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6.1.19

Os últimos murakamis

(Mais uma retomada deste blog há tanto tempo abandonado! Ainda há alguém aí?)

Acabei de ler um dos últimos romances (não posso dizer que seja o último porque as traduções nem sempre seguem o ritmo das publicações no Japão) de Haruki Murakami, Killing commendatore, é, li em inglês mesmo. Ele será publicado pela Alfaguara aqui no Brasil com o título O assassinato do comendador em, acredito, dois volumes como no Japão. O enredo até tem alguns elementos de suspense misturado com eventos misteriosos e inexplicáveis - além de comida, jazz e música clássica -, típicos das obra de Murakami, mas confesso que ele poderia ser bem mais enxuto, havia partes repetitivas e tediosas que acabava pulando para ir logo àquilo que interessava. O enredo é meio requentado, uma combinação de restos da geladeira murakamiana: uma adolescente enigmática, um protagonista abandonado pela mulher, um ser fantástico e onisciente, universos paralelos aos quais os personagens chegam descendo por algum buraco/poço, uma pitada de história mundial. Kafka à beira mar foi o último livro do autor de que gostei, aprecio os seus primeiros trabalhos, mas depois de Kafka, as coisas mais interessantes que li foram os ensaios sobre a escrita nos quais ele explica sua visão do processo criativo e seu ofício como autor e as conversas sobre música com o maestro Seiji Ozawa. Também há um conto em Men without women de que que gosto, "Samsa in love".

Atualmente prefiro narrativas mais "ágeis", Querida konbini, de Sayaka Murata, por exemplo, é curta e "redondinha". Também li Ouça a canção do vento / Pinball, 1973, livro que lançou o Murakami no universo literário, e gostei, achei a narrativa muito mais gostosa do que ela é hoje. (Li a tradução para o francês). 

3.7.16

Leituras de junho


Duas últimas leituras de que gostei: A Life Beyond Boundaries: A Memoir, de Benedict Anderson, e Japanese Portraits: Pictures of Different People, de Donald Richie. 

Benedict Anderson foi professor do departamento de Estudos Asiáticos na Universidade de Cornell. No livro, ele narra basicamente a sua formação. Ele nasceu na China, passou parte da infância nos EUA e retornou para a Grã-Bretanha, pátria de seus pais, onde passou a adolescência e parte da juventude antes de retornar aos EUA para dar aulas no departamento de sociologia de Cornell. Depois disso, suas pesquisas levaram-no à Indonésia, Tailândia e Filipinas. Ele tem uma formação e erudição invejáveis, sempre curioso, ele critica a formação de "especialistas" e a compartimentalização das humanidades. Concordo com sua opinião, vi muitos estudantes e professores de filosofia que não liam romances, ou sociólogos que se restringiam a ler determinados autores, acho isso triste, apequenador.

Em Japanese Portraits, Donald Richie, estudioso da cultura japonesa, faz descrições curtas de suas interações com figuras anônimas e famosas como Yukio Mishima, Yasunari Kawabata e Yasujirô Ozu. São realmente pequenos retratos. Gostei tanto que pensei em traduzir, mas descobri que isso já foi feito

Tenho lido mais em japonês, contos, mas já separei alguns textos mais longos para continuar meu eterno aprendizado da língua. Também separei um romance em francês, uma cópia de La Vie de Marianne da época do meu doutorado que acabei deixando de lado, e A Bend in the River, de V. S. Naipaul. Há uma fila enorme de leitura!

No mais, acho que estamos com algum vazamento, outro. Na rede de água da casa desta vez. O relógio não para de girar se não fecho o registro. Preciso encontrar alguém para fazer a detecção e resolver isso em um futuro próximo. Na horta, é época de: cenouras, salsinha, coentro, gengibre, berinjela (ainda), mandioca e alface. O maracujá doce floriu. Faz anos que não como maracujá doce, espero que continue tão bom quanto era na minha infância.


12.6.16

Leituras de abril/maio

Li vários livros sobre assuntos bem diversos. Mas acho que, nos últimos tempos, meu interesse tem se concentrado nos livros sobre lugares e história. Nenhuma ficção.

Oaxaca Journal do Oliver Sacks é um diário de sua visita a essa região do México junto com um grupo de amantes de pterodófitas (ou seja, samambaias) do qual ele faz parte. Eles fazem excursões para observar a flora e a cultura local. Leitura leve, com suas impressões sobre a região, sobre botânica e pessoas. (Me parece adorável fazer parte de um grupo nerd desse tipo!).

John Keahey passou seis meses explorando as pequenas cidades da Toscana imerso na história e arte da região. O resultado de sua estadia é o livro Hidden Tuscany. Ele procura mostrar os aspectos menos turísticos e conhecidos da Toscana, seus conflitos, sua gente. (Adoraria ser paga para passar alguns meses em outro país para ser absorvida e absorver sua história e costumes, e vocês?). De certa forma, ele faz um livro de viagem à moda antiga, onde há mais antropologia e pesquisa, e menos "dicas" como nos guias turísticos atuais. Ele escreve sobre o mármore empregado por Leonardo da Vinci, as esculturas, o forte de Pietrasanta, cidade onde monta sua "base", e também sobre a carnificina trazida ao lugar pela guerra.

Gostei muito de In the Belly of the Elephant de Susan Corbett. No livro, ela narra seus cinco anos de trabalho para a organização Save the Children em Burkina Faso no final dos anos 70 e início dos 80. Apesar de seu trabalho, o livro trata mais de suas expectativas, do cotidiano e de suas frustrações pessoais, geralmente relacionadas ao trabalho e à sua vida amorosa. Quase um livro de formação com a África servindo de pano de fundo. 

Em Tokyo: from Edo to Showa 1867-1989, Edward Seidensticker conta como Tóquio se tornou Tóquio desde o final do período feudal até 1989. A cidade passou por várias mudanças após várias inundações, incêndios, terremoto e bombardeios durante a Segunda Guerra. Interessante, mas achei meio cansativo e um pouco repetitivo apesar da (e talvez devido à) grande quantidade de informação recolhida pelo autor. 

Consegui ler o volume sobre o zen das obras selecionadas de D. T. Suzuki. Devido ao seu intercâmbio com o Ocidente, sua visão sobre o zen é influenciada por pensadores e conceitos ocidentais e, por isso mesmo, alguns estudiosos criticam seus textos, mas acredito que essa seja sua forma de tornar as concepções orientais mais compreensíveis para quem não nasceu do outro lado do mundo. Gosto do fato das religiões orientais enfatizarem o concreto, o momento, em detrimento da abstração e de especulações de ordem intelectual. A vida se torna bem mais simples assim. Também aprecio o zen por valorizar o esforço pessoal para se atingir uma espécie de salvação/iluminação, ao contrário de outras vertentes do budismo segundo as quais a salvação dependeria de um tipo de graça divina. Mas esse tipo de cisão existe mesmo no cristianismo, não é mesmo? Algumas vertentes pregam que cada um deve se esforçar para ir ao paraíso, enquanto outras pregam que tudo depende da providência divina...

Li besteiras também, um pouco de assuntos esotéricos, nutrição e beleza, porque ninguém é de ferro, mas essas ficam para outra hora.


3.4.16

April is not the cruellest month

Li If the oceans were ink no mês passado. A autora, Carla Power, é jornalista e passou um ano acompanhando as palestras e tendo aulas sobre o Corão, o livro sagrado do Islã, com uma autoridade da religião, Mohammad Akram Nadwi, um pesquisador e estudioso que nasceu na Índia e mora na Inglaterra. Apesar de sua posição conservadora, Akram deixa claro que Maomé não prega a opressão feminina. Em seus estudos ele realizou o levantamento do nome de várias mulheres que se dedicaram ao estudo do Alcorão no mundo islâmico. 

