27.6.12

Osamu Dazai - O sol poente



Terminei de ler este livro de Osamu Dazai recentemente, o título, em japonês, traz os ideogramas de "inclinação, declínio" e de "sol" (斜陽). Ele narra o fim de uma família aristocrática em um período de transição no Japão após a segunda guerra. O texto é praticamente o diário de Kazuko, uma mulher divorciada de vinte e nove anos que conta como ela e sua mãe são obrigadas a venderem a casa que possuíam em Tóquio após a morte de seu pai e a se mudarem para uma casa menor em um vilarejo isolado. A vida inicialmente idílica se torna cada vez mais sufocante, sem perspectivas, ela passa o tempo todo cuidando da casa e de sua mãe, cuja saúde se deteriora após a mudança. 

Seu irmão se junta às duas após retornar da guerra. Ele é um intelectual com pretensões de se tornar um escritor, mas se limita a gastar o resto do dinheiro da família em Tóquio, onde passa os dias bebendo e fumando ópio na companhia de boêmios e mulheres em uma tentativa de esquecer sua incapacidade de se conformar com o tipo de vida que a sociedade lhe impõe. 

Kazuko quer algo mais para si, em suas palavras, pretende ser uma "revolucionária" e travar sua própria batalha com o mundo. Ela escreve cartas para um escritor mais velho com quem seu irmão costuma beber e revela que deseja ter um filho dele, os dois passam uma única noite juntos e, em sua última carta, ela escreve que está grávida e feliz com a perspectiva de criar aquela criança sozinha. Nesse momento, ela é o único membro restante de sua família, pois sua mãe morreu de tuberculose e seu irmão cometeu suicídio na noite em que ela foi para Tóquio encontrar seu escritor.

Cada capítulo abre uma porta para o seguinte e se fecha. Gostei muito do livro, há poesia e também crítica ao período de crise de valores pelo qual passa a sociedade japonesa. 

Dazai é um escritor de imagens belas e também cruéis. No instante em que Kazuko reencontra o escritor que não via há seis anos, ela percebe os efeitos do tempo em sua aparência e fica chocada. Há bolsas sob seus olhos, menos dentes e ela o compara a um velho macaco.

Minha tradução do japonês:

"Aquele era o seu arco-íris? Aquela pessoa era seu M.C., sua razão de viver? Seis anos. Os cabelos desgrenhados eram os mesmos, mas estavam tristemente avermelhados e desbotados, o rosto estava amarelo e inchado, as bordas dos olhos ficaram caídas e vermelhas. Ele perdera os dentes da frente e movia os maxilares sem parar. Um velho macaco parecia estar sentado no canto da sala com as costas curvadas."

Também há um outro trecho de que gostei muito, Kazuko está tricotanto uma blusa e usa a lã de um antigo cachecol feito para ela por sua mãe e de cuja cor rosa pálida ela nunca gostara. De repente, ela olha para a lã e para o céu nublado e percebe que aquela cor é perfeita para dias cinzentos e se dá conta de que sua mãe a tinha escolhido de propósito. Aquela pequena atenção a comove e ela lamenta não ter usado aquele cachecol no passado.

Enfim, muito boa literatura.


3 comentários:

aline naomi disse...

Fiquei interessada em ler! Parece ótimo.

Karen disse...

Aline, comecei um outro livro de Dazai ontem. Ele consegue fixar a atenção do leitor com poucas frases, impressionante. Pintura em palavras.

Barbie Emily disse...

Esse foi o primeiro livro que li dele. O Osamu Dazai é realmente um autor muito intenso.