30.4.12

Comidas e lugares - Ouro Preto - MG

Fachada de nossa pousada, o estacionamento fica um pouco afastado, mas é fechado e quem estiver na recepção leva e traz o carro, para estacionar temporariamente em frente é necessário parar sobre a calçada.

Ficamos hospedados em uma pequena pousada, a Laços de Minas, em uma rua bem estreita e tranquila. Os três últimos balcões da foto acima eram os do nosso quarto. Ele não era grande, mas era arrumadinho, com móveis de madeira maciça e um banheiro com chuveiro gostoso. Não havia ar ou ventilador, mas a temperatura da cidade é bem agradável, fazia até um friozinho pela manhã e à noite. Acho que o mais legal era poder abrir a janela e sentir que fazia parte da vida de Ouro Preto. As janelas da casa em frente ficavam abertas e às vezes via seus moradores jantando ou um rapaz estudando. Era sem querer, nada voyeur, bem entendido. Às 17h havia uma pequena "merenda" com algum bolo, café e uma garrafinha de cachaça. O café da manhã era simples, mas bom. No último dia a mesa estava mais fornida, talvez por haver mais hóspedes, talvez porque chegamos mais tarde e a copeira teve tempo de colocar tudo sobre a mesa. Sabe como é, somos do tipo "dormem cedo e comem cedo".

Mesa do café da manhã, o bolo de fubá era delicioso

 A única coisa um pouco incômoda era ter que subir ladeiras para jantar. Mas a cidade é bem tranquila e o rapaz da recepção, o Pacelli, disse que não havia problemas de segurança. Almoçamos duas vezes no restaurante Conto de Réis, recomendado por ele, uma vez no sitema de bufê e outra à la carte. Havia bastante variedade de pratos mineiros, todos bem honestos, mas ainda achei o temperinho da Venda do Chico melhor. No dia em que pedimos à la carte, o O. foi de tutu à mineira e eu comi uma porção de pastel de angu, um pastelzinho recheado com frango/carne e catupiry cuja massa é feita à base de farinha de milho. Muito bom, especialmente com uma pimentinha picante.

Jantamos uma vez no Bené da Flauta, ele serve uma comida meio mineira, meio italiana, tem um salão amplo e agradável. O. foi de "menina do sobrado", um prato que consiste em um purê de abóbora com cubos de carne de sol e uma travessinha de arroz puxado no alho. Eu fui de canja de galinha. (Sempre que posso, transformo uma entrada em prato principal). O. disse que o prato dele estava bom, mas sem mas. Eu gostei da canja apesar de ela não ser tão inocente, deveria ser puxada em torresmo ou ter um toque de bacon, pois senti um gostinho diferente.

O último jantar foi no O Passo, um misto de cantina/pizzaria que fica no segundo andar de um sobrado. Havia bastante gente. Ouvi dizer que as pizzas eram muito boas, mas O. foi de espaguete com molho de tomates e azeitonas e eu pedi uma porção de bruschettas com tomates cereja. O espaguete estava gostoso, bem feito, eu já não gostei das minhas bruschettas, elas eram temperadas com uma redução de vinagre balsâmico que estava meio ácida. Apenas tomates, sal e um bom azeite seriam suficientes. Bebemos mojitos, muito bons.


Balcão da cafeteria com lustre lindos

Um lugar onde gostávamos de parar era na cafeteria no térreo da Fiemig/Sesi em uma esquina da Praça Tiradentes. O lugar é muito agradável, há objetos de arte e artesanato à venda. O frapê de café estava ótimo e eles servem chás Gschwendner. Nunca fui à loja de SP e acabei provando os chás dessa marca em Ouro Preto, quem diria? Recomendo o gunpowder com óleo de hortelã.  