A autora claramente foca o livro na questão feminina no islamismo e, por meio das explicações de Akram, procura mostrar que o texto sagrado não é tão opressivo em relação às mulheres, ao contrário, as interpretações e leis estabelecidas posteriormente é que teriam restringido seus direitos e liberdade. (Descobri que o profeta nunca disse que uma mulher não deveria conduzir um camelo, inclusive, suas mulheres o seguiam dessa forma, algumas até mesmo expressavam sua opinião e ela era respeitada).

É um livro muito interessante. Como qualquer religião, Akram explica que o fundamento do Islã é a compaixão, a paciência e a modéstia. Mas como qualquer texto, o Corão é aberto a várias interpretações e suas palavras podem ser distorcidas para satisfazer interesses pouco elevados. Quando o secular e o sagrado, as leis e a religião, são uma coisa só, o perigo é grande. Há diversos pontos controversos que Akram tenta elucidar para a autora, ela nem sempre fica satisfeita com as explicações, mas a leitura é ótima para compreender, mesmo que pouco, a perspectiva do islamismo.

As vozes de Marrakech (li em italiano, pois foi a tradução que encontrei), do escritor e ensaísta búlgaro Elias Canetti, é uma espécie de diário com cenas e experiências vividas pelo autor durante uma viagem a Marrakech feita em 1954. Gosto de Canetti, adorei a trilogia autobiográfica (A língua absolvida, O jogo dos olhos, Luz em meu ouvido) na qual ele narra sua infância, sua relação tempestuosa com a mãe, sua juventude e formação literária durante os anos dourados de Viena e seu relacionamento com Veza, uma mulher mais velha que considerava sua musa e com quem se casa. No livro sobre Marrakech, a pobreza e a privação estão sempre muito presentes nas cenas narradas pelo autor, o pouco de lirismo que surge aqui e ali sucumbe rapidamente diante da realidade. 

Getting more of what you want de Margaret Neale e Thomaz Lys é sobre estratégias de negociação, sobre como maximizar ganhos em diversos tipos de interação aliando aspectos psicológicos e econômicos. Apesar de não me considerar uma grande negociadora, gosto desse tipo de assunto. Nossos julgamentos, preconceitos e temperamento afetam nossas decisões e é sempre bom ter consciência disso.

Healthy brain, happy life é uma mistura de livro de bem-estar/autoajuda com neurociência, área estudada pela autora Wendy Suzuki, professora da Universidade de New York. Ela procura mostrar a importância do cérebro para se ter qualidade de vida, mas acho que esse aspecto é explicado de forma superficial, pois o texto acaba priorizando mais sua vida pessoal. É uma leitura que procura ser divertida e informativa ao mesmo tempo sem ser chata, mas fica meio açucarada. (Apesar disso, até gostaria de participar de seu curso sobre como a atividade física afeta a atividade cerebral, ela faz os estudantes realizarem exercícios enquanto gritam palavras de encorajamento e abre uma discussão sobre o tema na segunda parte da aula).

A horta continua na mesma. Continuo colhendo berinjelas, mas as mudinhas novas continuam desaparecendo misteriosamente. Plantei batata-doce em um dos canteiros porque cansei de semear verduras e perder todas as sementes. Tenho bastante gengibre e os pés de cúrcuma estão vistosos. Colhi algumas mandiocas, elas são muito macias, as mudas foram dadas por meu pai. 

O pão continua caseiro e estou tentando melhorar minha técnica com o levain. Sempre busco dicas no blog da Neide Rigo, acho que estou melhorando, mas ainda não consegui aquele tão desejado pão de casca crocante e miolo cheio de furos. 


Flor de maracujá
Berinjelas e um pepino
primeira colheita de mandioca
alguns passeiam de balão aos domingos
pão caseiro

20.3.16

Entre Parênteses, Bolaño



Terminei de ler Entre Parênteses, uma coletânea de artigos, discursos e uma entrevista concedida por Roberto Bolaño à revista Playboy. Os artigos são curtos e tratam de literatura, afetos e desafetos literários, o Chile, seu país natal; o México, onde foi jovem; e a Catalunha, onde morreu em 2003. 

Gostei muito de Os Detetives Selvagens e 2666, seus dois tijolos de centenas de páginas. Livros ambiciosos, um tanto desequilibrados por isso mesmo, mas leituras fabulosas, estonteantes. Não gostei tanto de Noturno do Chile, tenho a impressão de que Bolaño cresce mesmo quando tem a oportunidade de se estender por várias páginas como nos dois primeiros livros e nos faz mergulhar em um caleidoscópio de imagens e experiências. 

Os artigos são interessantes para conhecer um pouco mais sobre o escritor, mas achei-os um pouco repetitivos. Gostaria que ele tivesse falado mais sobre si, expressado um pouco mais de suas opiniões sobre a literatura, arte e vida. Em suma, fossem mais reflexivos.

Li em italiano. Traduzi um trecho que acho que faz muito sentido:


"Gostaria de recomprar todos os livros de Tolstói e Dostoiévski que li e que não possuo mais em minha biblioteca. E também aqueles de Daudet. E aqueles de Vitor Hugo. Algumas vezes me pergunto o que fiz deles, desses livros, como posso tê-los perdido, onde os perdi. Outras vezes me pergunto porque desejo tê-los se já os li, que é o único modo de conservá-los para sempre. A única resposta possível é que os desejo para meus filhos. Sei que é uma resposta enganosa: cada um deve sair de casa em busca dos livros que estão à sua espera."



6.3.16

Palavras de Bolaño

A literatura, como diria uma cantora andalusa, é um perigo. E, agora que retorno, finalmente, ao número onze, o número daqueles que jogam no ataque, e que mencionei o perigo, posso recordar aquela página de Dom Quixote na qual se discute os méritos da milícia e da poesia, e na qual imagino que, no fundo, se fale do grau de perigo, ou do grau de virtude, exigido pela natureza dos dois ofícios. E, se Cervantes, que foi soldado, faz a milícia, o ofício de soldado, vencer o honorável ofício de poeta, e se lemos aquelas páginas com cuidado (coisa que agora, enquanto escrevo este discurso, não faço, mesmo que da mesa onde estou sentado, veja muitíssimo bem as minhas duas edições de Dom Quixote) sentimos um forte aroma de melancolia, porque Cervantes faz sua juventude, o fantasma de sua juventude perdida, vencer a realidade do exercício da prosa e da poesia, até então tão inclemente para com ele. E isso me vem à mente porque, em grande medida, tudo o que escrevi é uma carta de amor e de adeus à minha geração, à nossa geração que nasceu nos anos cinquenta e que, em determinado momento, escolheu o exercício da milícia, em nosso caso, seria mais correto dizer da militância, e confiou o pouco que possuía, que era muito, porque era a nossa juventude, a uma causa que acreditava ser a mais generosa do mundo e que, em certo sentido, o era, sem que, em realidade, o fosse. Inútil dizer que combatemos exaustivamente, mas que tínhamos chefes corruptos, líderes covardes, aparatos de propaganda que eram piores do que leprosários, e que lutávamos em nome de partidos que, se tivessem vencido, teriam nos enviado imediatamente aos campos de trabalho forçado; lutávamos e dispúnhamos toda a nossa generosidade a serviço de um ideal morto mais de cinquenta anos antes, e alguns de nós o sabíamos, não podíamos deixar de sabê-lo se tivéssemos lido Trótski ou se fôssemos trotskistas, no entanto, lutávamos do mesmo jeito, porque éramos estúpidos e generosos, como são os jovens, que dão tudo e não pedem nada em troca, e agora não resta mais nada desses jovens, aqueles que não morreram na Bolívia morreram na Argentina ou no Peru, e aqueles que sobreviveram foram morrer no Chile ou no México, e aqueles que não foram assassinados ali, foram assassinados mais tarde na Nicarágua, Colômbia ou El Salvador. Toda a América Latina está semeada de ossos desses jovens esquecidos. E é essa a mola que impele Cervantes a escolher a milícia em detrimento da poesia. Seus companheiros também estavam mortos. Ou estavam velhos e abandonados, sós e na miséria. Escolher significava escolher a juventude, escolher os derrotados, escolher aqueles que não tinham mais nada. E é isso o que faz Cervantes: escolhe a juventude. 

