31.5.10

Dentro do ônibus III

Nenhum ônibus me preparou para aquele que teria que encarar depois de vir habitar o castelo (?) de meu príncipe encantado. Ele passa por aqui quatro vezes por dia em horários esquisitíssimos. Primeiro ouço seu som longíquo, depois vejo o pó que sua carroceria levanta e, finalmente, ele surge na curva da estrada.

Nos bons tempos eu levava um lenço para limpar os bancos cobertos de poeira, mas hoje em dia eu me limito a usar uma roupa que possa sujar sem dramas. Ele transforma os 8km que me separam da civilização em uma hora de viagem. Uma hora sacolejando por várias estradas de terra, percorrendo fazendas, atravessando canaviais, bambuzais, engolindo poeira vermelha.

Eis o elo vital que liga a área rural a aquilo que poderia ser chamado de minha cidade, mas que eu considero apenas um ponto de passagem para algum outro lugar, um outro lugar muito desejado, porém ainda indefinido.


23.5.10

Summertime - J.M. Coetzee


Último romance lido (se é que se pode chamá-lo assim). Último livro do Coetzee. Ele supostamente é a compilação de relatos de algumas pessoas que conheceram o autor no período em que ele tinha cerca de trinta anos e vivia na África do Sul. Há até mesmo uma brasileira entre as mulheres que teriam tido algum tipo de relacionamento com ele.
Coetzee faz uma brincadeira consigo mesmo, pois os relatos teriam sido recolhidos após a sua morte. Macabro? Acho que não, parece mais uma forma de estragar o prazer dos futuros biógrafos e misturar ficção com realidade.
Como sempre, ele não é nada generoso consigo mesmo, todos o descrevem como um tipo esquisito, isolado, com dificuldades para se relacionar com outras pessoas, um peixe fora d'água. O sucesso posterior e a fama como autor praticamente ficam em segundo plano e os relatos sobre o contato de cada uma das pessoas com Coetzee servem mais de pretexto para que elas falem sobre suas próprias vidas e também sobre a Africa do Sul, o apartheid, as barreiras de relacionamento. De certa maneira, Coetzee deixa entrever por que deixou o país quando era jovem e imigrou definitivamente para a Austrália depois de se tornar um autor famoso.
Leitura agradável, texto bem escrito, como era de se esperar, mas não se tornou um de meus favoritos do autor.


2.5.10

Dentro do ônibus II

Mais uma para a série dentro do ônibus.

***

Entrei no ônibus que estava parado no terminal pela manhã e me sentei. Havia umas poucas pessoas em outros assentos. Um senhor de uns 60 anos entra e vai lá para a frente do corredor e começa o seu discurso:

"Pessoal, desculpe incomodar vocês, mas eu preciso comprar uma passagem para ir até X (nome de uma cidade da região) para o enterro da minha filha que morreu em um acidente de moto. A passagem custa R$ 21,00, quem me ajuda a completar a passagem, pelo amor de deus? Eu sou um humilde sorveteiro que trabalha aqui pelo terminal. Quem me ajuda?"

Ele anda pelo corredor esperando pelas contribuições, um pedaço de mim, uma parte que sente um pouco de vergonha e culpa, fica se remoendo sobre se deve ou não dar alguma coisa, mas aguento firme, por princípio, não dou dinheiro para quem o pede, mas algumas pessoas dão uns trocados.

"Deus abençoe a todos! E gente, moto é uma coisa muito perigosa, não andem de moto!", completa, após certificar-se de que ninguém vai dar mais nada.

Logo que ele desce do ônibus, uma mulher se vira e diz que aquele senhor repete a mesma coisa todos os dias, todos ficamos indignados. Dizer que a filha morreu todos os dias, que é isso?

Poucos minutos depois, não sei se por distração ou se pelo fato do ônibus ter ficado mais cheio, o mesmo senhor entra outra vez e repete a mesma ladainha. Ninguém fala nada enquanto os recém-chegados estendem os seus trocados, só balançamos a cabeça enquanto ele se apressa para sair do ônibus prestes a entrar em movimento.