Também dentro da cafeteria



29.4.12

Algumas Igrejas de Ouro Preto

Igreja de São Francisco de Assis, a entrada custa R$ 2,00 e dá direito a entrar no Museu  Aleijadinho dentro da Igreja N. S. da Conceição

Ouro Preto é a mais famosa cidade histórica mineira e sua arquitetura atrai muita gente, especialmente aquela de suas igrejas. Paga-se uma taxa, entre R$ 2,00 e R$ 8,50, para ver o seu interior (fotos não são permitidas), não entrei em todas, algumas estavam fechadas. A impressão que tive foi a de que elas poderiam receber mais cuidados, manutenção e ter mais segurança. Algumas vezes eu era a única visitante e não havia niguém lá dentro, os corredores das sacristias ficam com as janelas abertas e, apesar de terem grades, nada impediria que alguém passasse algo por elas. Não vi câmeras (até onde tenha notado). Algumas vezes também sentia um leve odor de mofo e umidade. Achei uma pena, pelo número de turistas e pela arrecadação proporcionada pelas mineradoras presentes na cidade, deveria haver um investimento maior na manutenção das igrejas, as casas e as lojinhas do centro histórico estão mais bem conservadas e com a pintura em dia.

Igreja N. S.,do Rosário dos Pretos

Andei bastante, algumas ruas são bem íngremes e os paralelepípedos não facilitam a caminhada. Deixamos o carro na garagem da pousada e esquecemos que ele existia, pois não é simples navegar motorizado pela cidade. Ladeiras demais, ruas estreitas e de mão dupla não ajudavam.

Igreja N. S. do Carmo

 A Igreja de Nossa Senhora do Pilar (uma das únicas de que não tirei fotos) é a mais famosa pela grande quantidade de ouro em seu interior, ela foi uma das primeiras em que entrei, mas a minha preferida foi a Igreja de Santa Efigênia dos Pretos, lá no alto do morro na saída para Mariana. Ela é bem simples, mas achei seu altar uma graça. Havia apenas uma outra oriental saindo de lá naquele horário. Depois do ladeirão que conduz até ela, achei que minhas pernas não iam aguentar subir a escadaria. 

Igreja N. S. da Conceição


Uma coisa de que senti falta, tavez exista, mas não ouvi falar, é de algum tipo de visita guiada que percorresse algumas igrejas em horários determinados. Há muitos estudantes universitários na cidade e eles poderiam fazer isso para os turistas ou a prefeitura poderia oferecer esse tipo de coisa, algumas visitas poderiam ser realizadas em inglês ou espanhol. Há guias credenciados e várias pessoas que ficam na frente dos pontos turísticos oferecendo os seus serviços de guia por algum preço, mas acho que a versão gratuita seria uma adicão simpática.

Vista da Igreja de N.S. das Mercês e dos Perdões. Ela estava em reforma.

 
Igreja de Santa Efigênia dos Pretos, meu chuchu. Quase morri para chegar até lá e achei que desceria rolando a ladeira até a pousada.
Igreja de S. José, em reforma.
  
Igreja de São Francisco de Paula, fechada e no final de outra ladeira matadora.

Igreja N. S. da Mercês e Misericórdia, fechada.

28.4.12

Por terras mineiras

Vista da parte histórica de Ouro Preto
 A viagem para Minas surgiu do nada há duas semanas atrás. O. tinha que ir para Belo Horizonte e fez a proposta irrecusável de emendar a passagem pela capital mineira com dois dias em Ouro Preto. Fomos de carro, somando ida e volta, foram praticamente 16 horas na estrada. A Fernão Dias tem uma paisagem bonita, mas que se torna monótona depois de algum tempo. Ela é bem vazia se for comparada com várias estradas paulistas, mas há muitos caminhões e perdemos meia hora na ida e na volta por causa de acidentes provocados por eles. 

Enquanto via a paisagem correr de dentro do carro, imaginava um enredo para um filme que teria a estrada como cenário, algo no estilo de alguns filmes japoneses ou do Kiarostami que se passaria em uma daquelas vendinhas ou postos onde apenas algumas almas perdidas ou um andarilho param de vez em quando. Haveria um vendedor que passaria o tempo lendo e vendo a vida passar, uma criança, um filho trabalhando em uma capital e figuras pitorescas dos arredores. Enfim, um filme que pouca gente iria assistir, de "arte", bem lento.


Venda do Chico no sentido norte (SP-MG)

A melhor descoberta feita na Fernão Dias foi a Venda do Chico. Um restaurante/café que serve uma comida mineira de primeira. Pelo valor fixo de R$ 23,00, você pode escolher uma carne e ela chega à mesa com acompanhamentos, ou você pode fazer o que fizemos e pedir a versão com porções de vários pratos pelo mesmo preço: galinha ao molho pardo (delicioso), costelinha com mandioca (favorito do O.), linguiça e frango com quiabo (o que achei mais fraco, mas ainda gostoso). Achei a comida da Venda melhor do que a que provei em Ouro Preto. A lojinha vende queijos e outras quitandas mineiras. Se tiver que passar pela Fernão Dias, programe-se para almoçar por lá e não irá se arrepender. Há uma Venda do Chico dos dois lados da rodovia (km 743), mas achei a do sentido norte mais charmosa e arrumada.