Roberto Bolaño, Discurso de Caracas, traduzido (do italiano por mim)

3.3.16

Livros de fevereiro


Falei cedo sobre a chuva no post anterior, não é mesmo? Voltou a chover muito nas últimas semanas. O solo está encharcado e faz chop chop quando caminho sobre a grama. Não dá para passar muito tempo do lado de fora cuidando do jardim então leio.

Li alguns livros sobre zen budismo, entre eles: Zen and Japanese Culture de Daisetsu Teitarô Suzuki e Zen Experience de Thomas Hoover. Suzuki tem obras bastante difundidas no Ocidente tratando do budismo. É interessante ver a religião/filosofia da perspectiva de um japonês, mas achei o livro do Hoover mais instrutivo. Ele procura traçar a história do zen budismo desde a China até o Japão. Como qualquer religião/instituição, o zen é constituído de várias idiossincrasias muito humanas. Sua história é feita de variações, cisões e disputas entre mestres e discípulos que pensam de formas diferentes. Algumas escolas se beneficiam do apoio dos poderosos e há aquelas que se afastam do mundo. Alguns mestres acreditam na meditação, outros preferem métodos menos ortodoxos como gritos e tapas como meios para atingir a iluminação.

Em Good Thinking, Guy P. Harrison escreve sobre a necessidade e os benefícios de cultivarmos uma espécie de ceticismo científico em nossas vidas, isso evitaria que tomássemos decisões ou abraçássemos causas e opiniões baseados em falácias ou ignorância. No fundo, o que ele prega é bom senso, mas li alguns comentários críticos de pessoas religiosas, por exemplo, que não gostaram do que ele escreveu.

Apesar de minha casa estar longe (muito longe) de ser um exemplo de organização e minimalismo, adoro livros sobre o assunto. Li The life-changing magic of tidying up de Marie Kondo que fez um tremendo sucesso no ano passado e terminei Simple Matters de Erin Boyle esta semana. Erin tem um blog (que conheci depois do livro), Reading my tea leaves, no qual dá dicas sobre como podemos ter uma vida mais simples, clean e autêntica. O livro também é sobre isso, sobre atitudes que enriqueceriam nossas vidas como usar produtos naturais, dar valor à qualidade e não à quantidade, consumir menos, aliar a sustentabilidade à beleza. Tanto Marie quanto Erin dizem que o segredo para ter uma casa mais clean é comprar e conservar apenas as roupas e objetos que amamos e nos fazem felizes. (Oh boy! Me passem alguns sacos de lixo...).

No campo da ficção, li Atemschaukel (traduzido como "Tudo o que tenho levo comigo", título que não achei muito bom, "The Hunger Angel", título da tradução inglesa, é bem melhor), da Herta Muller. Ele é narrado por Leo, um jovem da minoria alemã da Romênia que é deportado para a União Soviética onde passa cinco anos em campos de trabalho forçado. O tema é triste e duro, mas a escrita é muito poética. Gosto disso nos textos da Herta Muller, da concisão e do efeito das imagens que ela evoca. Li em alemão e, apesar de ter muitas dificuldades com essa língua, não era alheia à beleza de sua escrita.

Comprei e li dois livros do chileno Alejandro Zambra publicados pela Cosac Naify (RIP). Confesso que fazia anos que não comprava livros em português (mesmo uma tradução). Foi estranho ler um autor que li primeiro na língua original traduzido para o português, o pior é que cada um deles foi traduzido por uma pessoa diferente. Acho difícil manter algo parecido com um "estilo" dessa forma. Gostei muito do Zambra em espanhol, apesar de ter lido apenas Bonsai e No Leer que comprei no Chile. Calhou de uma leitora do blog fazer a recomendação do autor pouco antes de uma viagem a Santiago e fui procurá-lo nas livrarias próximas do apartamento onde ficamos. Livros no Chile são caros e não tive coragem de comprar mais nada. Até reclamei disso com o vendedor de uma livraria em Providencia e ele concordou comigo. Meus Documentos é uma coletânea de contos, gostei bastante de alguns, achei outros fracos, mas, bem, contos não são meu forte. Quase todos soam meio autobiográficos. Formas de Voltar para Casa também tem um quê disso, de fato, todos os textos do Zambra têm muito dele, de acontecimentos pessoais, do Chile e de Santiago. O romance é curto, como todos os seus textos, e trata do período da ditadura de Pinochet (1973-1990) e de como os relacionamentos e as vidas das pessoas foram afetados por ela.


10.2.16

Sobre a cerimônia do chá e o zen

Trechos do livro Zen and Japanese Culture de D.T. Suzuki. Tradução minha:


"Nestes tempos modernos, como muitos de nós estão situados em relação ao mestre de chá? Não faz sentido falar em um entretenimento tranquilo. Vamos obter o pão primeiro e menos horas de trabalho." Sim, é verdade que nós temos que comer o pão obtido com o suor de nosso rosto e trabalhar algumas horas como escravos de máquinas. Nossos impulsos criativos foram miseravelmente recalcados. Entretanto, acredito que não seja por esse motivo que nós, os modernos, perdemos nosso gosto pela capacidade de relaxar, de encontrar tempo em meio a nossas preocupações para aproveitar a vida sem ser correndo atrás de estímulos apenas pela diversão. A pergunta é: Como terminamos por nos entregar a uma vida na qual os problemas são suprimidos apenas temporariamente? Por que não refletimos mais sobre a vida de modo mais profundo, mais sério, para ter uma ideia de seu significado mais íntimo? Quando essa pergunta for respondida, se necessário, negaremos todo o mecanismo da vida moderna e começaremos de novo. Espero que nosso destino não seja nossa escravidão contínua às necessidades e bem-estar materiais.

 "De fato, é um grande erro ostentar wabi enquanto, internamente, nada está de acordo com esse conceito. As pessoas constroem uma sala de chá com todos os requisitos para que ela aparente wabi; muito ouro e prata é desperdiçado no trabalho; objetos raros de arte são comprados com o dinheiro  adquirido por meio da venda de suas terras - tudo isso para exibirem às visitas. Elas acreditam que a essência de uma vida de wabi encontra-se ali. Mas longe disso. Wabi significa insuficiência de coisas, falta de meios para satisfazer todos os desejos que se possa ter, geralmente, uma vida de pobreza e tristeza. Deter-se em desespero no curso da vida devido à incapacidade de prosseguir - isso é wabi. Mas não nos afligimos com isso. Aprendemos a ser autossuficientes com a insuficiência das coisas. Não procuramos coisas além de nossos meios. Deixamos de ter consciência do fato de que estamos em situações difíceis. Se, entretanto, persistirmos com a ideia da pobreza, insuficiência, ou miséria de nossa condição, não seremos mais pessoas de wabi, mas pessoas afetadas pela miséria. Aqueles que sabem o que é wabi, estão livres da ganância, violência, raiva, indolência, desconforto e tolice. Wabi corresponde ao Pāramitā da moralidade como ela é observada pelos budistas."

