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20.11.12

Em salas de espera


Quando éramos crianças, meu pai trabalhava como autônomo e plano de saúde era um luxo, o que nos levava a recorrer sempre ao serviço público. Na verdade, só procurávamos um médico em emergências, nessas ocasiões, íamos direto para um pronto-socorro, geralmente em horários de plantão, pois era quando meu pai estava em casa e podia nos levar. Lembro do monte de gente na frente da recepção esperando seu nome ser chamado para ir para outra sala onde havia mais espera, ou seja, havia uma antessala da sala de espera. Uma perna quebrada e um resfriado mais resistente eram resolvidos assim.  Por sorte, eu e meus irmãos nunca tivemos nada mais complicado na infância.

Já um pouco mais velha, passei por um período psicologicamente complicado e isso teve alguns efeitos físicos que me levaram a procurar um gastrologista. Um episódio verdaderiramente kafkaniano. Para conseguir ver o médico, era necessário ir bem cedo ao SUS da cidade vizinha para pegar uma senha. O número de senhas distribuídas por dia era limitado e quem não conseguisse o papelzinho tinha que voltar no dia seguinte. Com senha em mãos, ainda era preciso seguir até a recepção, esperar sua vez e marcar o horário com a especialista desejado. Coisa de mês ou mais. 

Enfim, chegou o dia. A sala de espera estava lotada e não havia um horário definido. Todo mundo chegava e ficava esperando ser chamado. Os mais sortudos seriam chamados primeiro. Tratamento de gado. Estava sentada lá e uma senhora, gente simples, se sentou ao meu lado acompanhada da neta e começou a puxar assunto. 

Olhando ao redor, "Nossa, só tem homem!". Voltando-se para mim, "Você sabe que os homens vêm aqui porque têm problema lá no c*, né? Eles fazem 'aquilo' com outros homens. São todos vi***s!". Lembrando que o nome da especialidade é gastroenterologia). Nem lembro se disse algo, acho que ignorei. Era uma senhora de idade, com preconceitos bem arraigados. Aquela conversa, mais o ambiente geral, mais a espera, deixaram-me deprimida.

A vida é cruel.

***

Realizei uma cirurgia com o Dr. X há trocentos anos atrás para remover um nódulo de uma das mamas e agora sou obrigada a visitá-lo sempre para acompanhar os nódulos que sobraram, tenho um par deles, são todos benignos e vivem sendo fotografados, já se tornaram íntimos. 

Quando conheci o Dr. X, ele era um médico promissor em início de carreira que atendia em um consultório lotado e minúsculo. Dez anos depois, entro em uma clínica espaçosa, com uma sala de espera com televisão de várias polegadas, revista Caras, wifi e máquina de café espresso. Uma mudança e tanto. O que não mudou foi o tempo de espera de várias horas. A mulherada que aparece lá sabe que tomará um chá de cadeira, mas todas estão resignadas, afinal, Dr X virou um bam-bam-bam da área. De quebra, ele é simpático. Sua sala é grande, cheia de livros médicos, um Aurélio, próteses de silicone sobre a mesa, um pequeno altar e bíblia na estante. 

Na última vez, uma senhora de uns setenta anos entrou na sala de espera e, apesar das inúmeras poltronas vazias, decidiu se sentar entre mim e outra paciente. Dava para ver que ela queria ter com quem conversar. Chegou fazendo perguntas sobre o tempo de espera para a vizinha da direita, esta notou as intenções da senhora e saiu sob o pretexto de beber água. Eu era a outra alternativa e ela perguntou qual era meu horário e começou a comentar que já vinha preparada para esperar. "Eu venho quando não tenho mais nenhuma preocupação, porque sei que vou ficar aqui o dia inteiro!", pausa, "Minha única preocupação é o meu marido, ele tem aquela doença que faz a pessoa fugir... Fico com medo de que ele saia de casa e suma, depois eu tenho que ir procurar. Ele tem parkinson!", batendo na testa, "Não é aquela outra, como se chama? Alzeheimer! Isso! Ele foge e eu tenho que procurar!" Balanço a cabeça sem saber o que dizer, mas não quero prolongar a conversa que não sei onde pode chegar. Felizmente, sou chamada.