Comida ótima e abundante, o difícil é não sentir sono depois

A parte mais lenta da viagem foi para chegar ao hotel já em Belo Horizonte. As avenidas da cidade estavam congestionadas. Não imaginava um trânsito tão pesado, mas ao menos não vi tantas motos nas ruas como em SP. Estava escurecendo, tive tempo de dar uma volta próximo do hotel em Savassi, um bairro bastante arborizado e agradável. Na manhã seguinte, peguei um táxi e fui até o Mercado Central. Dei várias voltas lá dentro e saí com alguns pacotinhos de biscoitos comprados por peso, quatro xícaras de café de ágata e um pilão em pedra sabão pesadérrimo, algo que sempre tive vontade de ter. Queria um bule de ágata, mas eles giravam em torno de R$ 90,00 e acabei ficando só com as xicrinhas de R$ 4,90. As lojas lá dentro vendem praticamente os mesmos produtos, mas os preços podem sofrer ligeiras variações, se tiver tempo, pesquise um pouco.

"Quitandas" mineiras, biscoitinhos comprados no Mercado Central. O vendedor foi me deixando provar os vários tipos

A viagem de volta, por sua vez, teve momentos emocionantes, como quando O. fez um retorno em um local proibido devido às indicações do GPS, que quase foi jogado pela janela de raiva, e alguns quilômetros rodados na reserva do tanque até que encontrássemos um posto de alguma bandeira conhecida que tivesse gasolina aditivada. Estava escuro, ameçava chover e já me via tendo que ligar para alguém vir nos rebocar até o posto mais próximo. Felizmente, encontramos um Frango Assado salvador.

Final de tarde em BH

A passagem por BH foi bem curta, mas, no geral, a cidade deixou uma boa impressão. Já Ouro Preto deixou minhas pernas doloridas. Comi muito doce, um pouco de pão de queijo e várias besteiras. Voltei com maus hábitos alimentares após alguns poucos dias em terras mineiras, mas valeu a pena.

***

Para finalizar uma canção italiana de um duo chamado "Musica Nuda", boa trilha sonora para a viagem, coisa fina que gostaria de compartilhar com vocês:





10.4.12

É a América! É a América! - Ochiai Nobuhiko

Outro livro do estilo "biografia inspiradora" de que os japoneses parecem gostar e que minha professora sempre me dá para ler (comento outros aqui e aqui). Este é escrito por Ochiai Nobuhiko, um rapaz que conseguiu uma bolsa para estudar nos Estados Unidos logo após terminar o colegial no início dos anos sessenta. O livro narra seus esforços para conseguir a bolsa e suas impressões sobre o país do tio Sam em um período em que ocorreram os assassinatos de John Kennedy e Martin Luther King e também a guerra do Vietnã.

Gostei mais da primeira parte, que se passa ainda no Japão. O pai de Nobuhiko abandonou a família para viver com outra mulher e a mãe teve que trabalhar como vendedora em uma barraquinha para manter a casa e os três filhos. O irmão mais velho de Nobuhiko trabalhava e estudava à noite, passou facilmente na Universidade de Tóquio, mas não pôde prosseguir os estudos porque precisava arrumar um emprego. Ele foi aprovado em várias etapas de um exame para entrar em uma empresa pública, mas reprovado no final. Sua mãe descobriu que ele foi desqualificado devido à sua situação familiar. Quando Nobuhiko viu aquilo, decidiu que não passaria pela mesma humilhação e decidiu que iria para os EUA. O surpreendente é o que ele fez para realizar seu objetivo. Como o irmão, ele trabalhava durante o dia, ajudava a mãe com a barraca, ia para o colégio à noite, voltava para casa e estudava até às três da manhã. Sua estratégia para aprender inglês era ir ao cinema no final de semana e decorar palavras de um dicionário.