Quando o wabi é explicado da forma acima, os leitores podem achar que ele é mais ou menos uma qualidade negativa, e que ele é desfrutado pelas pessoas que fracassaram na vida. Talvez isso seja verdade em certo sentido. Mas quantos de nós são tão saudáveis a ponto de não precisar de remédio ou de um fortificante de um tipo ou de outro em algum momento da vida? E todos estamos destinados a morrer. A psicologia moderna fornece muitos casos de homens de negócios ativos, fisica e mentalmente, que repentinamente entram em declínio depois que se aposentam. Por quê? Porque eles não aprenderam a conservar uma reserva de sua energia; ou seja, eles nunca pensaram em um plano de recolhimento enquanto estavam trabalhando. O guerreiro japonês, naqueles dias de batalhas e agitação do passado, quando estava mais ardorosamente envolvido nas atividades da guerra, percebia que não poderia permanecer  com os nervos à flor da pele, sempre em vigília, e que precisava de alguma forma de escapar em algum momento e lugar. O chá deve ter lhe dado exatamente isso. Ele se recolhia durante algum tempo em um canto tranquilo de seu inconsciente, simbolizado pela sala de chá de menos de um metro quadrado. E, quando ele a deixava, sentia não só a mente e o corpo revigorados, mas provavelmente sua memória era renovada com coisas de valor mais permanente do que a mera luta.


11.1.16

Últimas leituras

 

Feliz ano novo a todos! (Mesmo que não haja nada novo nele). 

Retomei a leitura dos diários da Sylvia Plath depois da defesa de mestrado e cheguei a seu fim antes do Natal. Lendo-os, tive a impressão de que ela era uma pessoa muito obsessiva e um pouco neurótica em relação à escrita e aos seus relacionamentos. As entradas de que mais gostei foram aquelas que continham simples descrições sobre o cotidiano. Mas há passagens muito bonitas em suas reflexões, do tipo que viram citações em blogs... 

Também li um pequeno livro de ensaios da Maya Angelou, nunca lera nada dela antes e achei sua escrita simples e bem fluida. Ela foi uma mulher e tanto: escritora, militante dos direitos das mulheres e dos negros, cantora, atriz, uma história de vida fantástica. 

Outro livro que decidi retomar novamente após uma primeira tentativa improdutiva no ano passado, foi o último romance de Milan Kundera, La fête de l' insignifiance (A festa da insignificância). Uma garota que estava sentada do outro lado do corredor em nosso longo voo de volta de Mendoza o lia com interesse e fiquei com vontade de confirmar se ele era assim tão bom. O texto é curto e narra pequenos fatos corriqueiros na vida de três ou quatro conhecidos, existências que se tocam e ignoram muito uma sobre as outras. Bem ao estilo de Kundera. Acho que li todos os seus romances, apesar disso, não posso dizer que ele seja um de meus autores preferidos. Bela escrita, belas reflexões, mas um perfume que logo se desvanece no ar.

Agora estou terminando In Arabian Nights: A Caravan of Moroccan Dreams de Tahir Shah. É uma mistura de livro de viagem, biografia e contos. O autor nasceu em Londres, filho de afegãos, e narra suas experiências em Casablanca, onde adquiriu uma casa e foi viver com a família. Ele descreve seu cotidiano e seu aprendizado sobre os costumes do país, cada pessoa que encontra, conta-lhe uma história e, por meio delas, ele entende um pouco mais sobre o Marrocos e sobre si mesmo. Gosto muito das histórias, ou contos, ao estilo das Mil e uma Noites que permeiam a leitura. O livro me fez lembrar de uma época em que eu lia e relia contos: Andersen, Grimm, Lobato, lendas brasileiras, lendas estrangeiras, o que quer que fosse. Eles pareciam imbuídos de inocência e, ao mesmo tempo, de algo muito mais profundo, tocavam algumas características essenciais do ser humano. Voltei a experimentar isso quando li as Mil e uma Noites mais tarde e, agora, outra vez, lendo este livro. Ele é a continuação de The Caliph's House: A Year in Casablanca.



31.3.14

O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação - Haruki Murakami


Na época do colégio, Tsukuru Tazaki pertencia a um grupo de amigos muito unido em Nagoya, cidade onde cresceu. Três rapazes e duas garotas. Com exceção de Tsukuru, todos os demais possuíam o ideograma de alguma cor em seu sobrenome e algum talento que os distinguia. Kuro era a garota de língua afiada que gostava de escrever; Shiro era a pianista. Ao era o esportista e, Aka, o intelectual. Por isso, Tsukuru não conseguia deixar de sentir que ele era o "incolor" do grupo, sem nada que o distinguisse de alguma forma. Após o colégio, ele é o único que deixa a cidade e vai a Tóquio para prosseguir os estudos, mas ele retorna sempre que há algum feriado para rever os amigos. 

No segundo ano de faculdade, algo inexplicável ocorre, ele retorna para a casa dos pais em Nagoya e nenhum de seus amigos atende suas ligações. Ao final,  Kuro pede que ele pare de ligar, pois nenhum deles iria mais vê-lo. Tsukuru fica chocado e não consegue explicar o motivo desse rompimento repentino de relações. Ninguém lhe explica nada e ele retorna a Tóquio em estado de choque. Ele tenta esquecer o que ocorreu mergulhando nos estudos, termina a faculdade de engenharia e encontra um emprego em uma construtora de estações de trens da capital. Dezesseis anos se passam, mas a dor continua viva. Uma namorada acha que seu passado impede que ele se envolva com outras pessoas e atrapalha seus relacionamentos. Ela o  aconselha a procurar os antigos amigos para pedir explicações e esclarecer esse episódio de seu passado. 

Este é o enredo do último livro de Haruki Murakami, a tradução para o inglês deve sair no segundo semestre.

Pensei em comprar o original, mas o dólar subiu e desisti. Consegui uma tradução em alemão e foi a que li. Demorei para terminar. Achei arrastado, parava, voltava. (Fraturar a clavícula até que me ajudou a colocar algumas leituras em dia). Tinha esperanças de que o livro fosse melhor do que 1Q84, mas Murakami parece ter perdido o seu "jazz". Achei muitas coisas repetitivas, tive a impressão de que ele recolheu alguns pedaços de textos, algumas ideias já usadas aqui e ali, e criou um romance. Ou, como mencionei antes, talvez seja eu que não me identifique mais com os seus protagonistas trintões, solitários, pouco assertivos e que lamentam a perda de algo irrecuperável.

Apesar disso, ainda consegui me identificar com alguns pontos do romance. Também fazia parte de um grupo de amigos, três garotas e dois rapazes, no qual me sentia muito à vontade. Amava cada um deles de uma forma que só é possível na adolescência. Também nos afastamos quando entramos na faculdade. Nós nos víamos cada vez menos até perdermos totalmente contato. Mudamos, fizemos escolhas e seguimos caminhos diferentes. Sobraram lembranças e talvez alguns ressentimentos. Tsukuru, como eu, tem 36 anos quando vai ao encontro dos antigos amigos e descobre o que ocorreu com cada um deles. Às vezes, fantasio como seria o reencontro de nosso grupo... Provavelmente seria estranho. (Se algum de vocês ler este blog, espero que esteja bem e que, na medida do possível, esteja satisfeito com sua vida, pois sei que ela não saiu exatamente como imaginávamos. Saiba, também, que vocês sempre ocuparam um lugar importante em meu coração).

17.9.13

O sonho da primeira noite - Natsume Sôseki

Ontem foi o primeiro dia de aula do curso deste semestre. Professor made in Japan. Ele chegou de viagem no domingo e deu aula na segunda com jetlag e tudo. Não fala português, a aula foi toda em japonês. Estava preocupada, perguntando-me se não ficaria perdida, mas até que entendi bem, ele escolhe palavras simples, fala devagar e de forma clara. Fiquei contente. O problema é do meu lado. Para ler e escrever há os dicionários, mas falar exige uma resposta imediata e, enquanto fico procurando pelas palavras apropriadas, sinto que elas fogem como borboletas. Para me comunicar melhor, tenho que falar mais, nem que esteja errado, não é mesmo? Darei o rosto a bater e sei que vai doer.

Nós nos apresentamos e discutimos um texto de Natsume Soseki do livro "Dez noites de sonhos". Lemos o primeiro sonho, um dos mais bonitos e românticos. Acho que já há tradução para o português, mas decidi fazer minha versão. Traduções nem sempre são acessíveis e achei que algumas pessoas poderiam se interessar. Se gostarem, posso tentar traduzir mais textos curtos de autores pouco conhecidos por aqui no futuro, é um bom exercício para mim. E se houver erros ou correções a fazer, por favor, digam.



