18.6.10

Sardinhas fritas com cebolas caramelizadas e passas


 

Vizinhos barulhentos, sacos plásticos difíceis de abrir, sacos de lixo que furam, gás que acaba em  momentos cruciais e frituras são algumas das coisas mais destestáveis do mundo. Por essa razão, raramente frito sardinhas em casa, ela fica empesteada com o odor de peixe frito. Se um dia eu tiver a chance de construir minha cozinha ideal, eu preferiria que ela ficasse em um cômodo separado da casa, ou em uma parte da casa com um pé direito mais alto e um tipo de claraboia lá no alto para ventilação. Vi casas assim algumas vezes na televisão e achei as ideias geniais. Em um futuro imediato,  penso em comprar um  pequeno braseiro para grelhar minhas sardinhas e outros peixes do lado de fora, como os portugueses costumam fazer. Isso talvez perturbe os cães dos vizinhos, mas já quebraria meu galho.

Enfim, como parece ser impossível comer sardinhas fritas fora de casa, de vez em quando eu acabo me resignando e frito uma porção. Desta vez elas foram acompanhadas por uma espécie de "molho" de cebolas caramelizadas ligeiramente agridoces e apimentadas. A idéia foi inspirada em uma receita do David Lebovitz (autor de um de meus blogs preferidos), na receita original, as sardinhas são servidas frias, mas como preferi consumi-las quentes, reduzi a quantidade de vinagre e não adicionei o vinho branco. Outra alteração que fiz foi em relação ao tempero, eu temperei as sardinhas com sal, pimenta e suco de limão e depois passei pela farinha.

Ficaram ótimas! Passo a receita original com minhas alterações entre parênteses.

Sardinhas fritas com cebolas caramelizadas e passas

óleo para fritar
1/4 x (35g) de farinha
3/4 c chá de sal + um pouco para temperar a farinha
pimenta do reino
450g de sardinhas limpas e sem espinhas
450g de cebolas brancas ou roxas, descascadas, cortadas ao meio e fatiadas
2 c sopa de azeite
1 c sopa de açúcar
uma pitada generosa de pimenta calabresa
1/3 x de pinolis (não usei)
1/2 x (125ml) de vinagre de vinho branco
1/3 x (80ml) de vinho branco (não usei)
2 folhas de louro
1/4 x (35g) de passas claras

Aqueça o óleo em uma frigideira antiaderente, o suficiente para ter cerca de 1cm de profundidade.

Enquanto o óleo esquenta, coloque a farinha em um prato e tempere-a com sal e pimenta. (Eu temperei as sardinhas com sal, pimenta e suco de limão ao invés de usar a farinha temperada). Empane as sardinhas do dois lados, retire o excesso de farinha com batidinhas leves e frite uma quantidade pequena de cada vez. Comece pelo lado sem pele, deixe dourar um pouco, vire e frite o lado com pele. Retire e coloque sobre papel toalha para absorver o excesso de gordura. Repita o processo com as sardinhas restantes.

Depois de fritar todas as sardinhas, retire o excesso de óleo da frigideira, reduza a temperatura do fogo e adicione cebolas, azeite, sal, açúcar e pimenta calabresa. Cozinhe, mexendo de vez em quando, até que as cebolas murchem e fiquem bem macias. Cerca de 20-30 min. (Cuidado! Eu quase queimei as minhas).
Enquanto a cebola cozinha, toste os pinolis no forno à 160C por cerca de 6 min, mexendo com frequência para que não torrem.

Depois que as cebolas estiverem cozidas, adicione vinagre, vinho, folhas de louro, passas e pinolis. Retire do fogo e deixe esfriar.

Faça camadas de sardinhas e cebolas em uma travessa, terminando com uma camada de cebolas. Derrame a marinada que sobrou sobre o peixe, cubra com filme plástico e deixe na geladeira.

O David sugere que as sardinhas sejam acompanhas por um pão rústico besuntadas com uma boa manteiga. Como se fossem "bruschettas" ou "tapas". Elas podem ser conservadas na geladeira por até dois dias, mas são melhores servidas à temperatura ambiente.