A vida é triste.


12.3.12

Dentro do ônibus xvii

Tomar o ônibus com alguma regularidade e em horários determinados faz com que nos habituemos a ver alguns rostos e a pensar no que poderia ter acontecido quando notamos a falta de um deles. Sempre tomo o ônibus dentro da universidade às sextas para ir às aulas de japonês. Há um rapaz que sobe no meio do caminho para ir ao trabalho carregando um guarda-chuva comprido e preto. Acho curioso, pois homens não gostam muito de carregar coisas. Quando a manhã é mais fresca, ele chega enfiado em um cachecol até as orelhas. Em meu ócio, já o diagnostiquei com alguns hábitos obsessivos e uma certa hipocondria.

E há essa garota que espera o ônibus no mesmo ponto que eu. O ponto está sempre cheio, mas ela se destaca. Não que seja particularmente bonita, mas ela é graciosa, com uma postura de bailarina, e suas roupas têm sempre um caimento perfeito. Sexta-feira é o dia em que os alunos voltam para a casa dos pais e ela carrega uma pequena mala. Imagino que seja caloura, safra 2012.

Na última semana, presenciei o encontro do rapaz do guarda-chuva e da garota da mala. Ela se sentou na parte da frente, antes da catraca, e ele subiu com um copo de plástico cheio de café, um pacote com algum salgado, o guarda-chuva e uma mochila. Não prestei atenção ao início da conversa, ele tinha se sentado em outro banco, mas os dois já estavam lado a lado no meio do caminho. 

Ele é grande e meio desajeitado; ela é mignon e delicada. Uma combinação divertida. De alguma forma, achei aquele encontro comovente. Ser jovem e se interessar por alguém, entendem? Isso é algo especial, a gente só se dá conta dessas coisas muito tarde, quando encontros fortuitos não parecem mais mágicos.

Fiquei me sentindo uma daquelas tias casamenteiras, ou alcoviteiras. Vai ver que os dois já se esqueceram um do outro enquanto escrevo sobre eles. Mas o rapaz ficou conversando até chegar ao seu ponto e desceu pela porta da frente.


17.12.11

Dentro do ônibus xvi

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Vi um rapaz lendo "A insustentável leveza do ser" ontem. Ele apertou o botão para descer, mas continuou sentado até que ônibus parasse completamente para terminar de ler um parágrafo. 

Vocês não se interessam por pessoas que leem determinados autores? Eu seria capaz de me apaixonar por alguém apenas olhando para a capa de seu livro. 



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4.12.11

Dentro do ônibus xv

Não há muito acontecendo dentro dos ônibus ultimamente. Há épocas assim, entro, cartão magnético em punho, passo e procuro um lugar para me sentar ou me segurar. Sou invadida pelos odores (nem sempre agradáveis) que pairam no ar e observo, ou me abstraio.

Já notaram como a camaradagem dos motoristas e cobradores é divertida? Quando ambos fazem muitas linhas juntos, acabam parecendo um casal de longa data, as conversas têm direito a conselhos, fofocas e comentários variados, às vezes me pego rindo das bobagens que eles falam.

Outro dia vi uma mulher negra com um coque elegantíssimo, cheio de nós e tranças elaboradas, acho que não era feito com seus próprios fios de cabelo, mas era bonito assim mesmo. Também vi uma senhora com sapatilhas prateadas e pensei em como elas lhe iam bem. Pequenas coisas, pequenos cuidados que sempre acho encantadores. 


23.10.11

Dentro do ônibus xiv

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Sempre que cruzamos com aqueles caminhões que transportam frangos para serem abatidos nos frigoríficos, O. comenta que eles são a metáfora perfeita para a sociedade e a vida em geral. Os frangos são divididos em engradados dispostos em diferentes camadas: alguns na base, outros no meio e os últimos no topo da pilha. Os frangos dessa última camada são os felizardos que respiram algum ar puro, os que vêm logo abaixo já recebem as cagadas dos primeiros e aqueles que estão lá embaixo são os mais infelizes, pois recebem as cagadas de todos os demais. 