Depois do colegial, ele prestou um exame na embaixada dos Estados Unidos e passou, conseguiu uma bolsa integral em uma faculdade do país. Como ele nã tinha dinheiro para a viagem, foi até o porto de Yokohama e procurou um navio que aceitasse levá-lo em troca de trabalho. E conseguiu. Ele embarcou em um navio que transportava passageiros para a América do Sul. O desembarque foi na costa oeste do país, mas a faculdade ficava do outro lado, na Pensilvânia, para onde ele foi pegando carona com caminhoneiros. A viagem durou cinco dias, ele dormia em estações e bebia coca-cola para encher a barriga, pois tinha poucos dólares para gastar.

Chegando à faculdade, sua vida melhorou bastante. Ele se dedicou aos estudos e sua habilidade em karatê tornou-o muito popular. Ao concluir seu curso de política internacional, ele fez dois anos de mestrado e foi convidado por um amigo a ser sócio em uma empresa de prospecção de petróleo. Depois de um ano no vermelho, a empresa começou a ter algum lucro ao obter concessões de poços em países latinos e africanos. Quando tudo parecia ir bem, o amigo é convocado para guerra do Vietnã e morre. Nobuhiko continuou mais algum tempo na empresa, trabalhando com o pai de seu amigo, mas aconselhou-o a vender o negócio pouco antes da crise do petróleo de 73. 

Nobuhiko voltou para o Japão após onze anos fora e começou a escrever matérias sobre política internacional, algo que faz até hoje. Uma história certamente edificante. Sua relação com o pai, de que gostava muito, apesar de ele não ser exatamente exemplar, também tem seus momentos divertidos.

Depois de ler três livros do mesmo estilo, posso dizer que eles são todos bem parecidos, enfatizam sempre o esforço pessoal, os encontros com pessoas que lhes abriram portas, a influência da família e há sempre alguma anedota para divertir o leitor. Eles são sempre positivos, leves. Acho meio receita de bolo, mas têm lá o seu lado curioso, como a vida de qualquer um, por mais banal que seja, sempre tem. Entretanto, não consigo deixar de pensar que, para cada história de sucesso, há inúmeros fracassos que não viraram livros. Esforço é importante, mas ter alguma sorte e conhecer as pessoas certas parecem ser elementos essenciais.

Acho que este é o último livro emprestado por minha professora que leio. Vou dar uma pausa (de duração indefinida) nas aulas de japonês, terminei o último livro de exercícios e acho que agora preciso aumentar o vocabulário e assistir mais à televisão para melhorar a escuta, falar é mais complicado, pois tenho poucas oportunidades de fazer isso.

Ainda tenho vários romances em japonês para ler em casa e pretendo escrever sobre eles no futuro.

21.3.12

Carne com cenouras


Cozido de carne bem simples. Prefiro fazer esse tipo de prato em uma panela comum (preferencialmente de fundo grosso) ao invés de usar a panela de pressão apesar de demorar um pouco mais. Refoguei cubos de coxão mole (pode ser outro corte) polvilhados com farinha de trigo (pouca coisa, para dar mais consistência o caldo final), alho e cebola em um pouco de óleo. Depois que a carne mudou de cor, adicionei o conteúdo de uma lata da cerveja mais vagabunda que encontrei no mercado. Deu para cobrir a carne de sobra. Coloquei uma folha de louro e um pouco de açúcar mascavo, cerca de uma ponta de colher de sopa. Deixei cozinhar em fogo baixo até que a carne começasse a ficar macia. Juntei cenouras cortadas em rodelas, temperei com sal e deixei tudo terminar de cozinhar e o caldo se reduzir. Não precisei adicionar água, mas caso seja necesário, faça-o.

19.3.12

Bacalhau com requeijão e creme de mandioca


Vi uma receita parecida em algum blog (se alguém souber de onde é, avise) e improvisei um prato com bacalhau. Não há medidas exatas, fiz um purê batendo mandioca cozida e ainda quentinha, leite e manteiga no processador. Consistência bem mole, para ficar cremoso mesmo depois de ir ao forno. Coloquei em um refratário e cobri com um refogado feito com bacalhau desfiado (demolhado, colocado em água quente, escorrido e desfiado), cebola, alho, salsinha, palmito picado, sal e pimenta a gosto. Depois de retirar do fogo, adicionei uma quantidade generosa de requeijão cremoso (pode ser catupiry ou outro queijo cremoso) e espalhei essa mistura sobre o purê no refratário. (Não fiz isso, mas, se quiser, finalize cobrindo com fatias de algum queijo firme que derreta). Levei para gratinar e servi com arroz e salada.

