável, a qual eu me entrego conscientemente. Para mim, este é o aspecto mais importante de correr uma maratona.

Spiegel: O que é mais belo: terminar um livro ou chegar ao fim de uma maratona?
Murakami: Colocar um ponto final em uma história é como o nascimento de um filho. Um autor mais feliz talvez possa escrever doze romances, eu não sei quantos livros ainda tenho em mim. Quatro? Cinco? Correndo eu não sinto qualquer limite. Publico um romance a cada quatro anos, mas todos os anos eu faço uma corrida de 10 km, uma meia maratona e uma maratona. Até agora completei 27 maratonas, a última em janeiro, e as de número 28, 29 e 30 naturalmente irão se seguir.


Spiegel: Você cresceu como filho único. Escrever é um trabalho solitário e você corre sempre sozinho. Há uma relação?
Murakami: Com certeza. Gosto de ficar sozinho. Ao contrário de minha esposa, não gosto de sociedade. Estou casado há 37 anos e é sempre uma batalha. No meu emprego anterior frequentemente eu trabalhava até o amanhecer, agora eu vou para a cama entre nove e dez horas.
Spiegel: Antes de tornar-se um autor, você tinha um bar de jazz em Tóquio. Como foi essa mudança radical?
Murakami: Eu ficava no bar, era meu trabalho manter conversas. Fiz isso por sete anos, mas não sou um homem de muitas palavras. Eu jurei que quando terminasse, conversaria apenas com as pessoas com as quais realmente tinha vontade.


Spiegel: Você é um escritor melhor porque corre?
Murakami: Certamente. Quanto mais meus músculos se fortalecem, mais lúcido torna-se meu espírito. Estou convencido de que os artistas que levam uma vida pouco saudável exaurem-se mais rápido. Jimi Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin foram heróis de minha juventude – eles morreram jovens, embora não o merecessem. Apenas gênios precoces como Mozart ou Pushkin merecem mortes precoces. Jimi Hendrix era bom, mas não muito inteligente, pois usava drogas. Trabalhos artísticos não são saudáveis, para compensar, os artistas devem viver de forma saudável.


Spiegel: Você pode esclarecer isso?
Murakami: Quando um escritor desenvolve uma história, ele confronta um veneno em seu interior. Quando você não possui esse veneno, sua história não tem inspiração. É como o Fugu, o baiacu é muito saboroso, maravilhoso, mas as ovas, o fígado e os intestinos podem ser letais. Minhas histórias encontram-se em um lugar escuro, perigoso, da minha consciência. Sinto o veneno em meu espírito, mas posso tolerar uma dose alta, porque tenho um corpo forte. Quando você é jovem, possui mais força para vencer o veneno sem treino. Aos 40 anos, a força diminui, você não supera o veneno se não vive de forma saudável.


Spiegel: J. D. Salinger tinha 32 anos quando seu único romance apareceu, “O apanhador no campo de centeio”. Ele estava muito fraco para seu veneno?
Murakami: Eu traduzi o livro para o japonês. É muito bom, mas incompleto. A história torna-se cada vez mais sombria, e o protagonista não encontra o caminho de volta do mundo sombrio. Acho que o próprio Salinger nunca o encontrou. Se ele teria se salvado pelo esporte? Não sei.


Spiegel: Você se depara com idéias para suas histórias enquanto corre?
Murakami: Não, não sou o tipo de autor que encontra a fonte de uma história de forma lúdica. Eu preciso cavar bem fundo para atingir o lugar sombrio em minha alma, onde as histórias estão escondidas. Também para isso preciso estar fisicamente forte. Desde que comecei a correr, posso me concentrar por mais tempo, o que também é necessário para percorrer o caminho das trevas. No trajeto, você encontra tudo: as imagens, os personagens, as metáforas. Se você estiver fisicamente fraco, faltará a força para agarrá-los e transportá-los para a superfície de sua consciência. Assim é, também, na corrida. Você precisa cruzar a reta final, custe o que custar.

 
(Zut! Depois de traduzir esses trechos eu descobri a entrevista inteira traduzida para o inglês na Spiegel International! O bom foi ver que a minha versão está bem próxima).


Lombo assado na cerveja

Receita da nossa doce Laura do Pitadinhas. O lombo fica gostoso com um molho bem suculento, mas o melhor foi poder dar fim a um resto de cerveja que O. não bebeu no dia anterior e a umas três laranjas deprimidas.