O sonho da primeira noite

Tive este sonho.
Sentava-me com os braços cruzados à cabeceira de uma mulher que estava deitada com o rosto voltado para cima. Ela disse que iria morrer com uma voz calma. Seus longos cabelos espalhavam-se sobre o travesseiro emoldurando os contornos de sua delicada face oval. A cor de seu sangue era visível sob as bochechas brancas, seus lábios eram vermelhos. Ela não parecia prestes a morrer. Mas a mulher, com voz calma, disse claramente que iria morrer. Eu também achava que ela iria morrer. “Ah, então você vai morrer?”, perguntei espiando-a. “Vou morrer”, respondeu ela abrindo os olhos. Olhos grandes e úmidos, uma superfície negra circundada por longos cílios. Meu reflexo flutuava vividamente no interior de suas pupilas.
Perguntava-me se ela realmente iria morrer observando o brilho daqueles olhos negros cuja transparência permitia que mergulhasse até seu interior. “Você não vai morrer, não é mesmo? Está tudo bem, não está?”, perguntei outra vez aproximando os lábios de sua cabeceira. “Mas sim, vou morrer, não há o que fazer”, respondeu ela com os olhos sonolentos.
“Você consegue ver meu rosto?”, perguntei com emoção. “Se o vejo? Ora, não estou refletida em seus olhos?”, respondeu rindo. Afastei o rosto sem dizer nada. Perguntava-me se ela realmente iria morrer enquanto cruzava os braços. Após algum tempo, ouvi-a dizer:
“Depois que eu morrer, enterre-me. Cave um buraco com uma concha de madrepérola. Marque meu túmulo com os pedaços das estrelas que caíram do céu. Então fique ao seu lado e espere, pois irei reencontrá-lo”.
“Quando você retornará?”, perguntei.
“O sol nasce, não é mesmo? Depois ele se põe, não é mesmo? Então nasce e se põe outra vez, não é mesmo? Você pode esperar enquanto o sol rubro vai do leste para o oeste, do leste e cai no oeste?”
Balancei a cabeça sem dizer nada. Ela aumentou ligeiramente a entonação de sua voz calma:
“Espere cem anos”, disse de forma decidida, “sente-se ao lado de meu túmulo e espere cem anos. Virei ao seu encontro com certeza”.
Respondi apenas que a esperaria. Então o reflexo de meu rosto, que podia observar vividamente no interior de suas pupilas negras, começou a se desmanchar. Era como se as águas começassem a se movimentar e perturbar o reflexo de uma sombra, quando achei que elas iriam transbordar, os olhos se fecharam. Lágrimas surgiram entre seus longos cílios e escorreram sobre as suas bochechas. Ela morrera.
Fui ao jardim e cavei um buraco com uma concha de madrepérola. Ela era grande, com bordas regulares e afiadas. Cada vez que retirava a terra, a lua se refletia na sua parte externa. Sentia o cheiro da terra úmida. Terminei de cavar o buraco após algum tempo. Depositei a mulher em seu interior e comecei a cobri-la com a terra macia. Cada vez que fazia isso, a lua era refletida pela concha.
Depois, recolhi os pedaços de estrelas e coloquei-os sobre a terra. Eles eram arredondados, deviam ter perdido as arestas enquanto vieram caindo do céu por um longo tempo e ficaram assim. Enquanto os pegava e colocava sobre a terra, meu peito e mãos aqueceram-se um pouco.
Sentei-me sobre o musgo. Ia ficar ali esperando por cem anos, pensava, observando as pedras das estrelas. Logo, como dissera a mulher, o sol nasceu no leste. Era um sol grande e vermelho. Logo, também como dissera a mulher, ele se pôs no oeste e desapareceu de repente ainda vermelho. “Um dia”, contei.
Após algum tempo, um sol rubro se levantou e então se pôs em silêncio. “Dois dias”, contei outra vez.
Enquanto contava os dias dessa forma, não tinha mais ideia de quantas vezes vira o sol. Não importava quanto contasse, um inesgotável sol vermelho passava sobre minha cabeça. E, ainda assim, os cem anos nunca chegavam. Por fim, comecei a achar que fora enganado pela mulher enquanto observava o musgo que crescera sobre as pedras arredondadas.
Logo após ter esse pensamento, um caule verde surgiu por baixo das pedras inclinando-se em minha direção. Ele foi crescendo e parou perto de meu peito. Na ponta do caule delgado e trêmulo, ligeiramente inclinada, uma flor em botão abriu suas pétalas. Era um lírio branco cujo perfume penetrava meu nariz e ia até os ossos. Ele foi coberto pelo orvalho vindo de algum ponto acima e balançou de um lado para o outro devido ao próprio peso. Inclinei o pescoço e depositei um beijo nas pétalas brancas molhadas pelo orvalho frio. Quando afastava o rosto do lírio, olhei para o céu distante ao acaso e vi uma única estrela brilhando na madrugada.
“Então já se passaram cem anos!”, só então me dei conta daquilo.
 

27.8.13

Gilles Lipovetsky na revista francesa L'Express

De uma entrevista com o sociólogo Gilles Lipovetsky na revista francesa L'Express:


"Vivemos em um tempo superestetizado que, no entanto, não se traduz em um embelezamento do mundo."

"Estamos longe da imagem do artista profeta ou do artista maldito. Desde que Warhol reivindicou o status de artista comercial, a imagem romântica do artista deu lugar àquela do empreendedor, cujo objetivo é menos a glória eterna do que a celebridade e o dinheiro. O artista se põe de bom grado a serviço das grandes marcas: Murakami trabalhou para a Vuitton, Keith Haring para a Swatch. O artista é tratado como uma estrela: Damien Hirst fez uma capa para a Time, os grandes arquitetos são icones mundiais. E, em sentido inverso, todos os setores são declarados artísticos: os grandes chefs, os criadores de moda (que são expostos em museus), até os homens de negócios (Steve Jobs, o "artista visionário")... A arte era a inimiga do mundo do dinheiro, inaceitavelmente, ela acabou vítima da lógica do business. O tempo da oposição entre arte e economia faz parte do passado."

"As mídias de massa permitem um acesso às obras inédito na história: são milhões de indivíduos que, hoje, ouvem música, assistem a filmes e contemplam as mais belas obras arquiteturais do mundo. Da mesma forma, as mídias contribuem para a formação de um neoconsumidor esteta em busca constante de emoções ligadas a textos, sons e paisagens. O capitalismo estético proletarizou menos o consumidor do que o estetizou. Agora, os indivíduos, em massa, desejam ver as belezas do mundo e escutar música; eles decoram suas casas e se vestem de acordo com a moda. E o desenvolvimento dos meios midiáticos, da internet em particular, engendrou o desejo de criação pessoal em massa: como prova, os blogs, os clipes, as fotos. Entretanto, evidentemente, isso não é sinônimo de qualidade artistica. Da mesma forma, a democratização dos gostos estéticos não significa um enriquecimento da experiência estética: o visitante contemporâneo que permanece dez seguntos diante de uma tela de Ticiano, o que ele apreende? O que compreende daquilo que é a própria substância da beleza?"

"Desejamos saborear a qualidade do presente, mas a empreitada exige uma performance crescente com seu lote de estresse, frustrações e baixa autoestima. As tensões se multiplicam entre consumismo e ecologia, hedonismo e medicação da sociedade, qualidade de vida e aceleração dos ritmos (ansiedade, depressão, vícios), conflitos intersubjetivos (divórcios, separações, incompreensões...) estão em alta. O capitalismo estético globalizado e a individualização de nossa relação com o mundo são acompanhados pelo sentimento de passar ao largo da "bela" vida. A sociedade superestetizada não conduz a uma humanidade mais feliz."




