22.1.14

Salada de rúcula, queijo branco e melancia com molho de nozes e hortelã


Um fenômeno estranho ocorre comigo neste começo de ano. Realmente estranho. Ando numa fúria culinária que não experimentava há tempos. Seria uma forma de procrastinação? Comecei a escrever minha dissertação no dia primeiro, como prometera a mim mesma, mas sempre que posso, fujo até a cozinha e testo receitas. Ou talvez seja apenas minha forma de arejar a cabeça e as ideias depois que escrevo. De qualquer forma, quem se beneficia é o blog.

Encontrei esta receita por acaso no uol. É uma salada da cadeia de restaurantes Viena, adorei os ingredientes e a combinação, mas fiz algumas alterações. Não adicionei cebolas e pulei a parte de temperar o queijo branco, apenas cortei e coloquei na salada junto com os outros ingredientes. Também adicionei um pouco de suco de limão ao molho. Não usei toda a quantidade de azeite pedida e tive um pouco de dificuldade para bater no liquidificador, as nozes ficaram em pedaços maiores por causa disso, mas nada comprometedor. Recomendo que faça a receita inteira e guarde o que não for usar para temperar outras saladas, só separe a parte a ser guardada antes de adicionar a hortelã para que não oxide.

Fiz metade. Muito boa!


(Só um pequeno update: sabiam que o tal do afasta-gato está funcionando? Achei que não funcionaria nas duas primeiras semanas, mas, aos poucos, deixei de encontrar "presentinhos" e agora parece que os gatos desistiram de usar o gramado como banheiro).




Salada de rúcula, queijo branco e melancia com molho de nozes e hortelã


Molho de nozes
2 c sopa de nozes
1/2 x de azeite
2 c sopa de hortelã picada
sal a gosto
suco de limão a gosto (opcional)

Queijo branco temperado (pulei esta etapa)
150g de queijo branco (tipo frescal), cortado em cubos
1/4 c chá de pimenta dedo de moça picada
1 c sopa de salsinha picada
1 c sopa de azeite

Salada
1 maço grande de rúcula higienizada
800g de melancia cortadas em cubos pequenos
100g de cebola roxa fatiada em meia-lua fina (não usei)
100g de azeitonas pretas cortadas ao meio


Molho de nozes: aqueça bem as nozes na frigideira, mas sem óleo, até tostarem. Coloque as nozes e o azeite no liquidificador e bata até ficar homogêneo. Retire do liquidificador. Adicione a hortelã e o sal a gosto, mexa bem e reserve (não bata a hortelã no liquidificador para não ficar escura).

Queijo minas temperado: Junte todos os ingredientes do tempero e misture ao queijo e reserve. 

Montagem: faça camadas de rúcula, melancia, queijo temperado, cebola roxa e azeitona. Regue com o molho e sirva. 

20.1.14

Crostata de manga



A velha mangueira de casa está em plena produção. Todas as manhãs vou até o pé e recolho as mangas que caíram durante a noite e coloco-as em baldes. As pessoas que aparecem para fazer uma entrega ou visita sempre levam uma sacola, assim mesmo, não consigo dar conta das frutas. Já fiz chutney (aqui e aqui), faço sucos, bato com iogurte... Desta vez, fiz uma crostata, um tipo de torta simples. A receita original é feita com pêssegos, mas achei que as mangas seriam boas substitutas e assim foi.

A massa é farelenta, lembra a farofa do crumble, mas, ao contrário do crumble, no qual a farofa é polvilhada sobre as frutas, ela é pressionada na forma e as frutas vão por cima como se fosse uma torta comum. A massa fica mais firme depois de assada e é possível cortá-la. Ótima com sorvete.

Adaptada daqui.



Crostata de manga


Massa
1 1/4 x de farinha
1/3 x de açúcar
1/4 c chá de sal
1/2 x de manteiga gelada sem sal cortada em cubinhos (cerca de 100g)
1 gema

Cobertura
1/4 x de açúcar
2 c sopa de farinha
2 ou três mangas de bom tamanho descascasdas e sem caroço em fatias não muito finas
canela em pó a gosto



Preaqueça o forno à 190C.