(Minha peça de lombo tinha menos de 2 kg e fiz um ajuste das quantidade no olhômetro.)

Lombo assado na cerveja

 
1 xícara de chá de suco de laranja
4 colheres de sopa de manteiga
2 kg de lombo de porco
4 cravos-da-índia
2 dentes de alho
2 folhas de louro
1 cebola
1 lata de cerveja
Sal e pimenta-do-reino moída a gosto


Pique os dentes de alho e coloque em uma tigela grande. Junte a cerveja, o suco de laranja, a cebola espetada com os cravos e o louro. Esfregue o lombo com sal e pimenta e coloque-o de molho imerso no líquido da tigela. Cubra e leve à geladeira por no mínimo 12 horas.

Aqueça o forno em temperatura média. Retire o lombo do tempero e seque. Espalhe a manteiga sobre ele e coloque-o em uma assadeira. Junte o líquido da marinada até atingir 1 centímetro da altura da fôrma.

Cubra com papel-alumínio e leve ao forno por 1 hora.

Tire o papel-alumínio e asse por mais 30 minutos ou até dourar, regando constantemente com o molho.
Retire o lombo da assadeira corte em fatias e reserve.

Separe a cebola, retire os cravos espetados nela, pique-a e junte ao molho do lombo colocado em uma panela.

À parte, dissolva um pouco de maisena em um pouco de água e junte ao molho. Aqueça e misture até que ele fique encorpado. Distribua o molho sobre as fatias de lombo e sirva.


A Laurinha fez o molho de forma diferente. Dêem uma olhada em suas dicas.


20.2.08

Tender is the night - F. Scott Fitzgerald


Mais uma primeira vez na minha vida (engana-se quem pensa que as primeiras vezes são raras!), primeira vez que leio Francis Scott Fitzgerald.

Tender is the night, Suave é a noite, provavelmente um dos títulos de livro mais bonitos que conheço (inspirado em Ode to a Nightingale, um poema de John Keats), lembro que meu orientador, na época em que ele ainda não sabia que seria meu orientador, costumava encaixar o nome do livro no meio de sua peroração assim do nada, apenas dizia algo como “... pensem no caso de um livro como Tender is the night...” e continuava sua aula sobre Descartes. (Eram aulas de filosofia, talvez eu estivesse sonolenta demais naquele período da manhã para prestar atenção no encadeamento das idéias...)

A história, que se passa na primeira metade do século passado em locais como a Riviera Francesa, Paris e nos alpes suiços, é sobre Dick, um psiquiatra que se apaixona e casa com Nicole, uma de suas pacientes, filha de uma abonada família americana, e dos conflitos de seu relacionamento. É sobre como as paixões nascem e se consomem, como as expectativas transformam-se em decepção, enfim, sobre a demasiadamente humana existência. (E é, também, um livro um pouco autobiográfico, pois a esposa de Fitzgerald, Zelda, foi uma paciente de clínicas psiquiátricas enquanto ele teve sérios problemas com o álcool.)

O livro é muito bem escrito, enquanto lia, não conseguia deixar de pensar nos diálogos de filmes americanos antigos, quando os roteiristas eram também grandes escritores, e via as cenas em minha mente com direito a seus momentos dramáticos, seus galãs e suas divas.

Fitzgerald é imbatível quando disseca os relacionamentos, seus movimentos menos explícitos, traduzo um trecho (espero que não muito mal):

“Quando ele se sentou na beira da cama, sentiu o quarto, a casa e a noite vazios. No quarto ao lado, Nicole murmurou algo desolada e ele lamentou qualquer que fosse o tipo de solidão que ela sentia em seu sono. Para ele, o tempo permanecia imóvel e então, após alguns anos, aceleravam-se precipitadamente como o rápido rebobinar de um filme, mas para Nicole, os anos esvaíam-se pelo relógio, calendário e aniversário, somados à agonia de sua beleza perecível.
Mesmo o último ano e meio em Zugersee parecia tempo perdido para ela, as estações marcadas apenas pelos trabalhadores na estrada que se tornavam rosados em maio, marrons em julho, negros em setembro, brancos outra vez na primavera. Ela emergiu de sua primeira enfermidade cheia de novas esperanças, desejando muito, porém, privada de qualquer subsistência além de Dick, criando filhos que apenas podia fingir amar gentilmente, órfãos orientados. As pessoas de que gostava, a maioria rebeldes, perturbavam-na e eram-lhe nocivas – ela procurava nelas a vitalidade que as tornava independentes ou criativas ou rudes, procurava em vão – pois seus segredos estavam profundamente enterrados em conflitos de infância que elas tinham esquecido. Elas estavam mais interessadas na harmonia e charme exteriores de Nicole, a outra face de sua enfermidade. Ela levava uma vida solitária possuindo Dick que não desejava ser possuído.
Muitas vezes ele tentou sem sucesso relaxar sua influência sobre ela. Eles tinham muitos bons momentos juntos, agradáveis conversas entre as paixões das noites insones, mas quando ele se afastava e mergulhava em si mesmo, ele a deixava agarrada ao Vazio que contemplava em suas mãos, ao qual dava vários nomes, mas que ela sabia ser apenas a esperança de que ele logo retornaria.”


