10.4.08

The three cornered world - Natsume Soseki

Outro livro de Natsume Soseki. Muito bonito. A história é bem singela e narra as impressões de um artista que viaja até uma estação termal onde se hospeda em um pequeno hotel e os seus encontros com a filha do proprietário do lugar, O-nani, uma mulher com personalidade forte e um passado marcado por uma relação amorosa triste.

Apesar da Guerra da Manchúria ser mencionada e estar bem presente no final da história, é um dos livros mais “otimistas” de Soseki que li.

O personagem principal deve ser o ideal de artista do autor, ele é descompromissado, um andarilho em busca de inspiração que vive segundo o adágio do “Carpe Diem”, muito diferente do próprio Soseki que tinha uma vida mais complicada e atormentada por questões financeiras e conjugais.

O nome do livro em japonês (“Kusa Makura”) daria algo como “Travesseiros de relva” (como foi mantido em francês), mas o tradutor para o inglês preferiu usar uma expressão encontrada no texto, não tenho nada contra a sua decisão, mas que a expressão original era mais bonita, ah, isso era!
Eis alguns dos primeiros parágrafos, a profissão de fé do protagonista:

“Enquanto subia a trilha da montanha, comecei a refletir.
Aborde tudo racionalmente e você se tornará duro. Deixe-se levar pelo fluxo das emoções e será arrastado com a corrente. Dê rédeas aos seus desejos e você se sentirá desconfortavelmente confinado. Este nosso mundo não é um lugar muito agradável para se viver.
Quando o desconforto aumenta, você ficará inclinado a se mudar para um lugar onde a vida seja mais fácil. É somente quando percebe que ela não será mais agradável independente da altura que atinja que um poema pode nascer ou uma pintura pode ser criada.
A criação deste mundo não é o trabalho de um deus ou de um demônio, mas das pessoas comuns ao nosso redor, aqueles que vivem do outro lado da rua, ou ao nosso lado, movendo-se enquanto ocupam-se com seus afazeres cotidianos. Você pode achar que este mundo criado por pessoas comuns é um lugar horrível para se viver, mas para onde mais poderíamos ir? Mesmo que houvesse outro lugar, só poderia ser um lugar fora da esfera humana, e quem pode dizer se não seria um mundo ainda pior do que este?
Não há como escapar deste mundo. Portanto, se você acha a vida difícil, não há o que fazer além de procurar manter-se o mais calmo possível durante os períodos desagradáveis, mesmo que o consiga por períodos bem curtos, e assim tornar a breve duração da existência suportável. É aqui que a vocação do artista começa a existir, é aqui que o pintor recebe a incumbência divina. Agradeça aos céus por todos aqueles que, pelos meios tortuosos de sua arte, trazem tranqüilidade para o mundo e enriquecem os corações dos homens.
Despoje o mundo de todos aqueles cuidados e preocupações que o tornam um lugar desagradável para se viver e, ao invés dele, imagine um mundo de graciosidade. Agora você possui música, uma pintura, ou poema, ou escultura. Iria além e diria que não é necessário transformar essa visão em realidade. Apenas invoque essa imagem na frente de seus olhos e a poesia irá brilhar e canções irão fluir. Antes de passar seus pensamentos para o papel, você deve sentir o cristal retinir como um pequeno sino e elevar-se em seu interior, toda a gama de cores irá, por si só, gravar-se no olho de sua mente com todo o seu brilho, embora a tela permaneça intocada em seu cavalete. É suficiente que você seja capaz de adotar essa forma de considerar a vida e ver este mundo decadente, sujo e vulgar, purificado e belo na câmera de sua alma. Mesmo o poeta cujos pensamentos nunca foram expressos em um único verso, ou o pintor que não possui tintas e nunca pintou sequer um pedaço de tela, pode obter a salvação e libertar-se dos desejos e paixões terrenos. Eles podem entrar em um mundo de imaculada pureza quando quiserem e, desfazendo-se do jugo da avareza e do egoísmo, são capazes de construir um universo inigualável. Por isso, eles são mais felizes do que os ricos e famosos, do que qualquer senhor ou príncipe que já viveu, mais felizes do que todos aqueles para os quais este mundo vulgar prodigaliza suas afeições.”

6 comentários:

Kijar disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Anônimo disse...

Bravo!

Essa passagem sintetiza o móbile
de todo artista. Ela já foi expressa por vários escritores, de modos diferentes!
Obrigada por trazê-la até nós, Karen. Com certeza, vou perseguir
esse escritor.
Isabella.

Anônimo disse...

Perdão,
No comentário anterior, devido à pressa,e por ser uma palavra mais usada, acrescentei um 'e' no final da palavra móbil.
Isabella

Valentina disse...

karen, karen..voce é muuito especial.

Karen disse...

Isabella, isso acontece, não se preocupe. Soseki é um grande escritor.

Valentina, vindo de você, um elogio significa muito para mim!

Maria Helena disse...

Belíssimo, não conhecia, virou presente, obrigada!