2.10.12

Santiago - Chile


Santiago. Três dias, sete vinícolas. Pode-se dizer que foi uma viagem etílica. Tirei o último dia para andar pela cidade e senti-la. Quase todas as fotos que estão aqui foram tiradas então. Para mim, Buenos Aires tem um charme decadente. Em Santiago, experimentei algo como uma gravidade melancólica. Um pouco triste até, mas pode ser efeito do tempo que mudava de uma hora para outra. Chegamos com calor, depois amanheceu chuviscando e fazia frio, nublava, o sol aparecia de vez em quando, nublava, fazia frio.

A cidade tem um quê de São Paulo pré-boom imobiliário, explosão demográfica e colapso dos transportes, mas os preços são parecidos com os da São Paulo atual. Achei apenas os vinhos mais baratos. As pessoas são atenciosas, os serviços funcionam bem. A cidade fica em um vale vigiado de perto pelos Andes e cercado pela serra da costa do outro lado. A pronúncia do espanhol é mais próxima daquela que aprendi em algumas aulas há milhares de anos atrás.


Chegamos após um longo feriado nacional, as fiestas patrias. Por isso, era comum ver bandeiras hasteadas pelos quarteirões.


Subi o Cerro Santa Lucia para tirar fotos panorâmicas, mas acabei me encantando pelas esculturas. Tendência que se manteve quando passei pelo Museu Nacional de Bellas Artes, com esculturas muito bonitas no hall de entrada.


Vi muitos cães perambulando pelas ruas, pareciam vira-latas, mas eram gordos e enormes, bonitões mesmo.


O casal abaixo parecia tão feliz que não resisti ao impulso de tirar uma foto de longe.








No caminho entre o Museu Nacional de Bellas Artes e o Museu de Arte Contemporanea, que ocupam praticamente o mesmo prédio mas têm entradas distintas, uma na frente e a outra atrás, vi o poste abaixo, tirei uma foto, mas fiquei em dúvida sobre o que seria. Uma obra de "arte", uma espécie de lembrança?


Famílias, casais e cães no gramado em frente ao MAC. Dentro do museu, havia uma pequena exposição de fotografias de um cineasta chileno chamado Andrés Racz, era coisa pouca, mas gostei bastante. Ele faleceu no ano passado, mas descobri que ele escrevia um blog até 2007, pretendo passar algum tempo por lá.


O Centro Gabriela Mistral (GAM) ficava perto do hotel. Há exposições e espaços para apresentação de peças de teatro e filmes. Dei só uma volta, ele ocupa um prédio enorme e envidraçado, vários grupos de adolescentes ensaiavam coreografias na sua frente.




De todas as imagens que trouxe de Santiago, acho que uma de que não me esquecerei aconteceu no último dia. Fomos almoçar (sempre comemos perto do hotel), como tinha dividido uma entrada com o O. e tomei só uma sopa, resolvi parar no Emporio la Rosa para tomar um sorvete. Comprei o menor copinho e escolhi uma massa de doce de leite, tomei algumas colheradas, mas não achei tão bom e acabei jogando o que sobrou dentro de um dos grandes latões que a prefeitura deixa na calçada para que todos coloquem seu lixo. Subimos até o quarto, as camareiras estavam lá dentro e ficamos no terraço esperando que elas terminassem a limpeza. Quando olhei para baixo, vi um homem ao lado do latão de lixo calmamente tomando o resto do sorvete que eu havia jogado fora há poucos minutos. Foi uma sensação esquisita. Ele conversava com o pessoal da companhia de águas e esgotos local e parecia feliz da vida.


Na última refeição, pedi um pisco sour, só para saber que gosto teria o drink nacional. Não achei nada demais, peço perdão aos chilenos, mas achei que lembra uma margarita mais encorpada, talvez devido à clara de ovo.


Voltei cansada. Pela primeira vez nossa mala foi aberta na volta, estava sem cadeado, provavelmente ele foi quebrado, pois disseram que o Chile não usa a chave-mestra para cadeados TSA, mas não dei pela falta de nada. Bem, a única coisa de valor lá dentro era um aerador portátil para vinhos comprado pelo O., eu trouxe apenas duas caixas de chá feito com rooibos compradas no supermercado.

Ainda estou na fase da digestão das coisas vistas. Comecei pelo fim, nos próximos dias, volto ao começo.


***


PS.

Encontrei este poema de Nicanor Parra, irmão de Violeta Parra, no blog do cineasta Andrés Racz mencionado acima, não conhecia nem o poeta, nem o poema, mas ele é muito bonito:


Ultimo brindis

Lo queramos o no
sólo tenemos tres alternativas:
el ayer, el presente y el mañana.