1.5.10

Memórias de um nômade - Paul Bowles


Essa é uma de minhas leituras recentes. Li "O céu que nos protege", obra mais conhecida do autor, há mais de 15 anos atrás e não me lembro direito dos detalhes da história, nem de se gostei ou não, enfim, ela não deixou uma impressão muito forte. Também vi o filme de Bernardo Bertolucci e a sensação é a mesma. Acho que o mais interessante é o exotismo do cenário, o deserto do norte da África.
As Memórias de um Nômade cobrem a infância e parte da vida adulta de Paul Bowles, ele escreve sobre seu cotidiano na Nova York do começo do século XX, a relação conflituosa com o pai, sua vida com a esposa, Jane, e, principalmente, sobre as suas viagens pelo mundo. Período que se inicia quando atinge a maioridade, com uma "fuga" para Paris, e termina no Marrocos, país que adota para viver o resto de seus dias. Ele percorre vários países da Europa, da costa norte africana, sudeste da Ásia e América Latina.
Antes de ser conhecido como escritor, Paul Bowles trabalhava compondo trilhas musicais e acompanhamentos sonoros para peças de teatro e filmes, o que lhe dava a liberdade de ir e vir de e para onde quisesse. Se precisava de inspiração, ia até o Marrocos e alugava uma casa e um piano no lugar que julgava conveniente, quando se cansava do lugar, ia até o México onde fazia a mesma coisa.
Não sei se ele ganhava bem ou se a vida era mais barata na primeira metade do século, mas Bowles não tinha qualquer dificuldade para viver onde tinha vontade, bastava querer. Bons tempos. Ele chega até mesmo a comprar um ilha simpática em uma praia do Sri Lanka, a ilha de Taprobana. (Hoje, um hotel).
O interessante é observar como os artistas no estrangeiro formavam uma comunidade bastante solidária, quando o autor ia para um lugar novo, sempre encontrava um amigo de um amigo que estava disposto a abrigá-lo ou a ajudá-lo com algo, da mesma forma, quando ele e Jane estavam estabelecidos em alguma cidade, bastava alguém aparecer e dizer que era amigo de algum conhecido dos dois para ser bem recebido.
Entre as figuras que desfilam pelo livro (e o livro é isso mesmo, um desfile de figuras, lugares e acontecimentos) estão: Tennessee Williams, Gore Vidal, Truman Capote e Gertrude Stein, para citar apenas alguns nomes.
As viagens eram feitas à moda antiga, sem data para voltar, e geralmente de navio. Bowles lamenta o advento dos aviões, pois o charme da viagem, segundo ele, acabou se perdendo. O livro termina quando as viagens deixam de lhe dar o mesmo prazer que em sua juventude. Período que coincide com a deterioração da saúde de sua esposa.
O texto em geral é bem rápido, jornalístico, quase uma sucessão de fatos. Apenas no final, após escrever longamente sobre suas memórias, um Bowles já bem mais velho se dá ao luxo de escrever algumas reflexões sobre sua vida, por exemplo, sobre a razão de ter se fixado no Marrocos:

"Eu não escolhi morar em Tanger de forma permanente. Isso foi alheio a minha vontade. Minha estadia devia ser de curta duração, tinha a intenção de ir para outro lugar, ainda e sempre, sem jamais me fixar definitivamente. A preguiça me fez postergar a partida. Depois veio o dia em que tive que me render às evidências: o mundo não apenas estava muito mais cheio do que há apenas alguns anos, mas os hotéis estavam piores, as viagens menos agradáveis e a maioria dos lugares menos bela do que antes. A partir de então, cada vez que me encontrava em outro lugar, tinha imediatemente vontade de estar em Tanger. Se estou aqui até hoje, é apenas porque este é o lugar em que me encontrava quando compreendi que o mundo estava mais feio e que não tinha mais vontade de viajar."

E sobre a morte:

"Em minha história, por exemplo, não há vitórias espetaculares simplesmente porque eu não tive que lutar. Eu perseverei e aguardei. Acho que é o que faz a maioria das pessoas, de qualquer forma, as oportunidades de fazer algo diferente são cada vez mais raras. Os marroquinos dizem que para se viver plenamente é preciso pensar sempre na morte. Eu concordo com essa máxima sem reservas. Infelizmente, sou incapaz de conceber minha própria morte como o final de um espetáculo muito mais aterrorizante: a velhice. Eu me imagino desdentado, impotente, totalmente dependente de uma pessoa que pago para tomar conta de mim, e que pode deixar o quarto a qualquer instante para nunca mais voltar. Certamente não é isso que os marroquinos têm em mente quanto afirmam que é preciso pensar na morte. Eles consideream minhas visões como manifestações de um medo particularmente abjeto. A terapêutica de uns pode ser a tortura de outros. "Adeus, diz o moribundo ao espelho que lhe estendem. Nós não nos veremos mais." Eu citei esse epigrama de Valéry em "O céu que nos protege" porque essa visão me parecia, na época, particularmente forte. Hoje, como já não me imagino como um simples espectador, mas como o protagonista dessa cena, ela me parece repugnante. Para que o adeus soe justo, bastaria que o moribundo acrescentasse estas curtas palavras: "Graças a Deus!"."

