Santiago. Três dias, sete vinícolas. Pode-se dizer que foi uma viagem etílica. Tirei o último dia para andar pela cidade e senti-la. Quase todas as fotos que estão aqui foram tiradas então. Para mim, Buenos Aires tem um charme decadente. Em Santiago, experimentei algo como uma gravidade melancólica. Um pouco triste até, mas pode ser efeito do tempo que mudava de uma hora para outra. Chegamos com calor, depois amanheceu chuviscando e fazia frio, nublava, o sol aparecia de vez em quando, nublava, fazia frio.
A cidade tem um quê de São Paulo pré-boom imobiliário, explosão demográfica e colapso dos transportes, mas os preços são parecidos com os da São Paulo atual. Achei apenas os vinhos mais baratos. As pessoas são atenciosas, os serviços funcionam bem. A cidade fica em um vale vigiado de perto pelos Andes e cercado pela serra da costa do outro lado. A pronúncia do espanhol é mais próxima daquela que aprendi em algumas aulas há milhares de anos atrás.
Chegamos após um longo feriado nacional, as fiestas patrias. Por isso, era comum ver bandeiras hasteadas pelos quarteirões.
Subi o Cerro Santa Lucia para tirar fotos panorâmicas, mas acabei me encantando pelas esculturas. Tendência que se manteve quando passei pelo Museu Nacional de Bellas Artes, com esculturas muito bonitas no hall de entrada.
Vi muitos cães perambulando pelas ruas, pareciam vira-latas, mas eram gordos e enormes, bonitões mesmo.
O casal abaixo parecia tão feliz que não resisti ao impulso de tirar uma foto de longe.
No caminho entre o Museu Nacional de Bellas Artes e o Museu de Arte Contemporanea, que ocupam praticamente o mesmo prédio mas têm entradas distintas, uma na frente e a outra atrás, vi o poste abaixo, tirei uma foto, mas fiquei em dúvida sobre o que seria. Uma obra de "arte", uma espécie de lembrança?
Famílias, casais e cães no gramado em frente ao MAC. Dentro do museu, havia uma pequena exposição de fotografias de um cineasta chileno chamado Andrés Racz, era coisa pouca, mas gostei bastante. Ele faleceu no ano passado, mas descobri que ele escrevia um blog até 2007, pretendo passar algum tempo por lá.
O Centro Gabriela Mistral (GAM) ficava perto do hotel. Há exposições e espaços para apresentação de peças de teatro e filmes. Dei só uma volta, ele ocupa um prédio enorme e envidraçado, vários grupos de adolescentes ensaiavam coreografias na sua frente.
De todas as imagens que trouxe de Santiago, acho que uma de que não me esquecerei aconteceu no último dia. Fomos almoçar (sempre comemos perto do hotel), como tinha dividido uma entrada com o O. e tomei só uma sopa, resolvi parar no Emporio la Rosa para tomar um sorvete. Comprei o menor copinho e escolhi uma massa de doce de leite, tomei algumas colheradas, mas não achei tão bom e acabei jogando o que sobrou dentro de um dos grandes latões que a prefeitura deixa na calçada para que todos coloquem seu lixo. Subimos até o quarto, as camareiras estavam lá dentro e ficamos no terraço esperando que elas terminassem a limpeza. Quando olhei para baixo, vi um homem ao lado do latão de lixo calmamente tomando o resto do sorvete que eu havia jogado fora há poucos minutos. Foi uma sensação esquisita. Ele conversava com o pessoal da companhia de águas e esgotos local e parecia feliz da vida.
Na última refeição, pedi um pisco sour, só para saber que gosto teria o drink nacional. Não achei nada demais, peço perdão aos chilenos, mas achei que lembra uma margarita mais encorpada, talvez devido à clara de ovo.
Voltei cansada. Pela primeira vez nossa mala foi aberta na volta, estava sem cadeado, provavelmente ele foi quebrado, pois disseram que o Chile não usa a chave-mestra para cadeados TSA, mas não dei pela falta de nada. Bem, a única coisa de valor lá dentro era um aerador portátil para vinhos comprado pelo O., eu trouxe apenas duas caixas de chá feito com rooibos compradas no supermercado.
Ainda estou na fase da digestão das coisas vistas. Comecei pelo fim, nos próximos dias, volto ao começo.
***
PS.
Encontrei este poema de Nicanor Parra, irmão de Violeta Parra, no blog do cineasta Andrés Racz mencionado acima, não conhecia nem o poeta, nem o poema, mas ele é muito bonito:
Ultimo brindis
Lo queramos o no
sólo tenemos tres alternativas:
el ayer, el presente y el mañana.
Y ni siquiera tres
porque como dice el filósofo
el ayer es ayer
nos pertenece sólo en el recuerdo:
a la rosa que ya se deshojó
no se le puede sacar otro pétalo.
Las cartas por jugar
son solamente dos:
el presente y el día de mañana.
Y ni siquiera dos
porque es un hecho bien establecido
que el presente no existe
sino en la medida en que se hace pasado
y ya pasó...
como la juventud.
En resumidas cuentas
sólo nos va quedando el mañana:
yo levanto mi copa
por ese día que no llega nunca
pero que es lo único
de lo que realmente disponemos.
Nicanor Parra





