15.6.10

Mukoda Kuniko - Jogo da memória

Este foi o livro que minha professora de japonês me emprestou. Ela chegou à conclusão de que a melhor forma de melhorar meu vocabulário na língua era lendo. Essa sempre foi minha crença e aprendi muito do meu inglês e francês lendo romances. Eu entendo a idéia geral dos textos em japonês, mas confesso que ainda estou longe de ter um grande domínio da língua e de captar todas as sutilezas de um texto literário. Tampouco consegui me livrar do dicionário, pois cada frase contém vários kanjis (ideogramas) desconhecidos. Como os kanjis usados para representar algumas palavras mudaram de alguns anos para cá devido a reformas ortográficas, a tarefa é ainda mais exaustiva. Entretanto, gostei de ler os contos da Mukoda Kuniko (ou Kuniko Mukoda, como se diria à maneira ocidental).

Também é o meu primeiro contato com uma autora japonesa. Conhecia apenas a Banana Yoshimoto (seu verdadeiro nome é Mahoko Yoshimoto, os japoneses parecem ter uma fixação pelas frutas tropicais, outro dia vi uma garota chamada "Papaya" na TV), mas nunca li nada dela. No futuro, pretendo ler Kitchen, seu primeiro livro.

Voltando a Kuniko Mukoda, o livro é composto de contos curtos, cujo assunto principal é o relacionamento familiar. Admiro muito a forma como os escritores japoneses conseguem ser quase pintores quando descrevem uma cena, e a Kuniko Mukoda não é diferente. O material básico de seus textos são assuntos bem triviais. Ela transforma o cotidiano em uma descoberta constante.

Tudo começa com um incidente qualquer que faz com que o protagonista se lembre de um evento do passado. Um marido compara a mulher com as lontras que ele viu quando era mais jovem, um marido observa a filha acenar de uma janela e se lembra da mãe que tivera um caso com um empregado de seu pai, uma mulher grávida observa um homem adormecido dentro de um trem e se dá conta de que foi ele quem construi a casa de seu cão há vários anos.

Coisas simples e também grostecas. Como a mãe que se orgulha de ter aprendido a afiar e a usar perfeitamente uma faca e acaba cortando um pedaço do dedo do filho enquanto fatiava um presunto e passa a não suportar mais a palavra "dedo". Em "Manhattan", um homem é abandonado pela esposa e se interessa pela hostess de um bar que dá o título do conto, uma mulher que ele compara a Olívia Palito. O texto começa assim:

"Depois que a mulher o deixou, Mutsuo aprendeu várias coisas. O pão endurece em três dias, o pão de forma embolora em uma semana e o pão francês se transforma num pedaço de pau dentro de um mês. Mesmo que o leite fique na geladeira, após uma semana ele se torna perigoso. Do interior da geladeira, surgiu um pacote de plástico com um líquido verde. Ele não se lembrava de ter comprado um sorvete verde. Depois de forçar a memória, lembrou-se de que aquilo era o pepino que Sugiko, sua esposa, havia guardado três meses atrás."

Mukoda lança a ponta de uma corda que o leitor vai puxando aos poucos para ver o que há no final. Há uma coletânea de contos traduzidos para o inglês à venda na Amazon, os mesmos que eu li. O título em japonês poderia ser traduzido como "Jogo da memória" ou "Baralho de memórias", não sei bem como um japonês traduziria, pois "Toranpu" pode se referir tanto às cartas propriamente ditas quanto ao ato de jogar cartas.

Minha professora me disse que Kuniko Mukoda vivia sozinha e costumava deixar a casa sempre arrumada porque não queria que ninguém visse tudo bagunçado caso algo ruim acontecesse em suas viagens. E ela morreu num acidente de avião em 1981, aos 51 anos.

(Já estou lendo um segundo livro em japonês, uma coletânea de contos policiais/mistério, minha professora anda entusiasmada, mas esse eu vou demorar para ler.  No momento,  o livro que eu estou morrendo de vontade de devorar é 1Q84, a última obra do Haruki Murakami que saiu no Japão em três (TRÊS!) volumes, o último foi publicado em abril. Não sei quando sai a tradução para o inglês, mas não tenho coragem de pagar 50 dólares só de frete na Amazon japonesa, haja paciência! Murakami no original, isso sim seria o máximo!).