8.2.13

3 Irmãs - Anton Chekhov

As peças de Chekhov deviam ser consideradas bem "cabeça" na época em que foram representadas pela primeira vez, os temas continuam atuais:

Andrey: Oh, para onde foi a minha vida? - a época em que era jovem, alegre e inteligente, quando tinha belos sonhos e grandes ideias e o presente e o futuro eram cheios de esperança? Por que nos tornamos tão sem graça, comuns e desinteressantes pouco antes de começarmos a viver? Por que ficamos preguiçosos, indiferentes, inúteis, infelizes?... Esta cidade existe há duzentos anos, cem mil pessoas vivem nela, mas não há uma única pessoa diferente das outras! Nunca houve um estudioso, artista ou santo neste lugar, nem um único homem excepcional o suficiente para fazer com que tivéssemos um grande desejo de imitá-lo. As pessoas aqui não fazem nada além de comer, beber e dormir... Então elas morrem e outras tomam seu lugar, e elas comem, bebem e dormem também - e só para introduzir um pouco de variedade em suas vidas e evitar que se tornem completamente estúpidas devido ao tédio, elas se entregam à sua repugnante fofoca, à vodka, aos jogos e às ações judiciais. As esposas traem os maridos e os maridos mentem para suas esposas, fazem de conta que não veem e ouvem nada... E toda essa opressiva vulgaridade e mesquinharia esmaga as crianças e apaga qualquer chama que possam ter, assim, elas também se tornam miseráveis, criaturas semimortas, como todas as outras, como seus pais...


27.12.12

Far From the Tree: Parents, Children and the Search for Identity - Andrew Solomon


Este provavelmente é o último livro que leio em 2012 (ou não). Mil páginas de leitura muito instrutiva. Ele se divide em temas como nanismo, surdez, síndrome de down, autismo, esquizofrenia, prodígios, estupro, crime, transexualismo, enfim, condições e situações com as quais vários pais se deparam quando têm filhos. O autor entrevistou centenas de famílias e cada capítulo traz os relatos de suas experiências pessoais. É comovente ler sobre as dificuldades e transformações que ocorrem nas vidas de pais que têm filhos deficientes, que se comportam de formas consideradas diferentes ou inadequadas, quando as circunstâncias nas quais foram concebidos são terríveis ou quando eles parecem ir contra todos os valores que receberam na infância. 

Há famílias que se desintegram diante dos esforços e do estresse de criar um filho com dificuldades de desenvolvimento físico ou mental, ou "diferentes" de alguma forma; outras, no entanto, unem-se ainda mais. Algumas são explícitas em sua aceitação; outras, sentem vergonha. Algumas são incondicionais em seu amor; outras, reforçam ainda mais o sentimento de inadequação dos filhos.

O autor escreve sobre situações em que um elemento imprevisto é adicionado na relação entre pais e filhos e como a identidade de uns e outros é afetada no processo de busca pelo equilíbrio. Como reagir ao ser apontado como a mãe ou o pai que supostamente decidiu ter um filho incapaz de ter uma vida digna? Como conviver com as acusações e a culpa? Quais as reações e escolhas adequadas diante de filhos "diferentes"? É preciso aceitá-los ou tentar mudá-los? Como uma mãe pode amar um filho concebido após um estupro? Ou que comete crimes? Essas são algumas questões levantadas no livro. O autor deixa que os pais que entrevistou descrevam suas escolhas, digam o que pensam, permite que os filhos deem suas próprias opiniões e também fornece o ponto de vista médico e as estatísticas em cada caso.

Existem exemplos inspiradores e histórias tristes, mas é fácil perceber que, na maioria das vezes, o inferno realmente são os outros. Pais de filhos transexuais, encontram muita hostilidade. Pais com altas chances de conceber filhos com alterações genéticas - nanismo, surdez, problemas mentais ou motores - são condenados quando decidem ter um bebê. 

O livro também trata das crianças prodígio que, apesar da conotação positiva, também representam um desafio para os pais. Já no caso dos pais de crianças autistas e esquizofrênicas, as dificuldades são enormes, pois eles são excluídos do universo de seus próprios filhos e isso cria um grande sentimento de frustração e impotência.

Andrew Solomon, o autor, é homossexual e também escreve sobre seu processo de autodescoberta e aceitação. No último capítulo, ele descreve como se tornou pai e afirma que aquilo que ouviu durante suas pesquisas o ajudou a tomar essa decisão.

Recomendo a leitura para qualquer pessoa. Ele reforça as ideias de que tolerância é algo muito importante e de que ignorância e incompreensão provocam feridas difíceis de curar. O que escrevi aqui é curto e fragmentado, mas espero que tenha passado uma ideia de seu conteúdo.

(Far From the Tree ficou entre os dez melhores livros de não ficção na lista do New York Times deste ano, provavelmente demore um pouco para que seja traduzido para o português).


18.12.12

2666, Roberto Bolaño


Acabei lendo 2666 do Roberto Bolaño antes do final deste ano. E gostei muito. Bom terminar o ano com um livro ótimo, mas desconfio que este será apenas o primeiro de alguns outros, pois já tenho outras leituras engatilhadas, desta vez, livros de não ficção que me parecem muito interessantes. 

2666 é uma obra póstuma, Bolaño a escreveu antes de morrer, enquanto lutava contra um câncer, o editor escreve que o texto não seria muito diferente se Bolaño tivesse tido mais tempo para trabalhá-lo. O desejo do autor era que ele fosse publicado em cinco livros, mas acabou saindo em apenas um volume por decisão do editor e da esposa de Bolaño. Há quem concorde e quem discorde dessa decisão. Eu concordo. Apesar de as partes focarem personagens diferentes, elas se complementam, o elemento de união é uma cidade mexicana chamada Santa Teresa, onde ocorre uma série de assassinatos de mulheres, uma versão da real Ciudad Juárez. Todos os personagens acabam indo para lá em algum momento. 

Gostei muito da parte sobre os críticos, da parte sobre os assassinatos e do final, sobre Archimboldi. Os críticos são quatro pesquisadores europeus que se dedicam ao estudo de um escritor misterioso chamado Benno von Archimboldi. A parte sobre os assassinatos se concentra em Santa Teresa e descreve vários crimes cometidos nos anos 90. Gostaria que Bolaño tivesse desenvolvido mais essa parte, alguns dos personagens são muito interessantes, o jovem policial Lalo Cura e o romance entre o investigador Juan de Díos e a psiquiatra Elvira Campos dariam outros livros. 

Também há a parte sobre Amalfitano, um professor espanhol de filosofia que vive em Santa Teresa, e a parte sobre Fate, um jornalista negro que vai para a cidade cobrir uma luta de boxe. 

2666 e Os Detetives Selvagens são livros monumentais. Neles, Bolaño escreve sobre pessoas como se escrevesse sobre bolhas de sabão, coisas belas e efêmeras. E há uma sucessão delas, elas surgem e se tocam brevemente antes de desaparecem no ar.

2666 pode não ser um livro perfeito, mas é um grande livro e o próprio Bolaño, por meio de Amalfitano, reflete sobre as grandes obras literárias e sua imperfeição quando seu personagem encontra um jovem farmacêutico que prefere as obras menores dos grandes escritores:

"Ele escolheu A metamofose ao invés de O processo, Bartleby ao invés de Moby Dick, Um coração simples ao invés de Bouvard e Pécuchet e Um conto de Natal ao invés de Um conto de duas cidades ou As aventuras do senhor Pickwick. Um triste paradoxo, pensou Amalfitano. Agora, até mesmo os farmacêuticos amantes de literatura têm medo de pegar as obras grandes, imperfeitas e torrenciais, livros que abrem caminhos para o desconhecido. Eles escolhem os exercícios perfeitos dos grandes mestres. Ou o que dá no mesmo: eles querem ver os grandes mestres se pouparem, mas não têm interesse no combate real, quando os grandes mestres lutam contra algo, algo que apavora a todos, algo que nos intimida e estimula, em meio a sangue, feridas mortais e fedor."