Y ni siquiera tres
porque como dice el filósofo
el ayer es ayer
nos pertenece sólo en el recuerdo:
a la rosa que ya se deshojó
no se le puede sacar otro pétalo.

Las cartas por jugar
son solamente dos:
el presente y el día de mañana.

Y ni siquiera dos
porque es un hecho bien establecido
que el presente no existe
sino en la medida en que se hace pasado
y ya pasó...
como la juventud.

En resumidas cuentas
sólo nos va quedando el mañana:
yo levanto mi copa
por ese día que no llega nunca
pero que es lo único
de lo que realmente disponemos.

Nicanor Parra


22.9.12

Blood, Bones and Butter - Gabrielle Hamilton

 
Acabei de ler Blood, Bones and Butter, a autobiografia da chef Gabrielle Hamilton, proprietária de um restaurante badalado em New York, o Prune. Ela começa descrevendo as festas nas quais seu pai assava carneiros inteiros sobre brasas durante longas horas e os pratos que sua mãe, de origem francesa, preparava em sua infância. Mas o livro não é exatamente sobre comida, é sobre sua formação, sobre os caminhos que percorreu e forjaram seu caráter. 

Seus pais se separam quando ela tem treze anos, cada um vai para um lado e ela e um dos irmãos mais novos se veem sozinhos. Ela passa por um período de deliquência, comete pequenos furtos, fuma, bebe e cheira carreiras de cocaína enquanto trabalha em vários restaurantes para se manter, faz de tudo um pouco: de garçonete à ajudante de cozinha.

O livro é meio lacônico em alguns pontos e Gabrielle escreve apenas sobre os momentos que considera relevantes sem dar explicações sobre porquês ou comos, sabemos que depois de uma adolescência difícil e um longo período de busca pessoal com direito a uma mochilagem quase sem dinheiro pela Europa e Ásia, ela passa uns dez anos trabalhando como freelancer em bufês que fornecem comida para festas e eventos até que se cansa dessa vida e decide fazer um curso de escrita criativa em uma universidade. Após ser admitida, ela logo percebe que a vida de "intelectual" não a satisfaz e que se identifica mais com o trabalho concreto, metódico e duro em uma cozinha. 

Ela decide abrir um restaurante depois que um conhecido lhe mostra um imóvel para alugar, assim, em um gesto impulsivo, imaginando os pratos que desejaria servir e que refletiriam suas experiências gustativas. "Prune" acaba sendo um sucesso. 

O livro segue ainda um pouco além da abertura do restaurante, Gabrielle descreve seu casamento sem amor e pouco gratificante com um médico italiano com quem tem dois filhos. Suas viagens anuais para ver a família do marido na Itália são os pontos altos do relacionamento que já está em frangalhos quando o livro termina.

Gabrielle não esconde seus ressentimentos, suas frustrações e seu temperamento difícil, mas ela é uma pessoa objetiva, direta e competente. Alguns leitores comentaram que, após o livro, respeitavam a Chef, mas não conseguiam respeitar a mulher que o escreveu, acho esse tipo de comentário injusto. Ela pode soar presunçosa, mas não doura nenhuma pílula ou tenta parecer adorável.

Eu me identifiquei com o fato de ela sentir aversão por frescuras culinárias. Concordo que mais do que falar sobre comida, devemos nos sentar e comê-la sem a necessidade de erguer alguma bandeira ou usá-la como uma forma de autoafirmação, basta que seja bem feita e os ingredientes, de boa qualidade.

O livro virou um best seller. Li em inglês, mas há tradução para o português.

20.9.12

Batatas e berinjelas

Um resto de arroz integral congelado requentado no micro-ondas, feijão fradinho cozido com cenouras, tomates, cebolas, alho e louro e, como acompanhamentos, batatas ao murro e berinjelas com um molho agridoce. Se tivesse que descrever a comida que ando preparando nos últimos dias, diria que ela é bem "roots". 



Batatas ao murro: cozidas inteiras, amassadas com as palmas das mãos sobre um refratário e temperadas com o que tiver vontade. Usei sal, pimenta e azeite. Misturei com as mãos e levei ao forno, deixei dourar de um lado e depois virei. 


As berinjelas surgiram do cruzamento da invencionice com a preguiça. Fiz um molho misturando vinagre balsâmico, açúcar demerara, shoyu, mirin, missô e óleo. Usei pouco missô, pois ele é que dá o salgado, ficou bem agridoce mesmo. Envolvi algumas fatias de berinjela com essa mistura e levei ao forno, retirei quando ficaram macias. Achei ok, um acompanhamento simples.