13.6.10

Dentro do ônibus IV

Quantas horas em ônibus! Fico estupefata quando penso no  tempo que levava em idas e  vindas do colégio e, depois, da faculdade. Levantava de madrugada, acordava minha mãe para ela abrir e fechar o portão quando tudo ainda estava escuro, às vezes a única coisa que via eram os círuculos brancos ao redor das  lâmpadas iluminando a neblina na rua.

A rua vazia, o ponto vazio que se povoava aos poucos. Eu tinha um pouco de medo,  mas não tinha opção,  vida proletária é assim. Ônibus cheio, o vapor se condensava nas janelas fechadas. "Um passo para trás!", gritava o cobrador. Felizmente, a volta era mais tranquila.

De vez em quando ainda tomava o ônibus até a cidade vizinha mais uma vez para encontrar os amigos, ir ao cinema, ao teatro, ou para jogar conversa fora em especulações sobre a vida, sobre nossos futuros brilhantes.

Ao contrário da manhã, o ônibus quase sempre estava vazio. Ele atravessava a noite pontilhada pelas luzes de algumas casas. Descia na cidade também despovoada e caminhava pelas ruas com passos apertados. Não sei como tinha coragem. À noite, a cidade era a carcaça vazia de algum animal.

Tantas horas, tantas...

 

10.6.10

Bacalhau com natas

Estou tentando aumentar meu repertório de receitas com bacalhau. Esta receita é uma adaptação  daquela que vi no blog da Nô (ainda vou experimentar várias receitas de lá!).

Bacalhau é um prato que ainda estou aprendendo a preparar direito. Demorei horrores até aprender a dessalgá-lo. Ainda estou aprendendo, mas atualmente acho que tudo é uma questão de paciência, não adianta comprar um pedaço grosso e querer servi-lo no dia seguinte. Da última vez eu cortei o lombo que o O. comprou em postas e deixei de molho na geladeira por cerca de seis dias, trocando a água regularmente. (Se as postas forem finas, o tempo de molho pode ser reduzido). Depois coloquei tudo em uma panela com água fervente, desliguei o fogo e deixei tampado até atingir uma temperatura que me permitisse manusear as postas para retirar as espinhas e a pele. Ficou perfeito.

Nesta receita, não fritei a babata, eu a temperei com sal e pimenta, coloquei um pouco de azeite, misturei bem e assei até que ficasse macia.

Gostei muito do prato.



Bacalhau com natas


600g de batatas descascadas e cortadas em pequenos cubos e temperadas a gosto (usei só sal e pimenta)
2 lombos de bacalhau dessalgados, cozidos, sem pele e sem espinhas, em lascas
2 cebolas fatiadas
4 dentes de alhos cortados em lâminas
4 c sopa de azeite
salsinha
sal e pimenta a gosto

Frite as batatas em óleo até que fiquem clarinhas e firmes. (Eu assei, leia o comentário acima). Coloque para escorrer em papel absorvente. Forre o fundo de um refratário com as batatas já sequinhas. Sobre elas, coloque as lascas do bacalhau cozido. Reserve.

Em uma frigideira, coloque o azeite, o alho e a cebola e refogue até que a cebola fique transparente. Tempere com sal, pimenta e salsinha picada. Arrume as cebolas e o alho sobre as lascas de bacalhau e regue com o azeite da frigideira. Reserve.


Prepare o molho de natas

2 c sopa de manteiga
2 c sopa de farinha de trigo
500ml de leite (mais ou menos)
sal
pimenta
noz-moscada
200ml de creme de leite
2 c sopa de queijo ralado

Numa panela, derreta a manteiga. Junte a farinha e misture até começar a cozinhar. Adicione leite aos poucos, mexendo sempre até obter um creme homogêneo. Tempere com sal, pimenta e noz-moscada. Junte o creme de leite e o queijo ralado. Cozinhe até obter um molho consistente. Corrija o sal, se necessário. Coloque o molho sobre a camada de cebola e alho. Reserve.