Li em inglês, pois era a versão que tinha à disposição.



19.10.12

Osamu Dazai - Justiça e sorriso


E continuo lendo Osamu Dazai.

Minha tradução do título original ficou horrível, mas foi a primeira coisa que me ocorreu. Seigi to Bishou é o diário de um jovem de dezesseis anos que procura encontrar seu caminho. Ele escreve sobre suas frustrações com a idiotice dos outros e a falta de sentido das coisas. Quem já foi adolescente, ou continua vivendo uma longa adolescência, entende do que se trata.

Sua mãe tem uma doença que parece ter um fundo mais histérico do que real, seu pai faleceu há alguns anos, a irmã se casou e mora em outro bairro de Tóquio. Seu irmão mais velho é um aspirante a romancista e passa as noites escrevendo, o relacionamento entre os dois é muito bom.

Dinheiro não parece fazer falta à família, pois os rapazes podem se dar ao luxo de fazer o que tiverem vontade. O autor do diário entra em uma faculdade, mas não gosta do ambiente. No fundo, sua ideia é tornar-se um ator. Ele presta exames para fazer parte de um grupo de teatro kabuki, é bem sucedido, deixa a faculdade e dedica-se ao teatro, mas não fica satisfeito. Há sempre uma nuvem escura em algum canto, logo depois que ele consegue aquilo que deseja, seu entusiasmo se desvanece e isso o deprime.

À medida que avançamos na leitura, vemos o garoto arrogante de dezesseis anos tornar-se um adulto. Qual a expectativa em relação ao futuro se não importa o que faça, tudo sempre acabará dando no mesmo? Continuar da melhor forma possível, conclui ele.

Parece a versão masculina de A estudante que li há algum tempo atrás. Gosto quando Dazai dá voz a adolescentes. Ele retrata bem os seus rompantes de alegria e tristeza, a forma como eles julgam o mundo em preto e branco,  ainda sem tons de cinza. Ele também não se esquece de descrever a profunda solidão desse período da vida. 



22.9.12

Blood, Bones and Butter - Gabrielle Hamilton

 
Acabei de ler Blood, Bones and Butter, a autobiografia da chef Gabrielle Hamilton, proprietária de um restaurante badalado em New York, o Prune. Ela começa descrevendo as festas nas quais seu pai assava carneiros inteiros sobre brasas durante longas horas e os pratos que sua mãe, de origem francesa, preparava em sua infância. Mas o livro não é exatamente sobre comida, é sobre sua formação, sobre os caminhos que percorreu e forjaram seu caráter. 

Seus pais se separam quando ela tem treze anos, cada um vai para um lado e ela e um dos irmãos mais novos se veem sozinhos. Ela passa por um período de deliquência, comete pequenos furtos, fuma, bebe e cheira carreiras de cocaína enquanto trabalha em vários restaurantes para se manter, faz de tudo um pouco: de garçonete à ajudante de cozinha.

O livro é meio lacônico em alguns pontos e Gabrielle escreve apenas sobre os momentos que considera relevantes sem dar explicações sobre porquês ou comos, sabemos que depois de uma adolescência difícil e um longo período de busca pessoal com direito a uma mochilagem quase sem dinheiro pela Europa e Ásia, ela passa uns dez anos trabalhando como freelancer em bufês que fornecem comida para festas e eventos até que se cansa dessa vida e decide fazer um curso de escrita criativa em uma universidade. Após ser admitida, ela logo percebe que a vida de "intelectual" não a satisfaz e que se identifica mais com o trabalho concreto, metódico e duro em uma cozinha. 

Ela decide abrir um restaurante depois que um conhecido lhe mostra um imóvel para alugar, assim, em um gesto impulsivo, imaginando os pratos que desejaria servir e que refletiriam suas experiências gustativas. "Prune" acaba sendo um sucesso. 

O livro segue ainda um pouco além da abertura do restaurante, Gabrielle descreve seu casamento sem amor e pouco gratificante com um médico italiano com quem tem dois filhos. Suas viagens anuais para ver a família do marido na Itália são os pontos altos do relacionamento que já está em frangalhos quando o livro termina.

Gabrielle não esconde seus ressentimentos, suas frustrações e seu temperamento difícil, mas ela é uma pessoa objetiva, direta e competente. Alguns leitores comentaram que, após o livro, respeitavam a Chef, mas não conseguiam respeitar a mulher que o escreveu, acho esse tipo de comentário injusto. Ela pode soar presunçosa, mas não doura nenhuma pílula ou tenta parecer adorável.

Eu me identifiquei com o fato de ela sentir aversão por frescuras culinárias. Concordo que mais do que falar sobre comida, devemos nos sentar e comê-la sem a necessidade de erguer alguma bandeira ou usá-la como uma forma de autoafirmação, basta que seja bem feita e os ingredientes, de boa qualidade.

O livro virou um best seller. Li em inglês, mas há tradução para o português.

6.7.12

A estudante e Good bye de Osamu Dazai


Continuo fascinada pelos textos de Osamu Dazai, ele tem um japonês até simples, mas com uma fluência narrativa e descrições muito comoventes. Li Haruki Murakami em japonês e achei que os tradutores dele para o inglês são muito fiéis ao seu estilo "cool" de escrever, o que é natural, pois uma vez li que ele tem uma relação muito próxima com seus editores nessa língua. No entanto, tenho um pouco de medo de ler as traduções dos livros de Dazai, li duas em inglês antes de começar a me dedicar aos textos originais, mas foi depois do japonês que realmente fui fisgada por seu estilo. (Mas devo confessar que os tradutores para o inglês costumam ser excelentes).

"A estudante" (女生徒) e "Good Bye" ( グッド バイ) podem ser chamados de contos longos ou romances curtos. No primeiro texto, acompanhamos um dia na vida de uma adolescente. Ficamos sabendo que seu pai morreu recentemente e que ela sente sua falta, que sua irmã mais velha se casou e foi morar em uma província afastada e também que ela se acha estranha, esquisita, mal-comportada e acredita que desaponta a sua mãe por isso. Como ocorre com qualquer adolescente, seus sentimentos vão de um extremo a outro em questão de minutos. Uma hora ela está contente e logo depois fica com vontade de chorar e ferir alguém. Texto ágil, simples e bonito sobre a adolescência.

Brinquei de traduzir o começo:

"Manhã. A sensação que tenho ao abrir os olhos é curiosa. Como quando brinco de esconde-esconde e fico agachada em completo silêncio dentro do guarda-roupa escuro, de repente, Deko abre totalmente a divisória, os raios de sol entram abruptamente e ela grita "Achei!". A luminosidade, um mal-estar momentâneo, a palpitação no peito, ajeito a frente do quimono e saio do guarda-roupa um pouco embaraçada, de repente, fico irritada, nervosa. É essa sensação. Não, não é essa sensação, é mais intolerável. Como quando se abre uma caixa e há uma outra caixa menor em seu interior e quando esta é aberta, ainda há outra caixa menor ali dentro, essa caixa então é aberta e descobre-se mais uma caixa, e outra, e outra, e mais outra. Então, após abrir sete, oito caixas, finalmente há uma caixa do tamanho de um dado e quando ela é cuidadosamente aberta, não há nada ali dentro, vazia. É essa sensação, ou algo bem próximo. Abrir os olhos e estar completamente desperta, isso é mentira. Turvo, o amido lentamente desce e se deposita no fundo, aos poucos ocorre a decantação e meus olhos cansados se abrem. A manhã é, de certa forma, falsa. Muitas, muitas coisas tristes pairam em meu peito, é insuportável. Odeio isso. Odeio isso. Sou horrorosa de manhã. Minhas pernas estão exaustas e já não sinto vontade de fazer mais nada. Pode ser porque não durmo direito. Dizer que a manhã é saudável, isso é mentira. A manhã é cinza. Sempre, sempre a mesma. A parte do dia mais vazia. Sempre sou pessimista de manhã enquanto estou debaixo das cobertas. É detestável. Vários arrependimentos horríveis se amontoam de uma só vez, apertam meu peito e acabo me contorcendo".