Dentro do ônibus



Ontem, andando pela cidade e tomando um ônibus com uma enorme sacola de plástico com um cabo flevível (mangueira?) de aspirador de pó, eu fiquei pensando nas coisas esquisitas que já carreguei dentro dos ônibus. Lembrei de um galo e de um linguado. O galo era grande, vermelho e vistoso. Ele veio dentro de uma sacola de feira com os pés amarrados e deve ter levado o susto de sua vida. Eu era criança e minha mãe tinha um pequeno galinheiro, não comíamos os animais, era pura recreação, uma forma de lembrar o passado da roça dos meus pais. Chegou uma época em que o bairro cresceu demais e já não era possível manter os animais. Eles foram vendidos a contragosto e certamente viraram uma refeição.

O linguado foi idéia minha. Não sei por que raios eu decidi entrar em uma peixaria e levar um peixe para minha mãe preparar. A peixaria ficava na cidade vizinha e nem me passou pela cabeça que ele poderia estragar debaixo de um sol de meio-dia. Sei que comecei a sentir um cheiro desagradável vindo de dentro da sacola plástica em que o linguado estava embrulhado apenas em uma folha de jornal. Torcia para que ninguém mais sentisse o cheiro dentro do ônibus. Quando cheguei em casa, ele foi para o lixo. Sorte que o peixe não era muito grande e acho que já nem estava mais tão fresco porque paguei pouco por ele.

Lembranças bizarras. Qual foi a coisa mais estranha que você levou dentro de um ônibus?


27.7.09

Bolo de banana da Elise

É, outro.
Eu sempre compro bananas e mesmo assando, empanando e comendo várias todos os dias, não consigo dar cabo de todas antes que elas amadureçam demais, então preciso encontrar outras soluções. A receita desta vez é da Elise do Simply Recipes. O bolo ficou muito gostoso, denso e úmido do jeito que gosto. Piquei um restinho de chocolate que estava no armário e adicionei à massa.

Bolo de banana da Elise

3-4 bananas maduras amassadas
1/3 x de manteiga derretida
1 x de açúcar (usei demerara, coloquei pouco mais de meia xícara e achei que ficou doce na medida certa)
1 ovo batido
1 c chá de essência de baunilha (troquei por um pouco de canela em pó)
1 c chá de bicarbonato de sódio
1 pitada de sal
1 1/2 x de farinha

Preaqueça o forno à 175C. Misture a banana amassada com a manteiga. Adicione o açúcar, o ovo e a baunilha. Polvilhe o bicarbonato de sódio e o sal, misture. Adicione a farinha e mexa. Despeje a massa em uma forma de bolo inglês untada e asse por cerca de 1h ou até dourar.


17.7.09

Bolo de maçã com amêndoas, aveia e passas

Vi a receita no La cucinetta, como tinha todos os ingredientes, decidi prepará-lo. Nada melhor do que um bolo de maçã para um lanche no meio da tarde...

Bolo de maçã com amêndoas, aveia e passas

1 x de leite integral
1 ovo
8 c sopa de manteiga
1 c chá de essência de baunilha
1/2 c chá de essência de amêndoas
1 3/4 x de farinha
1/2 x de açúcar cristal orgânico
1 c sopa de fermento em pó
1/2 c chá de bicarbonato de sódio
1/2 c chá de canela em pó
1/4 c chá de sal
1/4 x de açúcar mascavo
3/4 x de aveia em flocos
1 maçã com casca cortada em cubinhos (eu usei duas maçãs pequenas)
1/2 x de amêndoas picadas
1/3 x de passas

Preaqueça o forno à 200C. Unte e enfarinhe uma forma ou assadeira de 20cm.
Derrata a manteiga e deixe esfriar. Misture a manteiga como o leite, o ovo, as essências.
Em outra tigela, junte a farinha, o fermento, o bicarbonato, a canela, o açúcar cristal e o sal. Misture e adicione o açúcar mascavo e, em seguida, a aveia.
Junte a mistura líquida à seca. Adicione a maçã, as amêndoas e as passas. Misture pouco.
Deite a massa na assadeira e asse por cerca de 30-35 min ou até que fique dourado e um palito inserido no meio da massa saia limpo.