Polvilhe o molho com uma farofa feita com 1 c sopa de farinha de rosca, 3 c sopa de queijo ralado e 1/2 c chá de páprica. Leve ao forno para gratinar.

31.5.10

Dentro do ônibus III

Nenhum ônibus me preparou para aquele que teria que encarar depois de vir habitar o castelo (?) de meu príncipe encantado. Ele passa por aqui quatro vezes por dia em horários esquisitíssimos. Primeiro ouço seu som longíquo, depois vejo o pó que sua carroceria levanta e, finalmente, ele surge na curva da estrada.

Nos bons tempos eu levava um lenço para limpar os bancos cobertos de poeira, mas hoje em dia eu me limito a usar uma roupa que possa sujar sem dramas. Ele transforma os 8km que me separam da civilização em uma hora de viagem. Uma hora sacolejando por várias estradas de terra, percorrendo fazendas, atravessando canaviais, bambuzais, engolindo poeira vermelha.

Eis o elo vital que liga a área rural a aquilo que poderia ser chamado de minha cidade, mas que eu considero apenas um ponto de passagem para algum outro lugar, um outro lugar muito desejado, porém ainda indefinido.


23.5.10

Summertime - J.M. Coetzee


Último romance lido (se é que se pode chamá-lo assim). Último livro do Coetzee. Ele supostamente é a compilação de relatos de algumas pessoas que conheceram o autor no período em que ele tinha cerca de trinta anos e vivia na África do Sul. Há até mesmo uma brasileira entre as mulheres que teriam tido algum tipo de relacionamento com ele.
Coetzee faz uma brincadeira consigo mesmo, pois os relatos teriam sido recolhidos após a sua morte. Macabro? Acho que não, parece mais uma forma de estragar o prazer dos futuros biógrafos e misturar ficção com realidade.
Como sempre, ele não é nada generoso consigo mesmo, todos o descrevem como um tipo esquisito, isolado, com dificuldades para se relacionar com outras pessoas, um peixe fora d'água. O sucesso posterior e a fama como autor praticamente ficam em segundo plano e os relatos sobre o contato de cada uma das pessoas com Coetzee servem mais de pretexto para que elas falem sobre suas próprias vidas e também sobre a Africa do Sul, o apartheid, as barreiras de relacionamento. De certa maneira, Coetzee deixa entrever por que deixou o país quando era jovem e imigrou definitivamente para a Austrália depois de se tornar um autor famoso.
Leitura agradável, texto bem escrito, como era de se esperar, mas não se tornou um de meus favoritos do autor.


2.5.10

Dentro do ônibus II

Mais uma para a série dentro do ônibus.

***

Entrei no ônibus que estava parado no terminal pela manhã e me sentei. Havia umas poucas pessoas em outros assentos. Um senhor de uns 60 anos entra e vai lá para a frente do corredor e começa o seu discurso:

"Pessoal, desculpe incomodar vocês, mas eu preciso comprar uma passagem para ir até X (nome de uma cidade da região) para o enterro da minha filha que morreu em um acidente de moto. A passagem custa R$ 21,00, quem me ajuda a completar a passagem, pelo amor de deus? Eu sou um humilde sorveteiro que trabalha aqui pelo terminal. Quem me ajuda?"

Ele anda pelo corredor esperando pelas contribuições, um pedaço de mim, uma parte que sente um pouco de vergonha e culpa, fica se remoendo sobre se deve ou não dar alguma coisa, mas aguento firme, por princípio, não dou dinheiro para quem o pede, mas algumas pessoas dão uns trocados.

"Deus abençoe a todos! E gente, moto é uma coisa muito perigosa, não andem de moto!", completa, após certificar-se de que ninguém vai dar mais nada.

Logo que ele desce do ônibus, uma mulher se vira e diz que aquele senhor repete a mesma coisa todos os dias, todos ficamos indignados. Dizer que a filha morreu todos os dias, que é isso?

