30.7.10

Torta de tomates ou legumes da Célia


 Receita do blog da Sonia Novaes, para fazer e guardar. A Sonia sempre coloca as receitas que aprende com as amigas no blog e elas sempre são tiro e queda. A massa desta torta é bastante diferente, fiquei com medo de acabar com uma massa grudenta para espalhar na forma, mas na hora em que você mistura todos os ingredientes, ela praticamente se solta das paredes do recipiente em que estiver sendo preparada e aí basta espalhar na forma com as pontas dos dedos. O diferencial é a quantidade de óleo, ele evita que a massa fique grudenta e torna-a muito crocante depois de assada. 

Fiz a minha apenas com uma camada de fatias de abobrinha, uma camada de fatias de tomate e um pouco de parmesão ralado. Polvilhei um pouco de sal para temperar os legumes e óregano. Adorei o resultado. Você pode cobrir com os ingredientes que tiver à disposição. Rendeu uma assadeira grande.




Tortinha de tomate ou legumes da Célia

(a medida do copo,é a de requeijão)
2 copos de farinha de trigo
1/2 copo de óleo (metade azeite e metade óleo)
1 copo de leite
1/2 colher de sopa de pó royal

Coloque tudo numa tigela e misture bem com as mãos, mexa até incorporar bem os ingredientes. (Não colocar sal).

Forrar uma assadeira de alumínio pequena (não precisa untar) com a massa.

Vai abrindo aos poucos, esticando bem. Forre a lateral também.

Por cima da massa, colocar rodelas de tomates, cortadas bem fininhas, por cima, salpique orégano, queijo ralado, mussarela, atum, cebola e ervilha. Uma camada de cada.

Leve para assar em forno médio. Mais ou menos vinte minutos.

(o recheio fica a critério de cada um)

28.7.10

Das viagens

Ontem, comecei a assistir ao programa Faut pas rêver da TV5. É um outro programa de documentários de que gosto muito, desta vez, o tema era o Laos. Aquele país longínquo do sudeste asiático. Em um dos documentários, um monge budista dizia que o turismo havia aumentado muito com a abertura do país no começo desta década e que era chocante sair na rua para pedir donativos. Agora, quando eles punham os pés para fora dos templos, havia uma dezena de turistas com máquinas fotográficas em punho para tirar fotos deles. Fiquei pensando em como isso deve ser estranho. Você é monge, está lá sossegado, fazendo as mesmas coisas que os monges fazem há centenas de anos e, de repente, você virou atração turística. Há um lado bom no turismo, os templos viraram patrimônio cultural da Unesco e estão sendo restaurados, a população local tem emprego e o turismo traz dinheiro. No entanto, fiquei pensando em como  viajar está se tornando uma coisa vulgar. Uma coleção de fotos em álbuns, flickr, blogs, etc. Eu mesma não estou imune a isso. Entendo o Paul Bowles quando ele diz que viajar perdeu seu charme, virou uma coisa de massa e o contato com os "locais" transformou-se em barganha. 

Será que ainda é possível "viajar" de verdade e não "fazer turismo"? Andar pelas ruas sem precisar tirar  uma foto daquela senhora "pitoresca", sem consultar centenas de manuais, sem ter que comprar tudo? Procurar ser um elemento do cenário e não algo que o perturbe?


25.7.10

Echoes of the rainbow



Filme de Hong Kong que ganhou um urso de cristal em Berlim. Ele conta a história de uma família de classe média-baixa: mãe zelosa, pai dono de uma pequena loja de sapatos no final de uma viela que se esforça para pagar os estudos dos dois filhos. O mais velho tem dezesseis anos e é o filho perfeito: ótimo atleta e aluno; o mais novo tem oito anos, é bastante esperto (e meio delinquente) e passa boa parte do tempo com o nariz grudado na lousa por aprontar nas aulas. 

O filme começa com o filho mais novo roubando uma tartaruga e um aquário que ele enfia na cabeça como se fosse um capacete de astronauta. Você imagina que o filme é do estilo daqueles do Fellini, sobre um bairro, as figuras que o frequentam e as histórias da vizinhança, algo mais leve e nostálgico, mas, de repente, uma tragédia sucede a outra e o espectador acaba em lágrimas... 