Isso já ocorreu há algum tempo, na época em que fazia aulas de alemão aos sábados. Moro na área rural e assistir às aulas exigia que eu acordasse cedo e que o O. me levasse até a rodoviária onde eu tomava o ônibus intermunicipal. 

Em uma dessas ocasiões, aguardava o ônibus chegar junto com outros passageiros sonolentos quando um caminhão cheio de frangos passou na frente da rodoviária e, para nossa surpresa, testemunhamos o momento em que um frango conseguia escapar de um dos engradados, foi a maior torcida, algumas pessoas gritavam "foge, frango!" e "liberdadeeee!". O frango deu um salto desajeitado e foi ao chão, como a rua ficava em um nível mais baixo do que a rodoviária, não sabíamos se ele estava a salvo. O nosso ônibus chegou em seguida, entramos e, quando ele começou a se movimentar, todos nos voltamos para as janelas em busca daquele frango. Ele estava vivo, talvez um pouco manco, e tinha sido colocado junto a uma árvore por um gari que provavelmente iria levá-lo para casa e transformá-lo em um assado. 

Enfim, não é possível escapar do destino. 


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17.10.11

Dentro da farmácia

Isso foi em Buenos Aires. Tive que ir até uma farmácia comprar uma pomada porque o consorte levou um par de tênis com o qual não estava acostumado e teve de tudo: de alergia a bolhas em toda a superfície possível dos pés, algo inacreditável. (Suspeito que isso tenha algum fundo emocional, pois o ser em questão detesta ficar longe de casa).

Lá estava eu procurando um vocabulário para explicar do que precisava, "algo para la picazón en los pies", quando um rapaz que também aguardava se vira e pergunta se eu sou japonesa ou chinesa, respondo que sou filha de japoneses e ele desembesta a falar em espanhol. De tudo o que ouvi, entendi que ele elogiava o povo japonês, a tecnologia, a organização, etc., de vez em quando ele perguntava "no es verdad?" e eu concordava. (Se alguém cisma em falar com você, a primeira coisa a fazer é dar uma desculpa, ir até a esquina e esperar que o sujeito desapareça, se isso não for possível, o jeito é concordar com tudo, mas sem demonstrar muito interesse).

Encontrar um cara meio "excêntrico" dentro de uma farmácia em BsAs era algo com que não contava. Por sorte, sua vez chegou e passou rápido, ele queria algum desconto ou coisa do gênero, e lá fui perguntar se eles tinham algo para "la picazón...".

11.6.11

Dentro do ônibus xiii

Queria escrever sobre coisas alegres, sobre os passarinhos tomando banho de areia ou uma bela manhã de sol, mas ultimamente sempre que saio de casa e pego o ônibus, sou acometida por pensamentos melancólicos. E eles são inevitáveis em dias cinzentos como os desta semana. Ainda há galhos e fios caídos nas calçadas por causa da última ventania.

Faz algum tempo que não vejo gente rindo dentro dos ônibus, conversando sobre algo que não gire em torno de problemas. Ouço muitas discussões ao celular, brigas de uma proprietária com os inquilinos de uma casa, namoradas e mulheres com os respectivos companheiros, mulheres com outros membros da família com  direito a lágrimas de frustração. As pessoas brigavam menos, ou as brigas eram menos públicas antes do celulares. Por outro lado, também estamos ficando meio japoneses, todos ficam com cara de paisagem lá dentro, cada um no seu espaço, as discussões mais esdrúxulas correndo soltas do seu lado e aquilo parece ser a coisa mais normal do mundo. Ah, as contradições!

Outro dia estava na calçada esperando o sinal mudar para ir até o ponto. Uma mulher negra estava ao meu lado e assim que o sinal ficou verde, ela se voltou para mim e falou "Vamos?" com um sorriso e tanta energia que não pude deixar de sorrir de volta. Só aquilo bastou para me aquecer por dentro. Enfim, a mudança de estação está me fazendo sentir falta de calor, em todos os sentidos.



5.6.11

Dentro do ônibus 0

(Texto de 2008 que trouxe daqui).