Coloque a farinha, o açúcar, o sal e a manteiga no copo do processador de alimentos, pulse até que a mistura se assemelhe a uma farofa grosseira. Adicione a gema e pulse até que fique homogênea. A massa será relativamente seca e esfarelada. Transfira para uma forma com cerca de 22cm de diâmetro (preferencialmente de fundo removível, mas não usei). Pressione essa mistura no fundo e nas laterais da forma com as costas de uma colher ou as mãos (não é necessário cobrir a lateral inteira, apenas o suficiente para ficar um pouco acima do nível das frutas).

Misture o açúcar e a farinha em uma tigela. Coloque as fatias de manga em outro recipiente e polvilhe a mistura de açúcar e farinha sobre elas, mexa com cuidado. Distribua as fatias sobre a massa, polvilhe a canela e asse por cerca de 50 minutos, até que a massa doure. Caso use uma forma com fundo removível, coloque-a dentro de uma forma maior para evitar que o caldo escorra dentro do forno. Espere esfriar e sirva com sorvete.




17.1.14

Pissaladière



Adoro essa combinação de massa semelhante a da pizza com cebolas caramelizadas e o salgado das anchovas. Tenho uma versão feita com sardinhas aqui, mas, como compramos uma lata gigante de anchovas, fiz a versão original usando uma receita do livro Around My French Table da Dorie Greenspan. A massa é muito boa, substituí 1/4 da farinha por semolina para dar mais crocância.

Seis cebolas podem parecer muito, mas seu volume diminui bastante enquanto cozinham devagar. O duro é não lacrimejar sobre a bancada na hora de fatiá-las.



Pissaladière

Massa:
1 1/4 x de farinha (substituí esse 1/4 por semolina)
1 c chá de sal
1 c chá de açúcar
2 c chá de fermento biológico instantâneo seco
1/3 x de água morna
2 c sopa de azeite
1 ovo grande à temperatura ambiente

Cobertura:
2 c sopa de azeite
6 cebolas médias cortadas ao meio e fatiadas fino
1 galho de tomilho
1 folha de louro
cerca de 12 filés de anchova conservadas em óleo
sal e pimenta a gosto
cerca de 12 azeitonas pretas


Coloque a farinha, o sal e o açúcar em uma tigela grande. Misture o fermento com a água morna e, quando este se dissolver, adicione o azeite e o ovo, mexa. Faça um buraco no meio da farinha e derrame essa mistura. Mexa até obter uma massa grosseira. Coloque-a sobre uma superfície de trabalho ligeiramente enfarinhada e sove por cerca de 5 minutos ou até que fique macia. Limpe a tigela, unte com um pouco de óleo, coloque a massa aí dentro e vire-a até que ela fique envolvida pelo óleo. Cubra e deixe em um lugar mais quente por uma hora ou até dobrar de volume.


Enquanto a massa cresce, prepare a cobertura. Aqueça o azeite em uma panela grande (antiaderente, se possível) em fogo baixo. Coloque as cebolas, o tomilho e a folha de louro, misture tudo e cozinhe, mexendo com frequência, até que as cebolas fiquem translúcidas, macias e douradas (cerca de 45 minutos). Enquanto as cebolas cozinham, pique seis anchovas. Depois que elas cozinharem, retire a panela do fogo, junte as anchovas, que se dissolverão na mistura de cebolas, e tempere com sal e pimenta. (Eu acho o sal das anchovas suficiente). Reserve. (A mistura pode ser mantida em panela coberta à temperatura ambiente por algumas horas e um dia dentro da geladeira).


Preaqueça o forno à 210C. Forre uma forma grande com papel manteiga (ou polvilhe um pouco de farinha).

Pressione a massa para retirar o ar, coloque-a sobre uma superfície ligeiramente enfarinhada, cubra com um pano de prato e deixe descansar por 5-10 minutos. Abra até que fique com cerca de 25x36cm. Transfira para a forma e cubra com a mistura de cebolas deixando cerca de 2cm da borda da massa livres.