Melodramático, mas tem seu lado divertido e tocante. Retrata a vida  na Hong Kong dos anos 60, as refeições feitas do lado de fora da casa, quase comunitárias, a corrupção dos policiais que cobram um "extra" dos lojistas e o serviço mercenário dos hospitais. Li que o filme de Alex Law é autobiográfico, não pesquisei o quanto, mas se for tudo fiel, que acontecimentos tristes!

O título original é "Tempo, o ladrão" e a história é sobre isso mesmo, sobre como o tempo nos rouba as ilusões e as pessoas amadas.


21.7.10

Maminha assada com manteiga de mostarda à l'ancienne


Fiz esta receita duas vezes e os resultados foram diferentes em cada uma delas. Na primeira vez, a carne ficou muito macia, na segunda, um pouco mais dura, talvez por uma diferença no corte e  na espessura da peça que comprei. (Recomendo uma peça mais para grossa do que para fina). Bem, cozinhar é assim mesmo, sujeito a variações de temperatura, pressão e humor da cozinheira.

O que posso dizer é que gostei muito dessa forma de preparar maminha. A combinação de sabores é deliciosa. Receita daqui.


Carne assada com manteiga de mostarda à l'ancienne

1 kg de maminha bovina (peça inteira)
3 colheres de sopa de manteiga de lata
2 colheres de sopa bem generosas de mostarda dijon à l'ancienne
pimenta moída a gosto
sal grosso a gosto

Preparo: 

Escolha uma peça de maminha que tenha pouca gordura (mas precisa ter um pouquinho). Misture a manteiga já amolecida em temperatura ambiente à mostarda até formar um creme. Besunte toda a peça de carne com esta manteiga de mostarda e depois polvilhe com pimenta e sal. Forre uma assadeira com papel manteiga untado ou com papel alumínio deixando sobrar um bom pedaço ainda, suficiente para cobrir a carne. Deite a carne sobre o papel com a parte da gordura voltada para baixo e cubra com a outra parte de papel. Leve ao forno pré-aquecido em temperatura alta por 30 minutos. Retire do forno, regue a carne com o caldo que se formou na assadeira e volte a carne ao forno médio, agora descoberta, e deixe por mais 30 minutos. Acompanhe o cozimento, quando a carne estiver bem douradinha e o caldo mais encorpado desligue e sirva acompanhado de arroz ou risotto. 


17.7.10

Óculos



Esse é título de um filme japonês de 2007.

Uma mulher chega em uma pequena ilha de Okinawa e se hospeda  em uma pousada para fugir da vida estressante, ao menos é o que o filme dá a entender, pois ninguém sabe o que ela faz ou de onde vem. Ela apenas diz que escolheu a pousada porque buscava um lugar onde seu celular não pegasse. Infelizmente, tudo é tranquilo demais por lá e ela começa a se estressar por não ter absolutamente nada para fazer, a não ficar sentada de frente para o mar ou em uma cadeira no jardim.

Os únicos habitantes permanentes da pousada são o dono e um cão. Na primavera, a eles se juntam uma senhora que ajuda na cozinha, e com os poucos hóspedes, e também uma jovem professora da escola local.

Durante sua permanência, a senhora faz um tipo de raspadinha que oferece de graça em uma barraquinha na praia. A tal raspadinha consiste de uma porção de azuki cozido com açúcar coberta com gelo raspado e  uma calda. Não sei se a combinação é boa, mas como gosto de shiruko, não deve ser ruim.  Esse doce parece ter propriedades terapêuticas, pois todos aqueles que o provam sempre voltam para a ilha.

O filme é lento, muito leeento. Bom para quem aprecia os filmes do  Abbas Kiarostami, mas com uma paisagem litorânea linda no lugar do deserto iraniano. Ele se concentra na mulher que vai se deixando envolver pelo ambiente e a apreciar as "pequenas coisas da vida" : as refeições junto com o dono da pousada e eventuais visitantes, as sessões de exercício matinal na praia e mesmo ficar sentada no jardim.

No começo, quando ela pergunta o que se pode fazer na ilha, o dono do hotel diz que as pessoas que vão para lá praticam o "tasogare", literalmente "pôr-do-sol", "entardecer", em japonês. Com o tempo, ela passa a compreender que a palavra quer dizer  "não fazer nada, olhar para a natureza e refletir sobre a vida".

Os personagens são simpáticos, fáceis de se gostar, os diálogos são mínimos e nada  significativo acontece, mas é bonito. Dá vontade de pegar o primeiro avião para Okinawa e tentar achar a tal pousada.