A tarde estava quente e as pessoas amontoavam-se dentro do ônibus, na medida em que ele parava em cada ponto, via novos rostos absorvidos em procurar um espaço ou um assento vazio. Mas não havia assentos vazios, eles estavam todos ocupados, mal havia espaço para apoiar as mãos, cada um precisava vencer a resistência dos outros corpos e conquistar um espaço para si. Sentia o suor em minhas têmporas e nas axilas. O contato de minhas mãos com a barra no teto era desagradável. Olhava ao redor de forma distraída até que notei uma mulher com uma criança sentada em um banco próximo. A mulher voltava-se para trás, conversava com alguém. Vi uma senhora mais velha responder em outro banco. O que chamou minha atenção não foi o conteúdo da conversa, mas a maneira como ela era feita, não havia palavras, ambas as mulheres tinham algum tipo de deficiência e limitavam-se a balançar a cabeça e a grunhir fazendo caretas com todos os músculos da face. Tinham uma linguagem própria que era incompreensível. Aquilo me intrigou e passei boa parte do tempo observando aquela família pelo canto dos olhos. A criança que sentava-se ao lado da mulher mais nova deveria ter cerca de sete anos, era uma menina com belos olhos escuros e o rosto um pouco sujo. Ela balançava uma caixa de suco e procurava beber o que ainda restava com o canudo branco alheia aos movimentos e grunhidos trocados entre as duas outras mulheres. Seus cabelos compridos estavam presos, mas desgrenhados. Ela parecia não ter herdado a deficiência das outras duas que, àquela altura, concluí serem sua mãe e sua avó. Fiquei um pouco aliviada, mas logo percebi que algo não estava certo, um dos braços da menina era mais grosso do que o outro, como se um deles tivesse se desenvolvido demais. Procurava imaginar quem seriam ou teriam sido os homens que as tomaram nos braços e deram continuidade àquela linhagem. A menina também passaria sua herança genética para os filhos, franzi o cenho ao pensar no tipo de deformidades armazenadas em seu útero. Envergonhei-me por pensar aquilo e olhei ao redor para certificar-me de que ninguém tinha lido meus pensamentos. Eu não era a única que prestava atenção àquelas mulheres, vários outros passageiros olhavam para elas com um misto de curiosidade e pena. A mais velha levantou-se, aproximou-se da outra que também se levantou e apertou a campainha do ônibus. Enquanto elas desciam, vi que todas usavam saias compridas e sujas. Apesar do ônibus estar lotado, ninguém se sentou nos bancos desocupados como se eles pudessem ser contagiosos. No entanto, não demorou muito para que outros passageiros entrassem e ocupassem os assentos, contentes por terem encontrado um lugar livre.

22.5.11

Dentro da clínica

Outro dia esperava uma consulta no oftalmo quando a moça da recepção chamou um paciente. Era um senhor de certa idade acompanhado por uma mulher que deveria ser sua filha. Ele tinha visíveis problemas de locomoção e a recepcionista se aproximou e perguntou para a mulher: "Ele sobe escadas?". A maneira como ela fez essa pergunta me incomodou. Ela foi dirigida à acompanhante do paciente, como se o senhor, além do problema de locomoção, também fosse incapaz de responder por si mesmo. Os consultórios dos médicos ficam no segundo andar e quem não pode subir as escadas tem a opção de usar um elevador, acho que a recepcionista poderia ter feito a pergunta diretamente ao paciente de um modo mais delicado, "O senhor consegue subir as escadas?", por exemplo, ou encaminhá-lo diretamente ao elevador com um "Por aqui, por favor". "Ele sobe escadas?"  parece algo que uma pessoa perguntaria para a dona de um cãozinho. 

Envelhecer certamente não é uma das coisas mais agradáveis. O corpo entra em declínio, mas isso não quer dizer que a pessoa não possa ao menos ser ouvida. Ela trabalhou, pagou suas contas, zelou por outras pessoas, como dizem, teve seu quinhão de alegrias e tristezas, só isso já deveria contar algo.

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28.4.11

Dentro do terminal

Já disse que não gosto mais da cidade de São Paulo. Ela tem um miolo agradável, mas pequeno. O resto é muito indistinto. Uma sucessão de rios tristes e paredes sujas.