Asse por 20 minutos ou até que a massa doure. Retire do forno, decore a superfície com as azeitonas e o resto das anchovas e asse por mais 5 minutos ou mais, apenas para aquecer o que foi adicionado. Sirva quente, morno ou à temperatura ambiente. (Com uma salada para uma refeição leve).


15.1.14

Polenta com alecrim



A polenta durinha nunca me atraiu, nem mesmo frita, então, ter gostado desta receita é algo realmente inédito. Comi algumas colheradas enquanto estava quente, grelhada em uma frigideira depois de fria e, quase no final, cortada, empanada em ovo e farinha de rosca e assada (minha versão favorita). Mas não se trata de uma receita qualquer, ela é generosa em todos os sentidos, leva parmesão, creme de leite, manteiga e azeite. Nada light, mas fica deliciosa!

Se quiser cortar um pouco das calorias, reduza a quantidade de manteiga ou substitua parte do creme de leite por leite.

Fiz metade da receita, ela ficou um pouco fina porque usei uma forma maior do que deveria. Na foto acima, cortei antes de esfriar, por isso, o corte não ficou muito bonito. Abaixo, empanado e assado. Daqui.



Polenta com alecrim


100g de manteiga sem sal 
1/4 x de azeite 
1 c chá de alho picado (3 dentes)
1 c chá de pimenta calabresa em flocos, ou a gosto
1 c chá de folhas de alecrim picadas
1/2 c chá de sal, ou a gosto
1/2 c chá de pimenta do reino
3 x de caldo de frango (*) 
2 x de creme de leite
2 x de leite
2 x de fubá (usei kimilho)
1/2 x de um bom parmesão ralado
farinha, azeite e manteiga para fritar

(*) Preferencialmente feito em casa, quando tiver restos de frango assado, cozinhe com aipo, salsão, cebola, cenouras, alho e água, coe e congele para usar quando precisar. Prefiro usar água a usar o cubo pronto, mas se preferir usá-lo, reduza o sal da receita.

Aqueça a manteiga e o azeite em uma panela grande. Adicione o alho, a pimenta calabresa, o alecrim, o sal, a pimenta do reino e frite por um minuto. Adicione o caldo de frango, o creme de leite, o leite e espere ferver. Retire do fogo e vá polvilhando o fubá enquanto mistura. Cozinhe em fogo baixo, mexendo sempre por alguns minutos até engrossar e começar a borbulhar. Retire do fogo, adicione o parmesão e coloque em um refratário de cerca de 22x30cm. Alise a superfície com uma espátula e refrigere até esfriar e ficar firme.

Quando for servir, corte em pedaços, polvilhe um pouco de farinha, frite em uma frigideira com 1 c sopa de azeite e 1 c sopa de manteiga e doure dos dois lados e o interior seja aquecido. Faça isso aos pouco e adicione mais manteiga ou azeite conforme haja necessidade.

Nota: Eu simplesmente grelhei em uma frigideira antiaderente. Se preferir, você também pode passar no ovo batido, empanar com farinha de rosca, colocar em uma forma untada com óleo ou azeite e assar até dourar. Vire uma vez para dourar dos dois lados.





13.1.14

Sangria com pepino e melão


Fazia algum tempo que estava com vontade de preparar sangria. Sempre que ia a restaurantes onde havia jarras de sangria no menu, ficava com vontade de experimentar, mas o O. não gosta e acabava pedindo outra coisa. Ele diz que não passa de um ponche feito com um vinho ruim, algo bom para adolescentes. Bem, talvez mulheres gostem mais da combinação vinho-frutas. Com esse calor, resolvi tomar coragem e testei uma receita com vinho branco. Fiz metade da receita, usei uma garrafa pequena de um vinho branco da Miolo.

Sinceramente, não gostei muito da receita tal qual, achei sem graça. Ficou diluída depois que adicionei a água com gás, mas melhorou um bocado depois que "batizei" com um pouco de Drambuie. O. bebeu o dele com um pouco de Parfait Amour. Licores à base de laranja funcionariam bem: Triple Sec ou Grand Marnier. É melhor adicionar a água no copo e checar se está bom, se tiver que adicionar gelo, acho que realmente é aconselhável adicionar algum licor. O bom é que não é preciso seguir as medidas exatas, o ideal é adicionar os ingredientes como mel e água e checar se agrada ao seu paladar. Juntei folhas de manjericão também.