(Ah, sobre o título, é porque todos os personagens principais usam óculos!)


15.7.10

Pera assada que virou torta. Ou de como nada se perde, tudo se transforma

1) Cobri metades de três peras sem sementes com uma mistura feita com aveia, mel, nozes picadas, passas e canela. Coloquei-as em um refratário com um pouco de suco de laranja no fundo (pode ser  suco de maçã ou mesmo vinho) e assei por cerca de 30-40 min. (Nota: lembrar de cortar uma fatia da parte debaixo de cada metade de pera para ter uma "base" para mantê-las na horizontal dentro do refratário).

2) A sobremesa acima não fez muito sucesso, então, no dia seguinte, preparei uma massa grosseira  quase sem medidas usando um ovo, farinha integral+normal, manteiga+óleo de canola, açúcar demerara e fermento. Espalhei a massa em uma forma e cobri com as peras assadas cortadas em pedaços + a cobertura de aveia como se fosse uma "farofa". Levei ao forno e esperei a massar assar. Até que a torta ficou boa!

13.7.10

Basta-te a ti mesmo!

Ontem, estava "zapeando" de um canal para outro e parei na TVE, o canal espanhol, geralmente só assisto aos programas que deixo gravados no aparelho, mas o título do programa despertou meu interesse: "Espanhóis no mundo". O episódio em questão era sobre os espanhóis que viviam na Jordânia, era tarde e vi apenas alguns depoimentos, o mais tocante foi o de uma mulher de 32 anos que foi para lá, casou-se com um jordaniano de uma tribo nômade e decidiu ficar. Ela vendia artesanato em uma tenda no deserto e esperava o primeiro filho, a renda era toda revertida para a comunidade e ela e o marido conservavam apenas o suficiente para alimentar e manter a tenda/casa. Ela disse que estava muito feliz, havia deixado um emprego em uma empresa de engenharia e não sentia saudades da vida que levava na Europa. Uma cabeça tão boa! O filho nasceria na Espanha para ter dupla nacionalidade, o casal combinou que se tivessem que se divorciar, seria por um dinar (a moeda local) e os filhos seriam educados na Europa. Uma coisa louca, mas ela fazia tudo parecer muito simples, e vai ver que é mesmo. Sempre desconfiei que, para dançar e viver, pensar demais só atrapalha.

Adoro documentários que mostram a vida de outras pessoas, há tantos bons exemplos por aí! Outro dia, desta vez em um programa da NHK que sempre gravo, vi uma mulher que trabalhava com cerâmica. A casa dela era praticamente um galpão onde ela havia instalado um forno para queimar suas peças. Os móveis tinham sido feitos por ela mesma com restos de madeira, tudo bastante improvisado, mas confortável. Ela dizia que tinha aprendido a viver com apenas aquilo de que necessitava e podia dispensar o resto porque fazia algo de que gostava. Se chegasse um momento em que não pudesse mais viver daquela forma, ela abriria mão de tudo e iria para a cidade. Tão bacana! (Claro que morar praticamente na frente de uma praia quase deserta ajuda bastante!)

Li Rousseau até não conseguir mais nem chegar perto dos livros grossos da Gallimard,  mas acho que não aprendi o suficiente. Segundo ele, o ser humano seria feliz se fosse autossuficiente, se não transformasse desejos em necessidades. Bonito, mas difícil colocar isso em prática. Realmente admiro as pessoas que atingiram esse grau de desprendimento.


11.7.10

As finalidades da vida - Keith Thomas


Gosto muito de livros de história e fazia algum tempo que não lia algo sobre o período moderno (que vai do século XVI até o XVIII) minha área de pesquisa em outra encarnação.
Keith Thomas é considerado uma grande autoridade em história da Inglaterra, mas não foi por isso que li seu livro, foi pelo assunto, afinal, ele vem bem a calhar para alguém que não sabe muito bem qual a sua vocação nesta vida. Infelizmente, já aviso que o livro não dá uma resposta. Ele se limita a repetir que "o que fazer com a minha vida?" e "a que dedicar minha existência?" são questões constantes do ser humano. 

O livro é dividido em grandes temas/capítulos, tais como: proeza militar, trabalho e vocação, riqueza e posses, honra e reputação, amizade e sociabilidade, fama e imortalidade. O autor faz uma grande compilação de textos e autores do período e reúne uma série de documentos para nos dar uma ideia do grau de importância que as pessoas atribuem a cada um desses temas no período moderno na Grã-Bretanha. 