"Good bye" é uma obra incompleta, infelizmente, pois começa de forma muito interessante. Um homem na casa dos trinta anos decide mudar de vida, chamar esposa e filha para viverem com ele em Tóquio, parar de trabalhar com contrabando e ser uma pessoa correta, mas, para isso, primeiro deve dar um jeito de terminar o relacionamento que mantém com várias mulheres. Um conhecido sugere que ele encontre uma mulher estonteamente bonita e desfile com ela diante de suas amantes para que elas cheguem à conclusão de que não têm nenhuma chance com ele. Seu grande problema é encontrar a mulher ideal para desempenhar esse papel. Ele a procura em todos os lugares possíveis sem sucesso, está quase desistindo quando ouve alguém com uma voz de corvo gritar seu nome. É uma mulher que também trabalha no mercado negro. Ele sempre a achou extremamente vulgar e mal-vestida. No entanto, naquela noite ela usava roupas ocidentais e estava belíssima. Era a mulher que procurava. Ele explica sua situação e diz que está disposto a pagar para que ela o acompanhe em suas visitas às amantes. Ela aceita a proposta. Ele estabelece duas condições: que ela se mantenha calada nessas ocasiões e não coma nada, pois sua voz e seus modos à mesa são terríveis. Seu plano é um sucesso, mas sua "beldade" sempre dá um jeito de gastar seu dinheiro e de irritá-lo, ele a acha tão insuportável que passa a nutrir um grande rancor por ela. Sua ideia é dar-lhe uma lição, humilhá-la. O texto acaba aí com a morte de Dazai.

27.6.12

Osamu Dazai - O sol poente



Terminei de ler este livro de Osamu Dazai recentemente, o título, em japonês, traz os ideogramas de "inclinação, declínio" e de "sol" (斜陽). Ele narra o fim de uma família aristocrática em um período de transição no Japão após a segunda guerra. O texto é praticamente o diário de Kazuko, uma mulher divorciada de vinte e nove anos que conta como ela e sua mãe são obrigadas a venderem a casa que possuíam em Tóquio após a morte de seu pai e a se mudarem para uma casa menor em um vilarejo isolado. A vida inicialmente idílica se torna cada vez mais sufocante, sem perspectivas, ela passa o tempo todo cuidando da casa e de sua mãe, cuja saúde se deteriora após a mudança. 

Seu irmão se junta às duas após retornar da guerra. Ele é um intelectual com pretensões de se tornar um escritor, mas se limita a gastar o resto do dinheiro da família em Tóquio, onde passa os dias bebendo e fumando ópio na companhia de boêmios e mulheres em uma tentativa de esquecer sua incapacidade de se conformar com o tipo de vida que a sociedade lhe impõe. 

Kazuko quer algo mais para si, em suas palavras, pretende ser uma "revolucionária" e travar sua própria batalha com o mundo. Ela escreve cartas para um escritor mais velho com quem seu irmão costuma beber e revela que deseja ter um filho dele, os dois passam uma única noite juntos e, em sua última carta, ela escreve que está grávida e feliz com a perspectiva de criar aquela criança sozinha. Nesse momento, ela é o único membro restante de sua família, pois sua mãe morreu de tuberculose e seu irmão cometeu suicídio na noite em que ela foi para Tóquio encontrar seu escritor.

Cada capítulo abre uma porta para o seguinte e se fecha. Gostei muito do livro, há poesia e também crítica ao período de crise de valores pelo qual passa a sociedade japonesa. 

Dazai é um escritor de imagens belas e também cruéis. No instante em que Kazuko reencontra o escritor que não via há seis anos, ela percebe os efeitos do tempo em sua aparência e fica chocada. Há bolsas sob seus olhos, menos dentes e ela o compara a um velho macaco.

Minha tradução do japonês:

"Aquele era o seu arco-íris? Aquela pessoa era seu M.C., sua razão de viver? Seis anos. Os cabelos desgrenhados eram os mesmos, mas estavam tristemente avermelhados e desbotados, o rosto estava amarelo e inchado, as bordas dos olhos ficaram caídas e vermelhas. Ele perdera os dentes da frente e movia os maxilares sem parar. Um velho macaco parecia estar sentado no canto da sala com as costas curvadas."

Também há um outro trecho de que gostei muito, Kazuko está tricotanto uma blusa e usa a lã de um antigo cachecol feito para ela por sua mãe e de cuja cor rosa pálida ela nunca gostara. De repente, ela olha para a lã e para o céu nublado e percebe que aquela cor é perfeita para dias cinzentos e se dá conta de que sua mãe a tinha escolhido de propósito. Aquela pequena atenção a comove e ela lamenta não ter usado aquele cachecol no passado.

Enfim, muito boa literatura.


10.6.12

Osamu Dazai - Fábulas



Osamu Dazai é um dos grandes escritores japoneses do século passado, como mencionei antes, ele morreu cedo, após algumas tentativas frustradas de suicídio. Li Blue Bamboo, uma coletânea de contos traduzidos para o inglês, há algum tempo e Otogizoshi (Fábulas) vem completar a série. Neste volume, o autor reescreve, à sua maneira, alguns dos mais tradicionais contos japoneses, como "O velho com o caroço no rosto" (não encontrei tradução melhor para o título em japonês), "Urashimataro", "A montanha Kachi-kachi" e "O Pardal com a língua cortada". 

Sei que nem todos são familiares com os enredos dessas fábulas, então, faço um breve resumo:

"O velho com o caroço no rosto" é sobre um homem que sobe uma montanha, bebe um pouco mais do que devia, adormece e acorda apenas após o anoitecer. Ele vê um grupo de demônios se divertindo e bebendo e, como ele mesmo ainda não está completamente sóbrio, decide participar da festa. Os demônios acham aquele velho tão divertido que decidem que ele deve voltar na noite seguinte, para garantir que isso ocorra, os demônios tomam um caroço incômodo que ele tem em uma das bochechas como refém e dizem que eles só irão devolvê-lo caso o velho volte para entretê-los, o que naturalmente ele não faz. (Note que os demônios japoneses geralmente tem um único chifre no meio da testa, daí o mal-entendido).

"Urashimataro" conta as aventuras do personagem de mesmo nome que salva uma tartaruga das mãos de algumas crianças. (Ninguém aí se lembra da propaganda da Varig nos anos 80?). Como agradecimento, a tartaruga o leva até um reino fantástico no fundo do mar. Lá, todos os seus desejos são satisfeitos e ninguém o contraria, mas a saudade de sua terra e de sua família um dia aperta e ele decide voltar. O fim é triste, pois os poucos dias no fundo do mar correspondem a centenas de anos no continente.

Em "A montanha kachi-kachi", vemos um coelho (ou coelha, isso é controverso, o autor acha que apenas um ser do sexo feminino seria capaz das crueldades descritas na fábula) fazer de tudo para afastar um guaxinim meio bobão e aproveitador que o/a incomoda todo o tempo. O guaxinim é chato, mas o/a coelho/a é bem malvado/a...

"O pardal com a língua cortada" é sobre um homem casado com uma mulher muito mesquinha, um dia ela arranca a língua de um pardal que o marido encontra ferido e pelo qual ele demonstra muita afeição.

Todas os fábulas são bem conhecidas, mas Osamu Dazai dá seu toque pessoal a cada uma delas, criticando as incongruências e mesmo a falta de lógica de alguns pontos. Alguns diálogos entre os personagens são bem cômicos, como os que ocorrem entre o guaxinim e o/a coelho/a, outros, são mais cansativos.