Sangria com pepino e melão

1 melão pequeno sem sementes, descascado e picado (usei bem menos melão porque ele era grande, se possível use um daqueles melões verdes pequenos que soltam mais líquido)
1 pepino bem lavado sem as sementes cortado em fatias finas
1 limão tahiti fatiado
12 folhas de hortelã (fui bem mais generosa, também coloquei folhas de manjericão)
1/4 x de suco de limão
1/4 x de mel
1 garrafa de 750ml de vinho branco gelado
1 garrafa de água com gás gelada (não há especificação de qual o volume da garrafa, assumi que fosse o mesmo da garrafa de vinho, assim mesmo, adicionei bem menos)

Coloque o melão, o pepino, as fatias de limão e a hortelã em uma grande jarra. Misture o mel com o limão em outro recipiente e junte aos ingredientes da jarra. Adicione o vinho, misture com cuidado, cubra e deixe gelar por ao menos 2 horas. Na hora de servir, junte a água com gás.


10.1.14

Salada de cenouras, alcaparras e anchovas


Salada simples e gostosa feita com folhas de salsinha (as folhas inteiras lavadas e sem o caule), filés de anchova, alcaparras passadas em água, vinagre balsâmico e azeite. Descasque e corte as cenouras em fatias finas (eu não costumo descascar cenouras, só lavar bem e, como podem ver, as fatias não ficaram assim tão finas). Cozinhe com um pouco de água por alguns minutos (eu gosto mais al dente), escorra, coloque em uma tigela e junte a salsinha. Pique os filés de anchovas com as alcaparras, faça um molho com o vinagre e o azeite. Tempere a salada, prove e corrija o tempero se necessário.


Receita daqui.


8.1.14

Torta de abóbora e gorgonzola


Receita leve, bem, mais uma ideia do que uma receita propriamente dita, pois trata-se de uma torta "Frankenstein". A massa é da Dorie Greenspan e o recheio foi adaptado de outra receita. O resultado foi uma torta enganadoramente leve e saborosa.

Não usei quantidades exatas de abóbora e gorgonzola, fica a gosto.

Foi a primeira vez que preparei a massa no processador e gostei do resultado. A Dorie dá mais dicas sobre o procedimento aqui. Se preferir, use a receita de sua preferência ou compre a massa congelada, que mal há nisso?



Torta de abóbora e gorgonzola

Massa

1 1/2 x de farinha
1 c chá rasa de sal
1 c chá de açúcar
1/2 x de manteiga sem sal gelada e picada em cubinhos (cerca de 100g)
1 ovo grande
1 c chá de água gelada
1 clara de ovo

Pulse o sal, o açúcar e a farinha no processador. Adicione a manteiga e pulse até obter uma espécie de farofa grosseira. Misture o ovo e a água em outro recipiente e adicione à mistura de farinha no processador. Pulse até que a massa comece a se aglomerar e a ficar úmida. Ainda não será uma massa bem homogênea (veja a foto aqui). Transfira para uma superfície de trabalho e amasse gentilmente até que a massa se forme, isso deve ocorrer após quatro sovas. Molde uma bola e abra com um rolo para formar um disco grosso. Embrulhe em filme plástico e deixe na geladeira por 1 hora.

Abra a massa em uma superfície ligeiramente enfarinha e coloque-a em uma forma redonda de cerca de 22 cm. Forre o fundo e as laterais, corte o excesso e deixe na geladeira por mais uma hora.

Preaqueça o forno à 200C. Unte uma folha de papel alumínio grande com manteiga e coloque-a sobre a massa com a parte untada voltada para baixo. Coloque algum tipo de grão de que não vá precisar sobre a massa para pressioná-la e impedir que estufe enquanto assa. Asse por 20 minutos, remova o papel alumínio com os grãos (você pode guardá-los para usar outras vezes, mas não servem para serem consumidos). Pique a massa com um garfo cerca de 10 vezes. Asse por mais 10 minutos, ou até dourar. Pincele com a clara de ovo e deixe esfriar. A massa pode ser preparada 6 horas antes de receber o recheio.