14.7.09

Lombo assado no leite

"Roubei" a receita do blog Da cachaça pro vinho e ela virou meu curinga, faço no final de semana, fatio, congelo e deixo guardado para aqueles momentos em que a inspiração acaba e o tempo é escasso. A carne fica muito saborosa e macia.

Lombo de porco assado no leite

Eu tempero o lombo com sal, suco de limão, pimenta do reino, alho e alecrim, mas isso depende do gosto de cada um, outras ervas podem ser adicionadas. Selo de todos os lados em uma panela antiaderente e coloco em um refratário fundo forrado com cebolas fatiadas (umas duas grandes). Coloco leite quente até atingir a metade do lombo e deixo assando por duas horas, viro e deixo assar por mais meia hora. Na receita original o molho vai para uma panela e é cozido para reduzir, no meu caso, como faço tudo mais ou menos a olho, nunca sobra tanto caldo assim...


10.7.09

Cake de legumes grelhados

Receita da revista Cuisine et vins de France. Adoro cakes salgados e este aqui pode ser servido como acompanhamento, entrada ou lanche. Ficou muito bom. Uma boa forma de dar fim aos restos de caponata ou ratatouille.


Cake de legumes grelhados

2 abobrinhas pequenas
1 pimentão (vermelho, verde ou amarelo)
1 berinjela média
180g de farinha
3 ovos
100ml de leite
100g de parmesão ralado (ou outro queijo de sua preferência)
1 c sopa de fermento em pó
200ml de azeite (usei metade)
1 ramo de tomilho fresco (usei seco)
sal e pimenta

Preaqueça o forno à 180C. Corte os legumes em tiras de cerca de 5cm no sentido do comprimento. Disponha-os em uma assadeira, coloque 100ml de azeite, polvilhe com o tomilho, tempere com sal e pimenta e misture tudo muito bem. Asse por 30 min.
Forre uma forma com papel manteiga (ou unte como de costume). Bata os ovos com o resto do azeite, o leite, a farinha, o fermento e o parmesão. Adicione os legumes grelhados, salgue caso ache necessário e coloque a mistura na forma preparada. Asse por cerca de 45-50min.




15.6.09

Torta de limão

Olá a todos! Como já virou um hábito, peço desculpas outra vez por não estar atualizando o blog com muita frequência e por não fazer/responder (aos) comentários, mas o tempo é curto e é preciso fazer escolhas, infelizmente, o blog é o primeiro a dançar... Espero que compreendam e saibam que sempre leio os comentários que vocês fazem aqui e que eles sempre me alegram, se houver perguntas específicas, procuro sempre responder.

Fiz a receita da torta publicada pela Akemi, uma delícia, o creme é realmente muito leve e gostoso, fiquei imaginando como ficaria substituindo o suco de limão pelo de maracujá, acho que dá samba....


Torta de limão

Massa:

*xicara medidora de 240ml

1 xícara de farinha de trigo
1 colher (sopa) de fermento em pó
1 colher (sopa) de açúcar
1 colher (sopa) de manteiga ou margarina
1 ovo grande

Misture todos os ingredientes e depois amasse até ficar uma massa lisa e homogênea. Espalhe a massa com as maos no fundo e nas laterais de uma forma de torta de fundo falso. (A minha não era, por isso não deu para desenformar)

Leve para assar em forno brando (160oC) preaquecido por 15 a 20 minutos ou até que fique levemente corado.

Deixe esfriar e cubra com o creme. Leve para a geladeira até que fique firme. Fica melhor de um dia para o outro.

Creme:
1 lata de leite condensado
1 lata de creme de leite com soro
1/2 lata de suco de limão
raspas de limão para decorar

No copo do liquidificador, coloque o leite condensado e o creme de leite. Bata por alguns instantes e vá adicionando o suco de limao aos poucos ate engrossar. Depois é so empregar.