O volume diminuiu bastante após o forno.


Pela manhã, sovei uma massa semi-integral e deixei crescendo para uma pizza noturna. A comida em casa está acabando e pizza é um recurso para usar tudo o que tiver disponível para preparar uma refeição.


13.9.12

Pão da semana

A receita é sempre uma variação da minha favorita, geralmente diminuo as quantidades, adiciono grãos, castanhas, substituo alguma farinha por aquela que tiver sobrando (ou vencendo). Desta vez, acabei com um potinho de gergelim. 

Tenho feito pães a mão e estou feliz com o resultado. Sempre começo misturando o açúcar com a água morna e o fermento, que emprego em uma quantidade bem pequena, espero o fermento espumar e junto os demais ingredientes, depois deixo a massa crescer com calma, pelo menos durante metade do dia.




26.8.12

Bolo de creme azedo e geleia



Receita do Technicolor Kitchen que passou por várias cozinhas e que vi no Simples Assim. É um bolo realmente gostoso e versátil. Usei geleia de figos no lugar da geleia de cassis da receita original e por isso a cor não se destacou muito. Reduzi a manteiga à metade e achei que a massa continuou úmida e gostosa. Também tinha apenas metade da quantidade de creme de leite para preparar o creme azedo (*), completei o que faltou com leite, digamos que virou uma versão "light" do bolo.




Bolo de creme azedo e geleia


- xícara medidora de 240ml

Ingredientes:
2 xícaras (280g) de farinha de trigo
1 colher (sopa) de fermento em pó
½ colher (chá) de sal
1 xícara (226g) de manteiga sem sal, amolecida (usei metade)
1 ½ xícaras (300g) de açúcar cristal
2 ovos grandes, temperatura ambiente
1 xícara de creme azedo (sour cream)*
1 colher (sopa) de extrato de baunilha
3/4 xícara de geleia de sua preferência ( usei de figo)
açúcar de confeiteiro, para polvilhar (não tinha)



Pré-aqueça o forno a 180°C. Unte com manteiga e enfarinhe uma forma de furo central canelada (do tipo Bundt) de 25cm de diâmetro. (Usei uma forma para bolo inglês).

Em uma tigela média, misture a farinha, o fermento e o sal com um batedor de arame. Reserve.
Na tigela grande da batedeira, bata a manteiga até ficar cremosa.

Junte o açúcar e bata até obter um creme claro e fofo. Junte os ovos, um a um, batendo bem a cada adição e raspando as laterais da tigela com uma espátula. Acrescente o creme azedo e a baunilha. Em velocidade baixa, junte os ingredientes secos e bata apenas até incorporar – a massa é bem espessa.

Separe ½ xícara de massa e espalhe o restante na forma. Com as costas de uma colher, faça uma espécie de calha no centro da massa, por toda sua extensão. Misture a geleia à 1/2 xícara de massa reservada e coloque a mistura dentro da “calha”.

Asse o bolo por cerca de 1 hora ou até que cresça e doure e as laterais se soltem da forma (faça o teste do palito). Deixe esfriar na forma,sobre uma gradinha, por 15 minutos, e então inverta sobre a gradinha e deixe esfriar completamente.

Polvilhe com açúcar de confeiteiro e sirva.



Patrícia ensina a fazer o creme azedo:

(*) creme azedo (sour cream) caseiro: para preparar 1 xícara de creme azedo, misture 1 xícara (240ml) de creme de leite fresco com 2-3 colheres (chá) de suco de limão ou limão siciliano em uma tigela. Vá mexendo até que comece a engrossar. Cubra com filme plástico e deixe em temperatura ambiente por 1 hora ou até que engrosse um pouco mais.

15.8.12

Frango assado com mostarda e mel


Receita da Elise, muito boa. Ela escreve que é melhor assar o frango com a pele para que a carne não resseque, isso é verdadeiro, mas achei que havia muita gordura no molho ao final, não estou mais acostumada a assar frango com pele.

Como acompanhamento, refoguei um pouco de couscous com cenoura ralada, alho e shimeji picado.



Frango assado com mostarda e mel


1/4 a 1/3 x de mostarada tipo Dijon
1/4 a 1/3 x de mel
1  c sopa de azeite de oliva
cerca de 1,3 kg de coxas ou sobrecoxas
sal a gosto
2 galhos de alecrim fresco (ou uma pitada generosa de folhas secas)
pimenta do reino moída na hora

Preaqueça o forno a 180C. Misture a mostarda com o azeite em um recipiente. Tempere com um pouco de sal e prove, corrija até que esteja a seu gosto.