Recheio

Cerca de 1/4 de abóbora kabocha descascada, cortada em fatias não muito grossas (ou em cubos, como preferir), besuntada com um pouco de azeite, temperada com sal e assada até ficar macia
gorgonzola ou roquefort esmigalhado
1 x de creme de leite
2 ovos 
noz moscada a gosto
sal a gosto (lembre-se de que o queijo e salgado)

Bata o creme de leite com os ovos, tempere com a noz moscada e o sal.
Distribua a abóbora sobre a massa, espalhe o queijo esmigalhado sobre ela e cubra com a mistura de creme de leite e ovos. Leve para assar por cerca de 25 minutos. 
Se quiser, adicione mais algum queijo.


4.1.14

Chutney de abacaxi e manga


É tempo de mangas. A mangueira de casa continua nos agraciando com muitas frutas, no entanto, tenho a impressão de que a árvore está secando, galhos estão caindo e às vezes acho que seria mais seguro cortá-la, mas sempre hesito. 

Fiz chutney usando uma manga e meio abacaxi que estava um pouco ácido. Ficou bom. Chutney é algo muito simples de fazer e caro para comprar. Gosto de consumi-lo com carne de porco assada, também fica gostoso com frango ou peru. Ele também pode ser usado para incrementar sanduíches que levam as mesmas carnes. Algumas pessoas misturam maionese e usam como tempero do coleslaw, a salada de repolho, ainda não experimentei, mas parece interessante.


Já publiquei receitas de chutney só de mangas e também feito com maçãs. Invariavelmente, ele sempre leva uma fruta, açúcar, gengibre, vinagre e especiariais, estas últimas podem variar muito: curry, canela, pimenta, cravo, cominho, cúrcuma, enfim, uma variedade bem grande. Várias receitas também levam passas. Acho que foi a primeira vez que usei curry. Pique bem o abacaxi se não quiser que fique muito "pedaçudo".

Fiz meia receita. Daqui.




Chutney de abacaxi e manga

2 c sopa de óleo
1 c chá de pimenta calabresa em flocos
1 cebola picada
um pedaço de gengibre com cerca de dez centímentros descascado e bem picado (usei menos)
1 pimentão amarelo picado (usei vermelho)
3 mangas maduras grandes, descascadas, separadas do caroço e cortadas em cubos
1 abacaxi pequeno descascados e picado
1/2 x de açúcar mascavo (ou demerara)
1 1/2 c sopa de curry em pó (se preferir, reduza a quantidade para que fique a seu gosto)
1/2 x de vinagre

Aqueça o óleo em uma panela grande. Adicione a pimenta calabresa, quando começar a fritar, adicione a cebola. Abaixe a temperatura, tampe e cozinhe até que fique macia mexendo de vez em quando. Aumente a temperatura para média, adicione o gengibre e o pimentão. Mexa e deixe refogar por cerca de 2-3 minutos. Junte as frutas, o açúcar, o curry e o vinagre. Deixe cozinhar em temperatura baixa por cerca de 30 minutos, mexa de vez em quando. Espere o chutney esfriar completamente e conserve na geladeira em recipientes bem fechados.

17.9.13

O sonho da primeira noite - Natsume Sôseki

Ontem foi o primeiro dia de aula do curso deste semestre. Professor made in Japan. Ele chegou de viagem no domingo e deu aula na segunda com jetlag e tudo. Não fala português, a aula foi toda em japonês. Estava preocupada, perguntando-me se não ficaria perdida, mas até que entendi bem, ele escolhe palavras simples, fala devagar e de forma clara. Fiquei contente. O problema é do meu lado. Para ler e escrever há os dicionários, mas falar exige uma resposta imediata e, enquanto fico procurando pelas palavras apropriadas, sinto que elas fogem como borboletas. Para me comunicar melhor, tenho que falar mais, nem que esteja errado, não é mesmo? Darei o rosto a bater e sei que vai doer.