14.3.12

Universo paralelo ix

Fui a São Paulo no domingo. Peguei o metrô e desci para almoçar na Liberdade. Ia no Lamen Kazu, mas ele estava fechado para reformas ou algo do gênero. Havia fila na frente do Porque Sim. Andei um pouco até o Aska, deixei meu nome para comer no balcão mesmo, mas desisti quando vi o número de pessoas na minha frente. Atravessei a rua e comi novamente no Ebis. Estava com muita pressa. Felizmente o restaurante estava bem tranquilo. Acho que ele é mais frequentado por japoneses. 

Abri o menu que estava pendurado na parede para escolher algo quando o garçom trouxe folhetos com outras opções de pratos, enfiei o dedo no primeiro deles, era um katsudon, e pedi sem pensar muito. Ele estava gostoso, agridoce, o ovo sobre a milanesa de porco estava mais cozido do que em uma versão mais fiel, mas fiquei contente com isso, não gosto de ovos "melosos". Deixei apenas um pouco de arroz no fundo da tigela e o missoshiru que sempre acho que podia ser melhor. Sai após 15 minutos. Engoli a comida. O senhor do caixa disse o valor em japonês e perguntei qual a estação mais próxima também em japonês. Fiquei contente em ser capaz de fazer isso. Tinha horário. Saí correndo, meio que atropelando as pessoas que iam devagar na calçada. Liberdade cheia no domingo, asfixiante, especialmente perto da entrada do metrô. 

Descobri que ainda há coisas em São Paulo de que gosto. Por exemplo, gosto do mêtro no começo da noite de domingo. Ou no começo da manhã do mesmo dia. As luzes sonolentas, as pessoas na plataforma das estações mais vazias. Também gosto de observar a cidade do alto de um prédio, as ruas despovoadas e escuras. Tão despovoadas e escuras que me fizeram correr os 200 metros rasos em um trecho até a casa da minha sogra, onde fui recebida com uma taça de manhattan. Achei forte, mas estava bom. Só não consegui dormir direito. Primeiro, era uma cama estranha; segundo, a cidade é muito barulhenta. Acordei várias vezes.

No dia seguinte, café, metrô, ônibus e retorno ao lar. Foi uma boa quebra de rotina, mas São Paulo me deixa sempre com várias impressões contraditórias.


12.3.12

Dentro do ônibus xvii

Tomar o ônibus com alguma regularidade e em horários determinados faz com que nos habituemos a ver alguns rostos e a pensar no que poderia ter acontecido quando notamos a falta de um deles. Sempre tomo o ônibus dentro da universidade às sextas para ir às aulas de japonês. Há um rapaz que sobe no meio do caminho para ir ao trabalho carregando um guarda-chuva comprido e preto. Acho curioso, pois homens não gostam muito de carregar coisas. Quando a manhã é mais fresca, ele chega enfiado em um cachecol até as orelhas. Em meu ócio, já o diagnostiquei com alguns hábitos obsessivos e uma certa hipocondria.

E há essa garota que espera o ônibus no mesmo ponto que eu. O ponto está sempre cheio, mas ela se destaca. Não que seja particularmente bonita, mas ela é graciosa, com uma postura de bailarina, e suas roupas têm sempre um caimento perfeito. Sexta-feira é o dia em que os alunos voltam para a casa dos pais e ela carrega uma pequena mala. Imagino que seja caloura, safra 2012.

Na última semana, presenciei o encontro do rapaz do guarda-chuva e da garota da mala. Ela se sentou na parte da frente, antes da catraca, e ele subiu com um copo de plástico cheio de café, um pacote com algum salgado, o guarda-chuva e uma mochila. Não prestei atenção ao início da conversa, ele tinha se sentado em outro banco, mas os dois já estavam lado a lado no meio do caminho. 

Ele é grande e meio desajeitado; ela é mignon e delicada. Uma combinação divertida. De alguma forma, achei aquele encontro comovente. Ser jovem e se interessar por alguém, entendem? Isso é algo especial, a gente só se dá conta dessas coisas muito tarde, quando encontros fortuitos não parecem mais mágicos.