Poucos minutos depois, não sei se por distração ou se pelo fato do ônibus ter ficado mais cheio, o mesmo senhor entra outra vez e repete a mesma ladainha. Ninguém fala nada enquanto os recém-chegados estendem os seus trocados, só balançamos a cabeça enquanto ele se apressa para sair do ônibus prestes a entrar em movimento.

1.5.10

Memórias de um nômade - Paul Bowles


Essa é uma de minhas leituras recentes. Li "O céu que nos protege", obra mais conhecida do autor, há mais de 15 anos atrás e não me lembro direito dos detalhes da história, nem de se gostei ou não, enfim, ela não deixou uma impressão muito forte. Também vi o filme de Bernardo Bertolucci e a sensação é a mesma. Acho que o mais interessante é o exotismo do cenário, o deserto do norte da África.
As Memórias de um Nômade cobrem a infância e parte da vida adulta de Paul Bowles, ele escreve sobre seu cotidiano na Nova York do começo do século XX, a relação conflituosa com o pai, sua vida com a esposa, Jane, e, principalmente, sobre as suas viagens pelo mundo. Período que se inicia quando atinge a maioridade, com uma "fuga" para Paris, e termina no Marrocos, país que adota para viver o resto de seus dias. Ele percorre vários países da Europa, da costa norte africana, sudeste da Ásia e América Latina.
Antes de ser conhecido como escritor, Paul Bowles trabalhava compondo trilhas musicais e acompanhamentos sonoros para peças de teatro e filmes, o que lhe dava a liberdade de ir e vir de e para onde quisesse. Se precisava de inspiração, ia até o Marrocos e alugava uma casa e um piano no lugar que julgava conveniente, quando se cansava do lugar, ia até o México onde fazia a mesma coisa.
Não sei se ele ganhava bem ou se a vida era mais barata na primeira metade do século, mas Bowles não tinha qualquer dificuldade para viver onde tinha vontade, bastava querer. Bons tempos. Ele chega até mesmo a comprar um ilha simpática em uma praia do Sri Lanka, a ilha de Taprobana. (Hoje, um hotel).
O interessante é observar como os artistas no estrangeiro formavam uma comunidade bastante solidária, quando o autor ia para um lugar novo, sempre encontrava um amigo de um amigo que estava disposto a abrigá-lo ou a ajudá-lo com algo, da mesma forma, quando ele e Jane estavam estabelecidos em alguma cidade, bastava alguém aparecer e dizer que era amigo de algum conhecido dos dois para ser bem recebido.
Entre as figuras que desfilam pelo livro (e o livro é isso mesmo, um desfile de figuras, lugares e acontecimentos) estão: Tennessee Williams, Gore Vidal, Truman Capote e Gertrude Stein, para citar apenas alguns nomes.
As viagens eram feitas à moda antiga, sem data para voltar, e geralmente de navio. Bowles lamenta o advento dos aviões, pois o charme da viagem, segundo ele, acabou se perdendo. O livro termina quando as viagens deixam de lhe dar o mesmo prazer que em sua juventude. Período que coincide com a deterioração da saúde de sua esposa.
O texto em geral é bem rápido, jornalístico, quase uma sucessão de fatos. Apenas no final, após escrever longamente sobre suas memórias, um Bowles já bem mais velho se dá ao luxo de escrever algumas reflexões sobre sua vida, por exemplo, sobre a razão de ter se fixado no Marrocos:

"Eu não escolhi morar em Tanger de forma permanente. Isso foi alheio a minha vontade. Minha estadia devia ser de curta duração, tinha a intenção de ir para outro lugar, ainda e sempre, sem jamais me fixar definitivamente. A preguiça me fez postergar a partida. Depois veio o dia em que tive que me render às evidências: o mundo não apenas estava muito mais cheio do que há apenas alguns anos, mas os hotéis estavam piores, as viagens menos agradáveis e a maioria dos lugares menos bela do que antes. A partir de então, cada vez que me encontrava em outro lugar, tinha imediatemente vontade de estar em Tanger. Se estou aqui até hoje, é apenas porque este é o lugar em que me encontrava quando compreendi que o mundo estava mais feio e que não tinha mais vontade de viajar."