Nós nos apresentamos e discutimos um texto de Natsume Soseki do livro "Dez noites de sonhos". Lemos o primeiro sonho, um dos mais bonitos e românticos. Acho que já há tradução para o português, mas decidi fazer minha versão. Traduções nem sempre são acessíveis e achei que algumas pessoas poderiam se interessar. Se gostarem, posso tentar traduzir mais textos curtos de autores pouco conhecidos por aqui no futuro, é um bom exercício para mim. E se houver erros ou correções a fazer, por favor, digam.



O sonho da primeira noite

Tive este sonho.
Sentava-me com os braços cruzados à cabeceira de uma mulher que estava deitada com o rosto voltado para cima. Ela disse que iria morrer com uma voz calma. Seus longos cabelos espalhavam-se sobre o travesseiro emoldurando os contornos de sua delicada face oval. A cor de seu sangue era visível sob as bochechas brancas, seus lábios eram vermelhos. Ela não parecia prestes a morrer. Mas a mulher, com voz calma, disse claramente que iria morrer. Eu também achava que ela iria morrer. “Ah, então você vai morrer?”, perguntei espiando-a. “Vou morrer”, respondeu ela abrindo os olhos. Olhos grandes e úmidos, uma superfície negra circundada por longos cílios. Meu reflexo flutuava vividamente no interior de suas pupilas.
Perguntava-me se ela realmente iria morrer observando o brilho daqueles olhos negros cuja transparência permitia que mergulhasse até seu interior. “Você não vai morrer, não é mesmo? Está tudo bem, não está?”, perguntei outra vez aproximando os lábios de sua cabeceira. “Mas sim, vou morrer, não há o que fazer”, respondeu ela com os olhos sonolentos.
“Você consegue ver meu rosto?”, perguntei com emoção. “Se o vejo? Ora, não estou refletida em seus olhos?”, respondeu rindo. Afastei o rosto sem dizer nada. Perguntava-me se ela realmente iria morrer enquanto cruzava os braços. Após algum tempo, ouvi-a dizer:
“Depois que eu morrer, enterre-me. Cave um buraco com uma concha de madrepérola. Marque meu túmulo com os pedaços das estrelas que caíram do céu. Então fique ao seu lado e espere, pois irei reencontrá-lo”.
“Quando você retornará?”, perguntei.
“O sol nasce, não é mesmo? Depois ele se põe, não é mesmo? Então nasce e se põe outra vez, não é mesmo? Você pode esperar enquanto o sol rubro vai do leste para o oeste, do leste e cai no oeste?”
Balancei a cabeça sem dizer nada. Ela aumentou ligeiramente a entonação de sua voz calma:
“Espere cem anos”, disse de forma decidida, “sente-se ao lado de meu túmulo e espere cem anos. Virei ao seu encontro com certeza”.
Respondi apenas que a esperaria. Então o reflexo de meu rosto, que podia observar vividamente no interior de suas pupilas negras, começou a se desmanchar. Era como se as águas começassem a se movimentar e perturbar o reflexo de uma sombra, quando achei que elas iriam transbordar, os olhos se fecharam. Lágrimas surgiram entre seus longos cílios e escorreram sobre as suas bochechas. Ela morrera.
Fui ao jardim e cavei um buraco com uma concha de madrepérola. Ela era grande, com bordas regulares e afiadas. Cada vez que retirava a terra, a lua se refletia na sua parte externa. Sentia o cheiro da terra úmida. Terminei de cavar o buraco após algum tempo. Depositei a mulher em seu interior e comecei a cobri-la com a terra macia. Cada vez que fazia isso, a lua era refletida pela concha.
Depois, recolhi os pedaços de estrelas e coloquei-os sobre a terra. Eles eram arredondados, deviam ter perdido as arestas enquanto vieram caindo do céu por um longo tempo e ficaram assim. Enquanto os pegava e colocava sobre a terra, meu peito e mãos aqueceram-se um pouco.
Sentei-me sobre o musgo. Ia ficar ali esperando por cem anos, pensava, observando as pedras das estrelas. Logo, como dissera a mulher, o sol nasceu no leste. Era um sol grande e vermelho. Logo, também como dissera a mulher, ele se pôs no oeste e desapareceu de repente ainda vermelho. “Um dia”, contei.
Após algum tempo, um sol rubro se levantou e então se pôs em silêncio. “Dois dias”, contei outra vez.
Enquanto contava os dias dessa forma, não tinha mais ideia de quantas vezes vira o sol. Não importava quanto contasse, um inesgotável sol vermelho passava sobre minha cabeça. E, ainda assim, os cem anos nunca chegavam. Por fim, comecei a achar que fora enganado pela mulher enquanto observava o musgo que crescera sobre as pedras arredondadas.
Logo após ter esse pensamento, um caule verde surgiu por baixo das pedras inclinando-se em minha direção. Ele foi crescendo e parou perto de meu peito. Na ponta do caule delgado e trêmulo, ligeiramente inclinada, uma flor em botão abriu suas pétalas. Era um lírio branco cujo perfume penetrava meu nariz e ia até os ossos. Ele foi coberto pelo orvalho vindo de algum ponto acima e balançou de um lado para o outro devido ao próprio peso. Inclinei o pescoço e depositei um beijo nas pétalas brancas molhadas pelo orvalho frio. Quando afastava o rosto do lírio, olhei para o céu distante ao acaso e vi uma única estrela brilhando na madrugada.
“Então já se passaram cem anos!”, só então me dei conta daquilo.
 