Estava no terminal rodoviário comendo um lanche "natural" sem graça e caro - nunca tinha me dado conta, mas é tudo caro lá dentro - quando um oriental se aproximou da mesa e me perguntou se eu conhecia alguma associação japonesa nas imediações, falei que não, pois não era da cidade. Então ele me perguntou de onde eu era e dei uma indicação vaga da região. Depois de pensar um pouco, ele perguntou se eu não conhecia ninguém de uma certa cidade do interior do estado, fiz um movimento negativo com a cabeça e ele me explicou que tinha voltado do Japão no dia anterior e que o cartão do banco dele havia sido cancelado (mostrando um cartão do Sudameris, um banco que foi absorvido pelo Real e depois pelo Santander há milhões de anos atrás). Prosseguiu dizendo que precisava encontrar alguém de sua cidade porque faltavam R$20,00 para completar a passagem e, enfim, chegou onde esperava que ele chegasse, perguntou se eu não poderia lhe emprestar o dinheiro, depois ele me devolveria. Como aquela história me pareceu suspeita, respondi que não dando uma desculpa e finalmente ele me deixou terminar o lanche que, àquela altura, parecia ainda mais deprimente.

Qualquer um se sente alienado se passar muito tempo dentro de um terminal rodoviário. Pessoas indo e vindo, gente dormindo nos bancos. Um lugar de passagem e também de paradas. Vi um velho com problemas mentais sentado em uma das cadeiras com forro azul claro. Ele mudava de lugar a todo momento e mexia as mãos ritmadamente sobre as pernas. Acho que ele mora lá dentro, os vendedores das lojas ou funcionários do lugar talvez estejam familiarizados com sua presença. Eu tentava ler para matar o tempo. Uma senhora se aproximou e  pediu que eu confirmasse o horário da passagem, ela não conseguia enxergar letras miúdas. 13:20h, ainda faltava uma hora.

Os personagens do romance do Bolaño me pareciam cada vez mais miseráveis naquele cenário, mas fiquei por lá como os demais, esperando que os ponteiros do relógio se movimentassem mais rápido.

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14.4.11

Dentro do táxi

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Já estava escuro quando me dirigi para a estação de metrô de guarda-chuva em punho. Ia entrar quando vi um táxi se aproximando, fiz sinal mas ele passou direto. Por sorte, um outro táxi vinha logo atrás e parou para mim. Era dirigido por um homem negro de meia idade muito simpático. O percurso era longo e talvez tivesse sido mais rápido e muito mais barato se tivesse seguido o plano original de ir de metrô, mas assim não teria conhecido o Sr. P. 

Ele foi me contando um pouco da sua vida e da sua jornada dupla de servidor público durante meio período e taxista até onze da noite. Fomos falando sobre isto e aquilo, sobre a cidade, sobre os eventos. Ele tinha acabado de deixar alguns passageiros em uma feira erótica quando me avistou procurando um táxi, comentou sem malícia, apenas pela graça da coisa. A cidade foi passando pelo vidro embaçado enquanto conversávamos. Nós nos despedimos na frente da casa da minha sogra, desejamos que nossos projetos se concretizassem e, quem sabe, que nos cruzássemos por aí no futuro. 

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2.4.11

Dentro do ônibus xii

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A diversidade de pessoas que tomam o ônibus é enorme e, por isso mesmo, um dia você poderá se deparar com um bêbado. É mais fácil cruzar com esse espécime no final da noite, quando ele se recolhe depois de tomar umas e outras. Não é difícil distingui-lo dos seres sóbrios e, quando um bêbado entra no ônibus trançando as pernas, você torce para que ele se sente bem longe, mas geralmente isso não ocorre (ao menos comigo).

Conheço dois tipos de bêbados, aqueles que iniciam um monólogo em voz alta e aqueles que começam a ficar sonolentos e vão se encostando. Estes são afastados com alguns safanões, já os primeiros exigem muito estoicismo, especialmente se eles se dão conta de que você é japonesa (ou chinesa, ou coreana, para eles dá tudo no mesmo) e começam a discorrer sobre as virtudes e defeitos da etnia.

Enfim, o dois tipos fazem com que conte os minutos até seu ponto. A diversidade é boa, mas às vezes pode ser bastante incômoda.