O que é fácil notar é que valores mudam com o passar dos séculos, o que é considerado essencial no século XVI já deixa de ser visto da mesma forma no século XVIII, por exemplo, no início, morrer para salvar a reputação ou para vingar a honra era algo considerado essencial, no entanto, em meados do século XVIII, essa ideia deixa de ter força e, para muitos, duelos são vistos como algo bárbaro.

A amizade e a sociabilidade, por sua vez, deixam de ser associadas à ideia de se ter um "patrão", um "benfeitor", como ocorria quando os nobres e pessoas abastadas tinham uma série de "protegidos" em seu círculo de relacionamentos, para ser ligadas às noções de amizade e de sociabilidade tais como as conhecemos hoje: como o encontro de pessoas com interesses comuns que apreciam umas às outras pelo o que elas são e não pelas vantagens que possam proporcionar. A relação deixa de ser vertical para ser horizontal.

A forma como as pessoas consideram fama e imortalidade também muda na medida em que as pessoas passam a considerar a existência como sendo o momento presente, e não uma vida de gozos no além do qual ninguém pode dar testemunhos. São todas mudanças sutis que alteram os pesos e as medidas do que cada um considera importante em sua vida.

E como encontramos o nosso espécime britânico no final do século XVIII?  Podemos dizer que seus valores não são muito diferentes dos nossos, homens pós-modernos. Não é possível dar um valor absoluto às riquezas, reputação, fama, etc., a vida pode ser apreciada por si mesma sem que seja necessário perseguir um objetivo  único que lhe dê sentido. Amigos, família, o respeito dos outros e o orgulho de um trabalho benfeito estão facilmente ao alcance de qualquer um. É isso que é preciso ter em mente. 

9.7.10

Torta de leite


O. sempre pede sobremesa quando não há quase nada na despensa e eu tenho que rodar a internet em busca de algo que possa fazer com os ingredientes à minha disposição. Desta vez dava para preparar uma massa para torta, mas como cobertura, eu só tinha leite.

Encontrei a receita desta torta típica (não sei o quão típica) da África do Sul no All recipes. Resolvi testá-la e, assim, comemoro o final da Copa. A massa é bem crocante,  mas bem mais durinha do que as massas "brisées", acho que ficaria boa também como biscoito, ela é coberta por um creme feito com leite, farinha, maisena e ovos. Achei que ele poderia ser um pouco mais leve, mas a combinação final ficou boa e não muito doce.

Forrei uma forma de cerca de 20 cm de diâmetro e mais 6 forminhas de 9cm, raramente uso essas forminhas e a tarefa foi meio cansativa, pois elas têm reentrâncias demais para preencher. Lembrei das tirinhas do Recruta Zero que, como castigo por alguma insubordinação, era obrigado a descascar batatas na cozinha do quartel. Para mim, as batatas seriam moleza comparadas às torturas da culinária contemporânea. Odiaria ter que forrar dezenas de forminhas iguais a essas, ou pior ainda, ter que rechear mini-coxinhas, mini-rissoles, qualquer coisa mini. Tragam-me as batatas, por favor!



Torta de leite

Massa:
1/2 x de manteiga à temperatura ambiente
1 x de açúcar
1 ovo
2 x de farinha
2 c chá de fermento em pó
1 pitada de sal


Creme:
4 x de leite
1 c chá de essência de baunilha (usei uma fava que fervi com o leite)
1 c sopa de manteiga
2 1/2 c sopa de farinha
2 1/2 c sopa de maisena
1/2 x de açúcar
2 ovos batidos
1/2 c chá de canela em pó

Preaqueça o forno à 175 C.

Misture a manteiga com o açúcar. Adicione o ovo e bata até que a mistura fique homogênea. Em outro recipiente, misture os ingredientes secos e depois junte à mistura de açúcar. Mexa até que tudo fique bem amalgamado. Forre as laterais e o fundo de duas formas de 22cm de diâmetro.

Asse por 10-15 min, até dourar.

Coloque o leite, a essência de baunilha e a manteiga em uma panela e esquente até ferver. Retire do fogo. Reserve.