Fiquei me sentindo uma daquelas tias casamenteiras, ou alcoviteiras. Vai ver que os dois já se esqueceram um do outro enquanto escrevo sobre eles. Mas o rapaz ficou conversando até chegar ao seu ponto e desceu pela porta da frente.


9.3.12

Bisnaguinhas integrais


Finalmente uma receita neste blog. Da saudosa Laurinha reinterpretada pela Akemi. Os pãezinhos ficaram muito bons. Usei menos fermento (quase a metade da quantidade pedida) e acabei colocando tudo na máquina para que ela misturasse e fizesse a sova, pois estava meio atarefada no dia. Deixo a receita com as ótimas instruções para o preparo à mão passadas pela Akemi. 

Como sempre, minha falta de jeito para moldar pães é bem visível. rs



Bisnaguinhas integrais

280g de farinha de trigo (2 xícaras)
170g de farinha de trigo integral (1 xícara+2 colheres de sopa)
25g de açúcar refinado (2 colheres de sopa)
25g de açúcar mascavo peneirado (2 colheres de sopa)
10g de fermento seco para pão (1 colher de sopa)
1 ovo extra
240ml de leite morno (1 xícara)
1 colher (chá) de sal
60g de manteiga amolecida (4 colheres de sopa)


Misture as duas farinhas e divida em duas partes. Numa coloque o sal e a manteiga. Na outra, coloque o fermento, os açúcares, o ovo batido e o leite morno. Misture tudo com colher de pau até formar uma massa viscosa que levante bolhas. Conforme a farinha, pode ser necessário mais ou menos leite. Não pode ser nem muito dura nem líquida. Adicione a vasilha com o restante dos ingredientes e misture com cuidado no início. Quando toda a farinha for incorporada, despeje na mesa e sove até formar uma massa lisa e homogênea. A massa é bem boa de trabalhar, não gruda nas mãos mas mesmo assim sove pelo menos uns 10 minutos. Forme uma bola, coloque de volta na vasilha e cubra com filme plástico. Deixe descansar até dobrar de volume (uns 40 minutos).

Dê alguns socos na superfície da massa para tirar o gás acumulado e tire da vasilha. Divida em porções pequenas e modele em bolinhas. Cubra com um pano de prato molhado e bem torcido e deixe descansar 10 minutinhos. Modele em bolinhas novamente e vá dispondo em assadeira untada e enfarinhada. Cubra com filme plástico bem frouxo (cobri apenas com um pano de prato limpo) e deixe fermentar mais 30 minutos ou até dobrarem de tamanho. Leve para assar em forno preaquecido a 200˚C por cerca de 30 a 35 minutos ou até dourarem levemente.


23.2.12

Procurar o quê? - Carlos Drummond de Andrade



Ganhei a coleção de presente. Gosto muito de coletâneas de poemas, agora tenho quase todos os meus favoritos em versão completa: Pessoa, Bandeira, Quintana, Emily Dickinson e Drummond. Fica faltando o Bukowski por quem me apaixonei recentemente.

Não conhecia este poema:


Procurar o quê?

O que a gente procura muito e sempre não é isto nem aquilo. É outra coisa.
Se me perguntam que coisa é essa, não respondo, porque não é da conta de ninguém o que estou procurando.
Mesmo que quisesse responder, eu não podia. Não sei o que procuro. Deve ser por isso mesmo que procuro.
Me chamam de bobo porque vivo olhando aqui e ali, nos ninhos, nos caramujos, nas panelas, nas folhas de bananeiras, nas gretas do muro, nos espaços vazios.
Até agora não encontrei nada. Ou encontrei coisas que não eram a coisa procurada sem saber, e desejada.
Meu irmão diz que não tenho mesmo jeito, porque não sinto o prazer dos outros na água do açude, na comida, na manja, e procuro inventar um prazer que ninguém sentiu ainda.
Ele tem experiência de mato e de cidade, sabe explorar os mundos, as horas. Eu tropeço no possível, e não desisto de fazer a descoberta do que tem dentro da casca do impossível.
Um dia descubro. Vai ser fácil, existente, de pegar na mão e sentir. Não sei o que é. Não imagino forma, cor, tamanho. Nesse dia vou rir de todos.
Ou não. A coisa que me espera, não poderei mostrar a ninguém. Há de ser invisível para todo mundo, menos para mim, que de tanto procurar fiquei com merecimento de achar e direito de esconder.