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21.3.11

Dentro do ônibus XI

Estava sentada dentro do ônibus em movimento e verificava minha lista mental de coisas a fazer : jogar na megasena (faço isso há anos), passar no banco e uma consulta médica. Quase tudo feito. No assento da frente estava um rapaz com cabelos cortados bem curtos. Sabe quando o barbeiro passa a máquina  e os cabelos começam a crescer outra vez? Eram assim. Deixei minha lista mental de lado e fiquei olhando, mesmerizada, para aqueles fiozinhos curtos em pé. Senti uma vontade enorme de passar a mão sobre eles. Claro que resisti, mas sempre tive curiosidade em saber qual a sensação de se fazer isso. É quase como minha vontade de tocar um daqueles fios das cercas elétricas, bastaria encostar a ponta de um dedo para comprovar se a descarga é grande mesmo. Ouvi dizer que alguns agricultores as usam para proteger os pomares no Japão, mas há macacos que preferem levar choques a abrir mão das frutas. Se um macaco aguenta, por que eu não aguentaria?

Mas do desejo ao ato, há um longo caminho. Muitos homens resistem a tocar os glúteos femininos que passam pela sua frente, como a maioria deles, contentei-me em utilizar os olhos.

Se o rapaz lesse pensamentos, teria se levantado e descido do ônibus.




25.2.11

Dentro do ônibus x

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Há motoristas que param para bater papo com outros motoristas na rua, outros que recebem a marmita no meio do trajeto e, hoje, conheci o que dirige segurando um pote de sorvete. O trajeto foi mais demorado por causa disso, para cúmulo, houve até uma paradinha para a cobradora encher uma garrafa de água num posto de gasolina. Fiquei irritada com a lentidão, mas o calor estava mesmo insuportável e dirigir por horas sem ar condicionado não deve ser nada fácil.


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15.2.11

Dentro do ônibus IX

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Retornei para a minha "cidade dos gatos" após quase dez anos. Foram três ônibus e duas rodoviárias novas. 

O restaurante vegetariano continua na mesma esquina, com a mesma cara de pouco frequentado. As ruas pelas quais caminhava a esmo depois das aulas não foram redesenhadas. A cidade ainda é habitada por pessoas queridas e por muitas lembranças, mas também está mais vazia, pois várias pessoas que amei já a deixaram. Passei na frente do lugar onde nos sentávamos para falar sobre o futuro e me dei conta de que ainda espero por ele. (Fiquei com vontade de rir, mas chorar talvez fosse mais apropriado.)

Estava na hora de retomar uma parte da minha vida no ponto em que a deixei.




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25.1.11

Dentro do ônibus VIII

No livro do Haruki Murakami que estou lendo agora, 1Q84, um dos personagens principais lê um conto muito interessante, acho que o título é  "A cidade dos gatos" (ou algo do gênero). O enredo é sobre um rapaz que passa seu tempo viajando. Um dia ele toma um trem que para em uma estação onde ele é o único passageiro a descer. Não há ninguém na estação, nem na cidade. Tudo está absolutamente deserto.  Ele passa o dia perambulando pelas ruas e casas vazias. A noite se aproxima, de repente, ele ouve um ruído na floresta e vê centenas de gatos atravessando a ponte que conduz à cidade. Assustado, o rapaz se esconde e observa como os gatos começam a abrir as lojas, a cozinhar e a ocupar as mesas dos restaurantes,  enfim, a agir como se fossem seres humanos. De manhã, os gatos vão embora e a cidade volta a ficar deserta. Apesar do susto, ele decide ficar mais algum tempo ali para observar melhor tudo aquilo. O trem continua passando e parando na estação apesar de não haver passageiros então ele poderia deixar o lugar quando quisesse. O rapaz passa a segunda noite observando os gatos de seu esconderijo. Na terceira, os felinos sentem o odor de um ser humano e iniciam uma busca. Eles chegam a alguns metros do intruso, entretanto, estranhamente, eles não conseguem vê-lo. De manhã, o rapaz corre até a estação e espera pelo trem para fugir, mas, desta vez, o trem não para e o condutor ignora sua presença na plataforma. Ele descobre que não pode mais ir embora, pois, de certa forma, deixou de existir.