Em outro recipiente, misture a farinha, a maisena e o açúcar. Adicione os ovos batidos e passados por uma peneira, misture até ficar homogêneo. Adicione esse creme ao leite e leve ao fogo até ferver mexendo constantemente. Cozinhe por 5 min, mexendo sempre. Despeje essa mistura sobre a massa já assada. Polvilhe com a canela e deixe esfriar antes de servir.

7.7.10

Na escuridão...

 

Acabei terminando a coletânea de 13 contos policiais (?) em japonês mais rápido do que imaginava. Fiquei contente em poder devolver o livro para minha professora antes das férias, não gosto de ficar com as coisas dos outros por muito tempo.

O livro é publicado periodicamente por uma associação de autores de histórias policiais, divertido, não?  Ele reúne os melhores contos do ano, esse era meio antigo, de 1980, e não sei se a associação continua com essa prática. 

Não sou lá muito fã de livros desse gênero, a única coisa parecida que li foi O homem do terno marrom da Agatha Christie que um amigo me emprestou no colegial. Achei ok na época e minha opinião ainda não mudou. O bom de ter lido esses contos em japonês é que eles são mais fáceis de entender, afinal,  tratam de fatos, acontecimentos concretos, e não têm imagens poéticas ou dramas internos, assuntos mais complicados para quem ainda não domina uma língua.

Sobre os contos, gostei de O espírito, sobre um morto que não conseguiria descansar em paz  até descobrir quem o matou e qual foi o motivo de seu assassinato. Outros me impressionaram bastante por seu lado sinistro. O título da coletânea é sugestivo - "Você na escuridão" -, mas achei algumas histórias realmente pesadas. Por exemplo, o conto de um cientista que desenvolve um método de transmitir os conhecimentos adquiridos de um morto para uma pessoa viva. Um pai  pede que ele use o procedimento no filho adulto que tem problemas mentais e se comporta como uma criança. O cientista concorda e injeta o líquido cerebral de um gênio da astrofísica no rapaz e, em pouco tempo, ele também se transforma em um gênio, mas o que o pai e o cientista não sabiam era que o morto era uma maníaco que violentava e matava mulheres, característica que é transmitida ao rapaz. O conto termina com o filho violentando e matando a própria mãe e com o pai matando o filho para tentar salvar a mulher.

Outro que chamou minha atenção, e tinha lá seu lado "cômico", foi o de  um grupo de ladras composto por oito donas de casa que se faziam passar por membros da associação de pais e mestres de uma escola e assaltavam casas de pessoas ricas. Elas roubavam apenas coisas que não dessem muito na vista como alimentos e roupas. Antes de ir embora, elas matavam as "madames" e suas empregadas para não deixar testemunhas. 

Um conto que me deu um medinho foi o de um abajur mal-assombrado. Um fantasma aparecia todas as vezes em que um casal fazia sexo com ele aceso. O abajur fora dado de presente por um senhor que matara a esposa e o amante dela e o fantasma na verdade era a última imagem vista pela mulher: o rosto do marido que a estrangulava. Quase todos os contos são sobre assassinatos cometidos por amantes ou esposos e, como é possível notar, os japoneses gostam de incorparar um toque sobrenatural às narrativas.

Lendo a coletânea, uma suspeita despertada quando li contos do Ryonosuke Akutagawa e do Kenzaburo Oe foi reforçada, a de que há um lado sombrio na psique japonesa que se não se expressa no cotidiano, encontra uma válvula de escape na literatura (e em mangás, animes...). Qual sua origem, não sei dizer.



3.7.10

Dentro do ônibus VI



Andar de ônibus é meu momento de meditação, ou melhor, de inquietação. Observar as casas,  os postes e as pessoas através da janela, a presença dos outros passageiros, toda essa familiaridade desperta meu desejo de outros ares: praias caribenhas, mercados de peixe em Zanzibar, ruelas napolitanas. Mas aí me lembro do que escreveu sabiamente Mario Quintana:  

"E quando, morto de mesmice, te vier a nostalgia de climas e costumes exóticos, de jornais impressos em misteriosos caracteres, de curiosas beberagens, de roupas de estranho corte e colorido, lembra-te que para alguém nós somos os antípodas: um remoto, inacreditável povo do outro lado do mundo, quase do outro lado da vida - uma gente de se ficar olhando, olhando, pasmado... Nós, os antípodas, somos assim." (Do inédito, in: Sapato florido).

E suspiro, porque parece mais simples deslocar meu corpo do que mudar a forma como veem meus olhos.