27.8.13

Gilles Lipovetsky na revista francesa L'Express

De uma entrevista com o sociólogo Gilles Lipovetsky na revista francesa L'Express:


"Vivemos em um tempo superestetizado que, no entanto, não se traduz em um embelezamento do mundo."

"Estamos longe da imagem do artista profeta ou do artista maldito. Desde que Warhol reivindicou o status de artista comercial, a imagem romântica do artista deu lugar àquela do empreendedor, cujo objetivo é menos a glória eterna do que a celebridade e o dinheiro. O artista se põe de bom grado a serviço das grandes marcas: Murakami trabalhou para a Vuitton, Keith Haring para a Swatch. O artista é tratado como uma estrela: Damien Hirst fez uma capa para a Time, os grandes arquitetos são icones mundiais. E, em sentido inverso, todos os setores são declarados artísticos: os grandes chefs, os criadores de moda (que são expostos em museus), até os homens de negócios (Steve Jobs, o "artista visionário")... A arte era a inimiga do mundo do dinheiro, inaceitavelmente, ela acabou vítima da lógica do business. O tempo da oposição entre arte e economia faz parte do passado."

"As mídias de massa permitem um acesso às obras inédito na história: são milhões de indivíduos que, hoje, ouvem música, assistem a filmes e contemplam as mais belas obras arquiteturais do mundo. Da mesma forma, as mídias contribuem para a formação de um neoconsumidor esteta em busca constante de emoções ligadas a textos, sons e paisagens. O capitalismo estético proletarizou menos o consumidor do que o estetizou. Agora, os indivíduos, em massa, desejam ver as belezas do mundo e escutar música; eles decoram suas casas e se vestem de acordo com a moda. E o desenvolvimento dos meios midiáticos, da internet em particular, engendrou o desejo de criação pessoal em massa: como prova, os blogs, os clipes, as fotos. Entretanto, evidentemente, isso não é sinônimo de qualidade artistica. Da mesma forma, a democratização dos gostos estéticos não significa um enriquecimento da experiência estética: o visitante contemporâneo que permanece dez seguntos diante de uma tela de Ticiano, o que ele apreende? O que compreende daquilo que é a própria substância da beleza?"

"Desejamos saborear a qualidade do presente, mas a empreitada exige uma performance crescente com seu lote de estresse, frustrações e baixa autoestima. As tensões se multiplicam entre consumismo e ecologia, hedonismo e medicação da sociedade, qualidade de vida e aceleração dos ritmos (ansiedade, depressão, vícios), conflitos intersubjetivos (divórcios, separações, incompreensões...) estão em alta. O capitalismo estético globalizado e a individualização de nossa relação com o mundo são acompanhados pelo sentimento de passar ao largo da "bela" vida. A sociedade superestetizada não conduz a uma humanidade mais feliz."