Fiquei pensando nesse conto enquanto passava perto de uma estação.

Ao redor de estações e rodoviárias sempre há pensões baratas e pessoas que parecem não ter para onde ir. Elas desembarcaram um dia, talvez tenham decidido ficar para ver o que a sorte lhes reservava e, depois de algum tempo, descobriram que já não tinham mais para onde ir ou como sair daquele lugar.  Como o rapaz do conto, elas descobriram que, de certa forma,  também tinham deixado de existir. Tinham passado tempo demais na cidade dos gatos.

22.11.10

Dentro do ônibus VII

Eles sempre sobem no ônibus quando eu me levanto para descer. O filho entra primeiro e a mãe vem em seguida, já procurando um banco vazio para o garoto que tem problemas motores.  Estão indo ou voltando da escola, vejo pelo uniforme e pela mochila que a mãe carrega.

Às vezes, nós nos desencontramos e aí fico pensando se tudo está bem, se o menino foi para a escola e se o dia transcorreu sem incidentes. É um alívio revê-los. A mãe está sempre preocupada em não perder o filho de vista apesar do espaço limitado, o filho parece ignorar o que há ao redor, como todos os adolescentes.

Gostaria de sorrir para a mãe um dia desses, mas não sei se ela entenderia que meu sorriso é um aplauso silencioso.

3.7.10

Dentro do ônibus VI



Andar de ônibus é meu momento de meditação, ou melhor, de inquietação. Observar as casas,  os postes e as pessoas através da janela, a presença dos outros passageiros, toda essa familiaridade desperta meu desejo de outros ares: praias caribenhas, mercados de peixe em Zanzibar, ruelas napolitanas. Mas aí me lembro do que escreveu sabiamente Mario Quintana:  

"E quando, morto de mesmice, te vier a nostalgia de climas e costumes exóticos, de jornais impressos em misteriosos caracteres, de curiosas beberagens, de roupas de estranho corte e colorido, lembra-te que para alguém nós somos os antípodas: um remoto, inacreditável povo do outro lado do mundo, quase do outro lado da vida - uma gente de se ficar olhando, olhando, pasmado... Nós, os antípodas, somos assim." (Do inédito, in: Sapato florido).

E suspiro, porque parece mais simples deslocar meu corpo do que mudar a forma como veem meus olhos.



22.6.10

Dentro do ônibus V



Não há nada mais melancólico do que um dia nublado dentro de um ônibus. Minto, finais de tarde e noites dentro de ônibus também são melancólicos, especialmente se estiver um pouco frio e os vidros estiverem embaçados. A cidade lá fora parece mais hostil, as pessoas parecem mais absorvidas em si mesmas em dias assim. Não que a sensação seja desagradável, faz parte da natureza das coisas. Acho que às vezes eu sofro de um ônibus blues.


13.6.10

Dentro do ônibus IV

Quantas horas em ônibus! Fico estupefata quando penso no  tempo que levava em idas e  vindas do colégio e, depois, da faculdade. Levantava de madrugada, acordava minha mãe para ela abrir e fechar o portão quando tudo ainda estava escuro, às vezes a única coisa que via eram os círuculos brancos ao redor das  lâmpadas iluminando a neblina na rua.

A rua vazia, o ponto vazio que se povoava aos poucos. Eu tinha um pouco de medo,  mas não tinha opção,  vida proletária é assim. Ônibus cheio, o vapor se condensava nas janelas fechadas. "Um passo para trás!", gritava o cobrador. Felizmente, a volta era mais tranquila.

De vez em quando ainda tomava o ônibus até a cidade vizinha mais uma vez para encontrar os amigos, ir ao cinema, ao teatro, ou para jogar conversa fora em especulações sobre a vida, sobre nossos futuros brilhantes.

Ao contrário da manhã, o ônibus quase sempre estava vazio. Ele atravessava a noite pontilhada pelas luzes de algumas casas. Descia na cidade também despovoada e caminhava pelas ruas com passos apertados. Não sei como tinha coragem. À noite, a cidade era a carcaça vazia de algum animal.

Tantas horas, tantas...