14.2.08

Melhores poemas - Mario Quintana

Sabia que quando pegasse uma antologia de poemas escritos por Mario Quintana, mesmo uma fina como esta que comprei em uma tarde quente de sexta-feira e li de um só golpe, eu seria conquistada, pois já tinha lido alguns poemas dele aqui e ali e a simpatia foi imediata. Agora minha trindade de poetas nacionais está completa: Drummond, Bandeira e Quintana. Todos escrevem com a facilidade e a simplicidade de quem repete gestos cotidianos, sem qualquer afetação e, assim mesmo, conseguem ser profundos, fazem carícias na alma da gente.

Se o Natal não tivesse passado, pediria para o O. me dar a antologia que compreende quinze de seus livros publicada pela Nova Aguilar, mas agora terei que economizar ou esperar até o dia dos namorados/ aniversário de casamento, ambos em junho (*suspiro!*). Aliás, alguém sabe se algum livro ficou de fora da edição da Nova Aguilar?

***
O que nos faz simpatizar com um escritor ou poeta? Acho que Quintana diz bem na carta que dirige a um poeta anônimo:

“Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família”.


***

Mais um pouquinho, só para fazer vontade:

A carta
Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida,
Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria...
Eu tenho um medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com suas quilhas afundadas, com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas...
Ai de mim,
Ai de ti, ó velho mar profundo,
Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios.

***

Recordo ainda... e nada me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...
Estrada afora após segui... Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai.
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai...
Que envelheceu, um dia, de repente!...


9.2.08

Viagem a Portugal - José Saramago


Descobri José Saramago na época em que prestava o vestibular porque o Memorial do convento estava na lista de leitura obrigatória para as provas. Foi uma descoberta feliz, o livro é muito bonito, Saramago sabe unir reflexão com poesia. Depois do Memorial, passei para O evangelho segundo Jesus Cristo, O ano da morte de Ricardo Reis e Ensaio sobre a cegueira, neste último, há uma imagem que desperta um contentamento e assombro enormes em mim todas as vezes que me lembro dela: a cena do banho das três mulheres na varanda do apartamento. Três cegas e a mulher do médico, única que vê, vão para o lado de fora e tomam um banho de chuva depois de passarem pelas situações mais desesperadoras, elas riem e sentem a água sobre o corpo. Essa imagem é de uma pureza encantadora! Li ainda outros livros de Saramago, mas são os que mencionei os meus preferidos.

Fazia tempo que não voltava ao autor e escolhi justamente um livro de viagens. Sempre gostei de livros de viagens, mesmo daqueles guias de bancas de jornais. Minha adolescência foi povoada de projetos de viagens nunca levados adiante na realidade, por falta de dinheiro (o que não mudou muito, infelizmente), mas detalhadíssimos na imaginação.

Viagem a Portugal é um deleite para quem gosta de história e arte. Saramago começa sua jornada lá no norte do país, na fronteira com a Espanha e vem descendo em direção ao sul. Ele é um guia cheio de erudição, entra nas igrejas e museus, passeia por ruínas e castelos, fala sobre estilos arquitetônicos, conhece azulejistas, pintores, escultores, a história dos lugares. Ele escreve dando suas opiniões, contando incidentes, fazendo amizades pelo caminho. É uma pena que o livro não traga fotos! Se um dia for a Portugal, e sei que irei (leram isso meus queridos leitores portugueses?), levarei o livro comigo para que Saramago aponte para as coisas e faça com que eu preste atenção aos detalhes que, caso contrário, passariam despercebidos. 

Este é último parágrafo do livro:

“A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: ‘Não há mais que ver’, sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.”