Tempere o frango com um pouco de sal e coloque os pedaços com a pele para cima em um refratário. Distribua a mistura de mel e mostarda sobre eles e coloque os ramos de alecrim. 

Asse por cerca de 45 minutos ou até que ao picar a carne com um garfo, o caldo saia claro. Retire do forno e tire o excesso de gordura com uma colher. (Asse com a pele para evitar que a carne resseque e fique mais suculenta).

Polvilhe com pimenta moída na hora antes de servir. 

13.8.12

Pão semi-integral com linhaça


Bem, há pão mesmo sem panificadora afinal de contas. Tenho me virado sem ela (para quem não se lembra, minha panificadora pifou). Usei esta receita, achei bem simples e prática. Substituí uma xícara de farinha normal por integral e adicionei um pouco de sementes de linhaça.



Pão semi-integral com linhaça

3 x de farinha (substituí uma xícara por farinha integral)
1/2 x de leite
1/2 ou 1/3 x de água quente (o suficiente para obter uma massa fácil de manusear, usei 1/2 x)
4 c sopa de manteiga derretida (50 g), ou margarina ou óleo (usei azeite)
2 c sopa de açúcar
1 1/4 c chá de sal (usei menos)
2 c chá de fermento biológico instantâneo seco

Misture o leite frio com a água quente para obter uma mistura morna.
Coloque todos os ingredientes em um recipiente grande e misture até que a massa comece a se desprender dos lados do recipiente. (Eu misturei primeiro o fermento na mistura líquida morna junto com o açúcar e deixei descansar uns 5 minutos antes de adicionar os demais ingredientes). Transfira para uma superfície ligeiramente untada com óleo, unte também as mãos e sove a massa por cerca de 6-8 minutos, ou até que ela fique macia e elástica. Coloque a massa em um recipiente levemente untado com óleo, cubra com um pano de prato e deixe crescer por cerca de 1-2 horas dependendo da temperatura ambiente. 

Molde o pão sobre uma superfície untada com óleo, coloque-o em uma forma para bolo inglês. Cubra a forma com filme plástico (não é necessário firmá-lo) levemente untado com óleo e deixe crescer por cerca de 1 hora, ou até que a massa suba um pouco acima da borda da forma. (Eu cobri apenas com um pano de prato).

Asse por 30-35 minutos, ou até dourar.  



6.8.12

Passeio rápido - Campos do Jordão


Foi um convite gentil da minha sogra. Chegamos no final da tarde de sexta e saímos domingo pela manhã logo após o café para não pegarmos trânsito. Apesar de ouvir muito falar, não conhecia a cidade. O hotel ficava em um local bastante agradável e tranquilo um pouco afastado do centro.  


Descemos uma vez para ir até a Baden Baden e depois para tomar um chá, coisa rápida. Era final de semana e havia muita gente nas ruas, bares e lojas, a cidade parecia um shopping a céu aberto. Achei ótimo ter pensão completa para não ter que procurar um lugar para comer à noite.


Gostei bastante da atmosfera do hotel, muito verde, muitas flores. Nossas vizinhas de quarto falavam alto e ouvíamos tudo (esse parece ser um mal que nos persegue), mas tirando as paredes finas, quando todos estavam dormindo, o silêncio era completo.


Foi bom. Pude sair da rotina. Se tivesse mais tempo e estivesse no meio da semana, gostaria de dar voltas pelos arredores para visitar algumas atrações.

(Com exceção das últimas fotos, as demais foram todas tiradas no hotel).



6.7.12

A estudante e Good bye de Osamu Dazai


Continuo fascinada pelos textos de Osamu Dazai, ele tem um japonês até simples, mas com uma fluência narrativa e descrições muito comoventes. Li Haruki Murakami em japonês e achei que os tradutores dele para o inglês são muito fiéis ao seu estilo "cool" de escrever, o que é natural, pois uma vez li que ele tem uma relação muito próxima com seus editores nessa língua. No entanto, tenho um pouco de medo de ler as traduções dos livros de Dazai, li duas em inglês antes de começar a me dedicar aos textos originais, mas foi depois do japonês que realmente fui fisgada por seu estilo. (Mas devo confessar que os tradutores para o inglês costumam ser excelentes).

"A estudante" (女生徒) e "Good Bye" ( グッド バイ) podem ser chamados de contos longos ou romances curtos. No primeiro texto, acompanhamos um dia na vida de uma adolescente. Ficamos sabendo que seu pai morreu recentemente e que ela sente sua falta, que sua irmã mais velha se casou e foi morar em uma província afastada e também que ela se acha estranha, esquisita, mal-comportada e acredita que desaponta a sua mãe por isso. Como ocorre com qualquer adolescente, seus sentimentos vão de um extremo a outro em questão de minutos. Uma hora ela está contente e logo depois fica com vontade de chorar e ferir alguém. Texto ágil, simples e bonito sobre a adolescência.