E sobre a morte:

"Em minha história, por exemplo, não há vitórias espetaculares simplesmente porque eu não tive que lutar. Eu perseverei e aguardei. Acho que é o que faz a maioria das pessoas, de qualquer forma, as oportunidades de fazer algo diferente são cada vez mais raras. Os marroquinos dizem que para se viver plenamente é preciso pensar sempre na morte. Eu concordo com essa máxima sem reservas. Infelizmente, sou incapaz de conceber minha própria morte como o final de um espetáculo muito mais aterrorizante: a velhice. Eu me imagino desdentado, impotente, totalmente dependente de uma pessoa que pago para tomar conta de mim, e que pode deixar o quarto a qualquer instante para nunca mais voltar. Certamente não é isso que os marroquinos têm em mente quanto afirmam que é preciso pensar na morte. Eles consideream minhas visões como manifestações de um medo particularmente abjeto. A terapêutica de uns pode ser a tortura de outros. "Adeus, diz o moribundo ao espelho que lhe estendem. Nós não nos veremos mais." Eu citei esse epigrama de Valéry em "O céu que nos protege" porque essa visão me parecia, na época, particularmente forte. Hoje, como já não me imagino como um simples espectador, mas como o protagonista dessa cena, ela me parece repugnante. Para que o adeus soe justo, bastaria que o moribundo acrescentasse estas curtas palavras: "Graças a Deus!"."

Dentro do ônibus



Ontem, andando pela cidade e tomando um ônibus com uma enorme sacola de plástico com um cabo flevível (mangueira?) de aspirador de pó, eu fiquei pensando nas coisas esquisitas que já carreguei dentro dos ônibus. Lembrei de um galo e de um linguado. O galo era grande, vermelho e vistoso. Ele veio dentro de uma sacola de feira com os pés amarrados e deve ter levado o susto de sua vida. Eu era criança e minha mãe tinha um pequeno galinheiro, não comíamos os animais, era pura recreação, uma forma de lembrar o passado da roça dos meus pais. Chegou uma época em que o bairro cresceu demais e já não era possível manter os animais. Eles foram vendidos a contragosto e certamente viraram uma refeição.

O linguado foi idéia minha. Não sei por que raios eu decidi entrar em uma peixaria e levar um peixe para minha mãe preparar. A peixaria ficava na cidade vizinha e nem me passou pela cabeça que ele poderia estragar debaixo de um sol de meio-dia. Sei que comecei a sentir um cheiro desagradável vindo de dentro da sacola plástica em que o linguado estava embrulhado apenas em uma folha de jornal. Torcia para que ninguém mais sentisse o cheiro dentro do ônibus. Quando cheguei em casa, ele foi para o lixo. Sorte que o peixe não era muito grande e acho que já nem estava mais tão fresco porque paguei pouco por ele.

Lembranças bizarras. Qual foi a coisa mais estranha que você levou dentro de um ônibus?


27.7.09

Bolo de banana da Elise

É, outro.
Eu sempre compro bananas e mesmo assando, empanando e comendo várias todos os dias, não consigo dar cabo de todas antes que elas amadureçam demais, então preciso encontrar outras soluções. A receita desta vez é da Elise do Simply Recipes. O bolo ficou muito gostoso, denso e úmido do jeito que gosto. Piquei um restinho de chocolate que estava no armário e adicionei à massa.

Bolo de banana da Elise

3-4 bananas maduras amassadas
1/3 x de manteiga derretida
1 x de açúcar (usei demerara, coloquei pouco mais de meia xícara e achei que ficou doce na medida certa)
1 ovo batido
1 c chá de essência de baunilha (troquei por um pouco de canela em pó)
1 c chá de bicarbonato de sódio
1 pitada de sal
1 1/2 x de farinha

Preaqueça o forno à 175C. Misture a banana amassada com a manteiga. Adicione o açúcar, o ovo e a baunilha. Polvilhe o bicarbonato de sódio e o sal, misture. Adicione a farinha e mexa. Despeje a massa em uma forma de bolo inglês untada e asse por cerca de 1h ou até dourar.