Brinquei de traduzir o começo:

"Manhã. A sensação que tenho ao abrir os olhos é curiosa. Como quando brinco de esconde-esconde e fico agachada em completo silêncio dentro do guarda-roupa escuro, de repente, Deko abre totalmente a divisória, os raios de sol entram abruptamente e ela grita "Achei!". A luminosidade, um mal-estar momentâneo, a palpitação no peito, ajeito a frente do quimono e saio do guarda-roupa um pouco embaraçada, de repente, fico irritada, nervosa. É essa sensação. Não, não é essa sensação, é mais intolerável. Como quando se abre uma caixa e há uma outra caixa menor em seu interior e quando esta é aberta, ainda há outra caixa menor ali dentro, essa caixa então é aberta e descobre-se mais uma caixa, e outra, e outra, e mais outra. Então, após abrir sete, oito caixas, finalmente há uma caixa do tamanho de um dado e quando ela é cuidadosamente aberta, não há nada ali dentro, vazia. É essa sensação, ou algo bem próximo. Abrir os olhos e estar completamente desperta, isso é mentira. Turvo, o amido lentamente desce e se deposita no fundo, aos poucos ocorre a decantação e meus olhos cansados se abrem. A manhã é, de certa forma, falsa. Muitas, muitas coisas tristes pairam em meu peito, é insuportável. Odeio isso. Odeio isso. Sou horrorosa de manhã. Minhas pernas estão exaustas e já não sinto vontade de fazer mais nada. Pode ser porque não durmo direito. Dizer que a manhã é saudável, isso é mentira. A manhã é cinza. Sempre, sempre a mesma. A parte do dia mais vazia. Sempre sou pessimista de manhã enquanto estou debaixo das cobertas. É detestável. Vários arrependimentos horríveis se amontoam de uma só vez, apertam meu peito e acabo me contorcendo".

"Good bye" é uma obra incompleta, infelizmente, pois começa de forma muito interessante. Um homem na casa dos trinta anos decide mudar de vida, chamar esposa e filha para viverem com ele em Tóquio, parar de trabalhar com contrabando e ser uma pessoa correta, mas, para isso, primeiro deve dar um jeito de terminar o relacionamento que mantém com várias mulheres. Um conhecido sugere que ele encontre uma mulher estonteamente bonita e desfile com ela diante de suas amantes para que elas cheguem à conclusão de que não têm nenhuma chance com ele. Seu grande problema é encontrar a mulher ideal para desempenhar esse papel. Ele a procura em todos os lugares possíveis sem sucesso, está quase desistindo quando ouve alguém com uma voz de corvo gritar seu nome. É uma mulher que também trabalha no mercado negro. Ele sempre a achou extremamente vulgar e mal-vestida. No entanto, naquela noite ela usava roupas ocidentais e estava belíssima. Era a mulher que procurava. Ele explica sua situação e diz que está disposto a pagar para que ela o acompanhe em suas visitas às amantes. Ela aceita a proposta. Ele estabelece duas condições: que ela se mantenha calada nessas ocasiões e não coma nada, pois sua voz e seus modos à mesa são terríveis. Seu plano é um sucesso, mas sua "beldade" sempre dá um jeito de gastar seu dinheiro e de irritá-lo, ele a acha tão insuportável que passa a nutrir um grande rancor por ela. Sua ideia é dar-lhe uma lição, humilhá-la. O texto acaba aí com a morte de Dazai.

5.7.12

Salada de batata, rabanete e pepino


Receita inspirada nesta aqui. Gostei da combinação das batatas com o crocante do rabanete e dos pepinos. 

Cozinhe algumas batatas inteiras em água e sal até que fiquem macias. Escorra, descasque ainda quentes, corte em fatias.

Faça um molho refogando um pouco de cebola picada em um pouco de óleo, retire do fogo, adicione mostarda (usei em grãos), um pouco de açúcar, vinagre, sal, pimenta e azeite, tudo a gosto (eu prefiro algo mais agridoce). Derrame esse molho sobre as batatas quentes. Deixe descansar por cerca de uma hora. Pouco antes de servir, adicione pepinos (previamente fatiados, temperados com sal, deixados para escorrer sobre uma peneira e espremidos para retirar o excesso de líquido), rabanetes fatiados e cebolinha picada. Corrija o tempero caso necessário e sirva.